Saturday, 22 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Veja e a razão imperialista

DOUTRINA EDITORIAL

Vanderlei Dorneles (*)


"Urge que a comunidade internacional tome providências para defenestrar Saddam Hussein do poder, independentemente de existirem ou não armas de destruição em massa."

"Como poderíamos ser cegos diante da realidade sanguinária deste ditador louco chamado Saddam Hussein?"

"A intervenção militar não será um gesto de imperialismo, mas um verdadeiro favor ao povo iraquiano."

"Onde estão as passeatas pedindo a derrubada do líder (Saddam) para o bem do povo iraquiano?"

"Saddam Hussein vendeu a alma ao diabo ou ele é o próprio?"

"Tiranos sanguinários de seu (Saddam) quilate só têm ouvidos para a voz das armas."

"A guerra é necessária no sentido de minar por completo qualquer ação de Saddam."


Não, não. Estas não são palavras de americanos furiosos, anti-Saddam, nem de parentes das vítimas do 11 de setembro. São frases que expressam os sentimentos e ansiedades de pessoas que pagam a gasolina a mais de dois reais, que convivem com a violência generalizada e moram num país cuja economia poderá ser assaltada por graves perdas em conseqüência da iminente guerra americana contra Saddam Hussein.

Elas expressam suas idéias na seção de cartas de Veja, interagindo com os textos da revista sobre os preparativos para, talvez, a mais questionada de todas as guerras.

A cobertura de Veja segue um padrão próprio em que se percebem sinais claros de partidarismo e evidente defesa da guerra e dos interesses americanos. Saddam é caracterizado exclusivamente pelo que há de pior em seu regime, e Bush é defendido como vítima da opinião pública, um quase-mártir e propagador da democracia, e instrumento para contenção do totalitarismo no planeta.

A tomada de posição da revista em relação à guerra se reflete na opinião quase generalizada das cartas de leitores publicadas. Essa situação pode estar favorecendo o enrijecimento do pensamento único e projetando idéias imperialistas sobre a opinião pública.

Neste texto, procuro analisar como a cobertura de Veja termina por sugerir certa apologia à guerra, pela caracterização ideológica de ambos os lados do iminente conflito, pela perspectiva americana com que trata o tema, pela avaliação que faz das manifestações populares e pela linguagem religiosa com fala da necessidade e dos eventuais resultados da guerra.

O período analisado compreende as edições entre 22 de janeiro e 12 de março de 2003. Escolhi este recorte pelo fato de que, nele, a guerra ainda não está decidida e, portanto, é objeto de debate público, o que Veja se propõe a fazer. Uma segunda razão é que nesse período ocorreram diversas manifestações populares, discutidas e analisadas nos textos da revista.

"Fenômeno" explicado

O uso de símbolos estereotipados na cobertura desta guerra por parte de Veja permite evidenciar um caráter partidarista e até preconceituoso ao se referir aos dois personagens principais em questão: George W. Bush e Saddam Hussein. O primeiro é precipitado, mas um bem-intencionado democrata do mundo desenvolvido; o segundo, um cruel ditador tribal.

Saddam é chamado em Veja de "carniceiro" (22/1/03, pág. 76), seu regime de "O califado do medo" e seu povo de "sociedade tribal" (5/2/03, pág. 70).

Nessa mesma edição, Veja descreve minuciosamente toda a estratégia americana para a guerra, com fotos e infográficos e tom triunfalista. Essa matéria é seguida por um texto de oito páginas, em que se descreve com detalhes os supostos "horrores" do governo de Bagdá, com o título "O califado do medo".

A revista informa, mesmo não-oficialmente, que toda pessoa de quem se suspeita qualquer atitude contrária ao regime de Saddam é punida com "língua cortada", "tortura", "violência", "choques elétricos", "queimaduras de todo tipo", estupros por "violadores da honra" (pág. 68). Os atos com que os filhos de Saddam tratam seus desafetos são descritos também com detalhes.

Veja afirma que Saddam é "implacável com os desafetos", que suas patentes são todas "inventadas" e que sua preocupação com a segurança beira a "paranóia" (5/2/03, pág. 72). Essa matéria despertou nos leitores de Veja grande indignação ao regime de Saddam. Foram publicadas cinco cartas na seção correspondente da edição seguinte (12/2/03, pág. 24). Todas condenando Saddam.

É impressionante ainda que Veja dê informações sobre as supostas armas de destruição em massa de Saddam, com base em discursos dos guerreiros americanos, sem questionamentos. Em cima do discurso de Colin Powell, a revista afirma que "o país (de Saddam) ainda tem armas químicas e biológicas e as esconde dos inspetores da ONU" (12/2/03, pág. 46).

Na matéria "Bush atacará com ou sem a ONU" (12/3/03, pág. 62), os "obstáculos" enfrentados pelo presidente americano são atribuídos a sua ação precipitada, mas sua intenção, como fica sugerida, é boa. Já Saddam tem intenções más. Ele se aproveitou da situação para "minar a base de apoio de Bush dentro da ONU" e "criou uma cisão no Ocidente, mas sua ditadura de 24 anos chegou ao fim".

Por sua vez, o olhar da revista sobre Bush e os Estados Unidos é na maioria das vezes positivo, com destaque para a alta tecnologia e o projeto de democratizar o Iraque. Referindo-se às tropas americanas no Golfo Pérsico, diz que "o gigante está pronto, e com sobra" (22/1/03, pág. 73). Com imagens de superaviões em movimento, Bush discursando em tom forte e soldados em ação, Veja chama a 101? Divisão Aerotransportada de "legendária" e capaz dos "ataques aéreos mais avançados" já conhecidos em guerra (12/2/03, pág. 44).

Na semana seguinte às manifestações pela paz em todo o mundo, Veja se posiciona na contramão do repto, levantando três vezes a pergunta "Por quê?". A revista indaga por que Bush é visto como "um inimigo do mundo civilizado", por que "não o retrato de Saddam" em vez de o de Bush nas manifestações e por que "Saddam é deixado em paz pela fina flor das consciências compassivas".

Veja responde suas próprias questões, dizendo que "Bush não é maluco, nem energúmeno, nem um monstro sedento de sangue" nem "está indo à guerra contra o Iraque para passar a mão no petróleo do país" (26/2/03, pág. 42).

A revista atribui o "fenômeno" da condenação popular de Bush a três fatores: "a formação política incompleta" do presidente, a "falange de falcões de que se cercou" e a "influência crescente da chamada direita cristã em sua maneira de pensar". A influência da vertente evangélica Nova Direita Cristã é o motivo de todo o discurso religioso de Bush contra seus inimigos. Nesse caso, na pior das hipóteses, o presidente americano, em seus atos precipitados e belicistas, não é nada mais e nada menos do que uma vítima de assessores fanáticos ou incompetentes.

Tom americano

Leitor que desconhecesse Veja, após leitura superficial da cobertura da guerra iminente, facilmente consideraria o periódico como legítima revista americana. A perspectiva com que Veja aborda a guerra não é de um veículo neutro, situado fora dos limites americanos. Ela fala como se a ocorrência da guerra fosse do completo interesse e vontade dos leitores. Em certos momentos, até quer indicar o que os americanos devem fazer para se darem bem. Prevê resultados positivos para os Estados Unidos e para o povo do Iraque. A oposição dos americanos e as manifestações ao redor do mundo todo são tratadas como "problemas".

Ao citar os "riscos" da guerra, Veja diz que "para administrar tudo isso foi concebido o mais ambicioso plano de intervenção…" (22/1/03, pág. 77). Em seguida, pondera: "O investimento compensa. As imensas reservas de petróleo serão um maná para as empresas americanas do ramo e, suspenso o embargo, para a própria recuperação do Iraque" (22/1/03, pág. 77).

Sobre a falta de apoio da população americana, Veja assegura que "todos esses obstáculos parecem agora contornados". Na mesma edição, a revista diz que "os americanos só têm a ganhar se conseguirem a autorização da ONU para invadir o Iraque e derrubar Saddam Hussein". Mas, para isso, "precisarão reverter a resistência à guerra manifestada por Rússia e China, além da França" (5/2/03, pág. 64).

O tom americano de Veja se patenteia ainda na descrição de como se deve fazer esta guerra. Contrastando a situação atual com a de 1991, a revista diz: "A tendência desta vez é restringir os bombardeios aéreos aos centros de comando, quartéis das tropas de elite, sistemas de defesa e bases de lançamento de mísseis e tentar antecipar ao máximo a invasão por terra ? de preferência à noite, para tirar proveito do equipamento usado pelos soldados que permite visão noturna". O texto conclui, vaticinando: "De qualquer forma, os dias de poder de Saddam estão contados" (5/2/03, pág. 65).

Em tom de veredicto

Outro aspecto de causar estranheza na cobertura de Veja, e que também emite sinais de colaboração com o império americano, é como a revista considera os movimentos populares. A linguagem utilizada para falar das manifestações chega a sugerir que causaram não só surpresa, mas total decepção.

A revista afirma claramente que "o vilão da história deveria ser Saddam Hussein". E justifica: "O ditador do Iraque invadiu dois países (Irã e Kuwait), usou gases venenosos para massacrar a minoria curda e, suspeita-se, esconde com propósitos malignos armas de destruição em massa". E reage: "O malvado internacional do momento, no entanto, é o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush" (29/1/03, pág. 62).

Um mês depois, a revista volta a emitir claramente seu ponto de vista sobre as manifestações pela paz. A matéria que pretende, com o título e a chamada de capa, apenas indicar o motivo por que o mundo se manifesta contrário a Bush, termina por ser uma deliberada defesa do presidente americano e da guerra. O texto inicia afirmando que o antiamericanismo, visto nas inúmeras manifestações ao redor do mundo, é um "sentimento em geral inconseqüente". Esse sentimento é denominado de "uma variável incômoda para Bush" (26/2/03, pág. 36).

Ainda sobre os manifestos, Veja considera uma incoerência condenar Bush, e trata a guerra em termos de se fazer "justiça" ou "não fazer justiça". Argumenta que "Saddam Hussein é um criminoso", que "provocou guerras contras os vizinhos porque tem sede de expandir seu império petrolífero". Já "praticou extermínios em massa de grupos dentro do próprio Iraque" e "mandou matar políticos que se opuseram a sua tirania". Além de matar "membros de sua própria família", mandou "torturar rivais das formas mais cruéis".

Veja segue com a afirmação categórica: "Comparar Bush a Saddam, concluindo que o americano é o Hitler da dupla, traduz má-fé ou ignorância". Por fim, delibera, em tom de veredicto: "Tirar Saddam do poder, com assassinato ou prisão, é uma medida justa" (26/2/03, pág. 39).

Moderna e democrática?

Somente uma razão autoritária e imperialista poderia lançar sobre a opinião pública tão evidente sinal de menosprezo para com os valores democráticos. Se os Estados Unidos não têm o direito de julgar, condenar e matar Saddam, sem a autorização das Nações Unidas, o único organismo legítimo para legislar internacionalmente, quanto direito tem Veja de fazer tal julgamento?

É necessário considerar que a diferença básica entre Saddam e Bush é que Saddam domina seu povo deixando-o ciente de que é um ditador e que é mau, já o presidente americano quer dominar o mundo, mas insiste ? e agora de forma agressiva ? em que o mundo considere que ele é justo e bom.

Veja conclui o texto que pretendia explicar por que Bush é odiado numa defesa ainda mais perigosa. Cita Condoleezza Rice, conselheira de Segurança Nacional da Casa Branca, e o filósofo francês Bernard-Henri Lévy, que consideram Saddam uma "entidade do mal", e o antiamericanismo, um fruto do ódio contra os Estados Unidos, próprio de totalitarismos como o "fascismo, o comunismo e o islamismo" (26/2/03, pág. 40).

Ao considerar o antiamericanismo das manifestações pela paz como vínculo totalitário, Veja mistura o repto pela paz, das manifestações ao redor do mundo, com os sentimentos irracionais de grupos intolerantes. E chama os pacifistas de totalitaristas. O tom americano ainda é retomado por Veja ao afirmar que o antiamericanismo não é outra coisa senão manifestação de cobiça e desgosto internacional frente ao desenvolvimento e ao poderio americano.

A revista afirma que "os americanos ainda são odiados por um motivo mais prosaico: porque há décadas vivem uma era de prosperidade sem igual na história humana". E completa: "Além disso, os Estados Unidos têm valores, como a democracia e a liberdade absoluta de manifestação de idéias e crenças, que chocam todos aqueles que aprovam regimes totalitários, entre eles os radicais islâmicos". A revista chega a afirmar que o individualismo americano "é uma característica cujos resultados são assombrosamente positivos" (26/2/03, pág. 40).

Como uma revista que se declara moderna e democrática pode exaltar a "democracia absoluta" dos americanos diante de atitudes tão claramente imperialistas? O governo americano mantém censura à imprensa na guerra contra o terror e agora quer forçar a opinião pública mundial a favor de suas intenções, para citar apenas dois graves gestos de absoluta antidemocracia.

Interesses decretados

Uma semana depois das manifestações internacionais pela paz, Veja publica a entrevista com o ensaísta americano Caleb Carr, reiterando seu próprio juízo dos atos populares, com o título "O pacifismo é ingênuo". A revista dá voz ao homem que considera que "os pacifistas são ingênuos e estão prestando um desserviço ao mundo" (5/3/03, pág. 14). Das sete cartas publicadas pela revista, na semana seguinte, quatro davam eco às palavras de Carr. Uma imprensa que se apresenta democrática e menospreza a manifestação popular pela paz dá evidente sinal de hipocrisia e imperialismo.

No ensaio "George W. Bush, o procurador de Deus", Roberto Pompeu de Toledo considera que a mentalidade religiosa que permeia os Estados Unidos e a Casa Branca talvez seja a mais forte razão por trás da intenção de guerra. O ensaísta desdenha que os Estados Unidos hoje constituam "uma audiência mais treinada para ouvir discursos em que se fala da luta do Bem contra o Mal, de Deus contra Satanás". Segundo ele, chegamos ao ponto em que, 200 anos depois do triunfo das Luzes e da afirmação da separação entre Igreja e Estado, "a maior das potências embrenha-se por uma senda onde política é religião e religião é política".

É curioso notar, porém, que a cobertura de Veja também está contaminada por essa visão religiosa e, contraditoriamente, belicista. Veja chega a prever os resultados da guerra em termos de um sonho: "Imagine-se um Iraque livre das atrocidades de Saddam, produzindo plenamente e com um projeto democrático. Parece bom demais para ser verdade. Mas é um sinal de esperança…" (22/1/03, pág. 77)

A revista usa uma linguagem religiosa para prever os resultados da ação das tropas americanas: "A partir daí, é possível que em poucos dias soldados da 101? Divisão estejam em Bagdá, com Saddam Hussein morto ou desaparecido, seu regime desmanchado e multidões de iraquianos saudando os libertadores" (12/2/03, pág. 46).

Na semana em que Colin Powell apresentou as razões americanas para a guerra, Veja fala das opiniões americanas contrárias à guerra, nestes termos: "Para os não-convertidos, as evidências foram fracas" (12/2/03, pág. 46). O tom religioso é retomado na edição de 26 de fevereiro, nas páginas 42 e 43, com o título "Quem é o inimigo?". Veja mais uma vez trata o assunto da guerra como uma questão de certo e errado, justo e injusto, bom e mau. Portanto, Bem e Mal.

Na mesma edição, a revista chega a emitir um veredicto sobre a opinião pública, afirmando que "o combate ao radicalismo islâmico é uma atitude que só não interessa aos radicais do Islã", como se todos os que não desejam a guerra estivessem não só a favor do islamismo, mas fossem contados como islâmicos literalmente.

Domínio contaminado

Em seguida, a revista alça um vôo ainda mais perigoso. Numa quase conclamação contra Saddam e a favor de Bush, diz: "Devem torcer para a derrocada do fanatismo islâmico todos aqueles que não aceitam colocar em risco valores como democracia e liberdade de expressão" (26/2/03, pág. 44). Todos os não-islâmicos, na visão de Veja, devem estar do lado certo e justo, torcendo pela vitória dos mísseis e das ogivas americanas. Bem e mal, nesse caso, é a classificação do mundo em islâmicos e não-islâmicos, democráticos e antidemocráticos, livres e dominados.

Na edição de 26/2/03, é dito, sem contrapesos, que Bush "vê a guerra como uma oportunidade de espalhar o vírus da democracia numa região dominada por tiranias corruptas", contrastando-se o "vírus da democracia" com os vírus das supostas armas biológicas (pág. 48). O bem contra o mal.

A cobertura de Veja a respeito dos preparativos americanos para a guerra contra o Iraque atribui consistentemente estereótipos negativos de tribalismo, crueldade, injustiça e atraso a Saddam, ao passo que Bush e os Estados Unidos são descritos com termos positivos como democracia, desenvolvimento, força, justiça e libertação.

A perspectiva de Veja é sempre americana. Ao descrever as estratégias dos americanos e suas intenções, usa uma linguagem positiva e, freqüentemente, até triunfalista. As manifestações populares, ao redor do mundo, em prol da paz, e das soluções diplomáticas, são tratadas pela revista como obstáculos para os Estados Unidos e como atos ingênuos e inconseqüentes. Essa postura frente à liberdade de expressão é um claro sintoma de espírito imperialista.

Ainda mais grave em seus efeitos sobre a opinião pública é a linguagem religiosa utilizada por Veja, chamando soldados americanos eventualmente vitoriosos em Bagdá de "libertadores", afirmando ser "justo" depor ou assassinar Saddam, antecipando-se a uma resolução da ONU, e sugerindo que todos os não-islâmicos deveriam torcer pela guerra e pela conseqüente vitória americana.

É irônico constatar que o "treino" para o convívio com discursos ressaltando a luta do bem contra o mal, propriamente identificado por Roberto Pompeu de Toledo, tenha possivelmente contaminado o domínio do próprio ensaísta ? a revista Veja. Nesse caso, os brasileiros mais atingidos pelas Luzes também vêem os conflitos pós-modernos como parte da eterna luta do Bem contra o Mal.

(*) Professor do curso de Jornalismo do Unasp, mestrando em Comunicação Social na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp)