Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Verdade, mercado e mídia

SANTÍSSIMA TRINDADE

Isak Bejzman (*)

Para o oceanógrafo e escritor britânico David Cromwell, existe uma santíssima trindade profana: a Verdade, as Forças do Mercado e a Mídia.

Leitor adicto de jornais, Cromwell teve sua atenção despertada para essa santa associação da modernidade pela assiduidade com que a maioria dos colunistas faz constar no rodapé de suas colunas o respectivo endereço eletrônico. Raciocinou que certamente os jornalistas esperavam algum retorno de seus leitores. Pensou e o fez: enviou a um colunista de sua escolha um correio eletrônico perguntando o seguinte: "Até que ponto podemos conhecer a verdade sobre o mundo a partir do foco da mídia/ou da mídia principal, inclusive seu próprio jornal?"

Da centena de correios eletrônicos enviados a jornalistas nunca me ocorreu fazer-lhes pergunta tão inteligente. Até hoje obtive uma única resposta, de Rosane Oliveira, do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Cromwell parece ser um cético em relação à mídia, tanto quanto Edward Herman e Chomsky em sua obra conjunta editada em 1988 e intitulada Manufacturing consent (O consentimento da indústria/dos fabricantes), em que os dois denunciam a mídia de massa, acusando-a nos seguintes termos: "Suas omissões, tendências, distorções, fraudes refletem o fato de que a mídia de massa é parte da mesma estrutura de poder que espolia o planeta e inflige abusos aos direitos humanos em escala maciça."

Cromwell acabou enviando a referida questão à colunista do ano (2000) da imprensa inglesa, Debora Orr, do jornal The Independent, e obteve dela a seguinte resposta: "Sim, a mídia é horrível. Restrita, usada em proveito próprio, preguiçosa, manipuladora, cínica e terrivelmente, terrivelmente apegada a uma opinião fixa."

"As organizações com o melhor PR (RP, relações públicas), como a Otan, são as que conseguem passar seus [fatos/ações] com mais eficácia, confiando em jornalistas amplamente submissos." E ela prossegue: "Se você recebe jornais diários e retrocede anos atrás verá que são surpreendentemente semelhantes." Cromwell não se satisfez com a resposta, apesar de a jornalista ter rotulado a mídia com as palavras "em proveito próprio".

"É até aí que vai a crítica dela?", perguntou-se ele. "E quanto à verdade mais importante, de que a mídia serve aos poderosos interesses das elites ? governos, corporações transnacionais, investidores internacionais?" Cromwell chama atenção para a mesmice das notícias, e tenho que concordar com ele. Parece que o mesmo acontece no Brasil. Não acredito que seja um tipo de conspiração. Na realidade fico com a impressão do grande público, de que em jornalismo quem está certo é a mídia principal. Em síntese, é ela que acaba sendo a verdadeira formadora de opinião.

No Rio Grande do Sul, o modelo da mídia principal é observado à risca: toda história jornalística é buscada na base do bater forte. Bater forte significa fazer perguntas duras, arrasar com o entrevistado, sem aprofundamento dos temas que dizem respeito às questões estruturais da sociedade. As conseqüências negativas desse tipo de imprensa e a desinformação são visíveis nas magistrais rinhas de galo que se travam em programas de TV eufemisticamente denominados de "debates".

Exemplo disso é a questão da soja transgênica. Decididamente não há interesse da grande imprensa em ver de fato para que é que ela veio. A biogenética toda é posta no mesmo saco, e o grande público acaba ficando com a questão subjacente. Da mesma maneira, no Rio Grande do Sul está acontecendo um bate-estaca danado sobre a segurança pública. A mídia encontrou um bode expiatório: a Secretaria de Segurança Pública estadual. Não há dúvida de que a função maior da imprensa é escarafunchar, duvidar. Pôr o dedo na moleira. É evidente que a secretaria deve ter seus erros, mas enquanto ela se constituir num bode expiatório a própria imprensa acaba jogando sem se aperceber contra a sociedade, já que o atrito é uma das formas mais fáceis de fazer pegar o fogo.

Desde que no Los Angeles Times, há quatro anos, a reunião de pauta começou a contar com a presença do diretor comercial, ficou mais que evidente que existe de fato uma santíssima trindade profana, e a mídia principal baseada nela vai esquecendo as afrontas que o meio ambiente sofre, as medidas provisórias, as denúncias que nunca são investigadas e por aí vai.

Todavia, ainda sigo acreditando na utopia. Ela existe porque, para felicidade do Brasil, estão aí muitos jornalistas que continuam se conduzindo pela ética. Mas tenho a impressão de que a imprensa brasileira esta imitando a londrina, e entrou de corpo e alma naquilo que os ingleses chamam de "pack journalism" ? o jornalismo de cosmético.

(*) Jornalista e médico-psiquiatra

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