Monday, 17 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Tradução, traição

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PAUL KRUGMAN

Luiz Egypto

Ex-colunista da revista Fortune, o economista Paul Krugman é uma daquelas fontes que todo jornalista econômico chegado a uma declaração bombástica gosta de ter: professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), previu a débâcle dos chamados "tigres asiáticos", escreve para The New York Review of Books e para o boletim eletrônico Slate, e é capaz de perorar sobre tudo, seja qual for o país e a economia em questão.

Velho conhecido da imprensa brasileira ? que, na falta de maior preparo na área econômica, com as exceções de praxe, adoooora personagens como ele, Jeffrey Sachs, Rudiger Dornbusch e outros menos votados ?, Krugman já andou chutando algumas bolas fora por esses campos verde-amarelos. Depois da crise asiática, em 1997, afirmou que o Brasil seria a bola da vez. Não foi, embora tivesse ganhado capas de jornais e revistas daqui. Após a desvalorização do real ao dólar, em janeiro de 1999, disse ? em coro com outras sumidades ? que a inflação brasileira iria disparar. Não disparou, malgrado as manchetes que a declaração produziu.

Mas nada disso vem ao caso, agora. O fato é que o economista continua badalado e tornou-se também badalado colunista de dois jornalões brasileiros ? Folha de S.Paulo e O Globo ? que reproduzem artigos seus originalmente publicados no New York Times, para gáudio e prazer da tigrada tupiniquim.

Na quinta-feira, 15/3, estavam lá os textos: caderno de Economia do Globo (pág. 35), com "cara" de coluna "da casa"; e no Dinheiro, da Folha (pág. B 5), sob o chapéu "Análise". No diário do Rio, 69 cm de coluna (10 picas), mais um abre de 6 cm (21 picas). No jornal paulista, 55 cm de coluna (11 picas).

No Globo, com o título "Depois da queda"; na Folha, "É hora de o Fed cortar os juros". No artigo, Krugman aproveita o gancho da forte queda nas Bolsas americanas (na segunda-feira, 12/3), discorre sobre a desaceleração da economia americana e palpita no embate interno entre a linha "vamos-cortar-juros-e-impostos-logo-senão-a-casa-cai", defendida pelo governo Bush, e a tese do "não-nos-afobemos-porque-somos-brilhantes-e-tudo-vai-se
-resolver-a-contento", sustentada pelo Federal Reserve, o banco central americano.

Duas posições nos Estados Unidos, duas traduções no Brasil. No excertos a seguir, os grifos são meus.

Diz O Globo: "O Fed não teria motivos para cortes excessivos nas taxas de juros".

Diz a Folha: "Sob esse cenário, o Fed não gostaria de cortar demais os juros".

Traduz a Folha: "E existe a possibilidade de uma armadilha ao estilo Japão, na qual até mesmo um corte nos juros para zero não seria suficiente".

Traduz O Globo: "E ainda existe a hipótese pouco provável, mas assustadora, de que os Estados Unidos caiam em armadilha no estilo japonês, na qual até mesmo a gradual redução das taxas de juros ladeira abaixo, até zero, se mostra insuficiente".

Crava a Folha: "Calculei o que a queda das Bolsas na segunda-feira [12/3] causaria no quesito consumo: um dia de declínio tão pesado nas ações pode deprimir mais os gastos dos consumidores do que o plano de corte de impostos de Bush os aceleraria em um ano. O que nos conduz à questão da política econômica".

Crava O Globo, no mesmíssimo trecho: "Fiz uns cálculos muito grosseiros a respeito do possível impacto do declínio do preço das ações na segunda-feira [12/3] sobre os gastos com consumo. A matemática é de fato muito incerta, mas os números sugerem que a queda de um dia no mercado acionário talvez provoque maior redução de gastos com consumo do que o efeito contrário decorrente de todo um ano de vigência do novo corte de impostos de Bush, na versão acelerada. E isso nos leva à questão das políticas públicas".

Não entendeu? Então o jeito é assinar The New York Times

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