Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Um trabalho sem fim

EDITORES DE LIVROS

Norma Couri (*)

Vai sair o sexto volume de uma coleção inédita.
A edição é da Edusp e da Com-Arte, dos alunos
de Editoração da Escola de Comunicação
e Artes da USP, e o tema da coleção é justamente
o editor. Chama-se Editando o Editor e já tratou da
vida e trabalho de Jacob Guinsburg da Perspectiva, Flavio Aderaldo,
da Hucitec, Ênio Silveira, da Civilização Brasileira,
Arlindo Pinto de Souza, da Luzeiro e Jorge Zahar da editora que
leva seu nome e situa-se, como a Civilização Brasileira,
no Rio de Janeiro. Agora o editor é Cláudio Giordano
que mantém ele mesmo uma Oficina do Livro onde ensina a restaurar,
organizar, ler, amar e editar livros.

Durante cinco anos Giordano abrigou sua editora e seis mil livros no pequeno apartamento do Itaim Bibi, em São Paulo, onde mora com a mulher e dois filhos. Ficava precisamente entre a janela e sua cama, no quarto de dormir. Sem saber ele simbolizava aquilo que o argentino Albert Manguel qualifica como o prazer sexual da leitura, já que é com um livro ? objeto erótico, com certeza ? que se vai para a cama.

Só aos 50 anos Giordano realizou o sonho de ser um editor brasileiro, dono de um conceito de editar contrário ao de hoje em dia, avesso às jogadas de marketing, aos títulos comerciais e às listas dos mais vendidos. Sua filosofia consiste em editar aquilo que outros editores por descaso, esquecimento, falta de vontade ou temor de retorno baixo determinaram que uma obra, por melhor que seja, não deve mais ser lida.

Confiança ilimitada

Giordano é o que se pode chamar de caçador de relíquias editoriais. Sua Oficina do Livro abriga hoje mais de 20 mil volumes adquiridos em sebos ou por doações, e a Editora Giordano já editou cerca de 100 livros pescados literalmente da lixeira do Brasil: Maria Não Me Mates que Sou Tua Mãe, lançado há 150 anos por Camilo Castelo Branco em Portugal, Livro das Bestas, alegoria política e moral escrita no século 13 pelo catalão Raimundo Lúlio, Formação de Discoteca, de Murilo Mendes, O Processo do Capitão Dreyfus escrito em 1895 por Rui Barbosa, Reino da Estupidez que é uma sátira à Academia pelo estudante de medicina mineiro perseguido pela Inquisição Francisco de Melo Franco. A Giordano lançou o romance de cavalaria Tirant Lo Blanc escrito pelo catalão Joanot Martorell e editado em 1490. E dispôs-se, junto com o Ateliê Editorial, a colocar de novo nas prateleiras a obra completa e os Diários de Pedro Nava.

Há livros grandes e robustos, há os pequenos e os quase folhetos, todos caprichadíssimos. Entre uma coisa e outra o jornal Nanico e as páginas sobre revistas antigas na Cult.

Giordano é filho de um operário italiano, ex-seminarista, ex-expert em computação e ex-bacharel em administração de empresas. Aos 64 anos, vivendo até então da aposentadoria, realizou o milagre de ser uma editora completa com gráfica, arquivo e corpo editorial. Exemplo para os tempos de hoje onde tudo se compra pronto e deve vir fácil via internet. Giordano justifica tudo pelo seu afinco, prazer, a confiança ilimitada no próprio taco sem esperar ajuda de ninguém. O livro de estréia já trazia, na epígrafe tirada de Eclesiastes (12, 12), o espírito da coleção: "Um último aviso, filho meu: fazer livros é um trabalho sem fim".

O lançamento deste sexto volume da coleção Editando o
Editor deu-se na quarta-feira 2/4, na Oficina do Livro Rubens Borba
de Moraes. Pedidos e informações nas livrarias Edusp,
tel. (11) 3091-4149; e-mail <divulga@edu.usp.br>

(*) Jornalista