Sábado, 10 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1409

>>Ainda a corrupção
>>Tratamento desigual

Ainda a corrupção

A Folha de S.Paulo publica nesta terça-feira informações sobre um relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos que vê a corrupção no Brasil como preocupante.

O estudo, elaborado anualmente, se refere ao ano passado e tem como pontos centrais o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro.

A corrupção entra na análise como uma das fontes de dinheiro ilegal que trafega pelo sistema financeiro internacional.

O documento cita o caso do presidente do Senado, José Sarney, que esteve no centro de acusações graves, entre as quais a de possuir conta bancária ilegal no exterior.

Refere-se também ao escândalo que envolve o governador licenciado do Distrito Federal, José Roberto Arruda, observando que os processos por crimes de corrupção no Brasil continuam lentos, com poucas condenações na área administrativa registradas em 2009.

O estudo anual do Departamento de Estado, elaborado a pedido do Congresso dos Estados Unidos, nunca teve grande repercussão porque é composto de análises de agentes americanos de informações baseadas no noticiário da imprensa local.

Como o noticiário sobre escândalos não segue metodologias confiáveis de compilação de dados, misturando provas com denúncias e meras declarações, o documento acaba se transformando em nada mais do que um “clipping”, ou seja, um apanhado de notícias de jornal.

Esse é um exemplo de como a imprensa produz notícias que se transformam em fatos, que novamente viram notícia.

O fenômeno era comum no tempo da inflação elevada e dos grandes ganhos de investidores no overnight: especulações plantadas em jornais ganhavam ares de realidade e acabavam produzindo efeitos no mercado, abrindo oportunidade de ganhos financeiros para os autores dos boatos.

A imprensa enche páginas com notícias sobre corrupção, comprovadas ou não, e depois publica a informação de que o governo dos Estados Unidos está preocupado com a corrupção no Brasil – preocupação essa alimentada pelas notícias da própria imprensa brasileira.

Um exemplo de material que pode acabar alimentando o relatório do ano que vem: a deputada distrital Eurides Brito, apanhada na turma do mensalão de Brasília guardando um maço de dinheiro na bolsa, afirma agora que o dinheiro vinha do ex-governador Joaquim Roriz, como pagamento de suas despesas pré-eleitorais.

A declaração tem claramente o objetivo de desviar para o ex-governador as acusações que pesam sobre José Roberto Arruda, mas não serve nem para isentar Arruda nem para reforçar a tese de que o esquema de corrupção foi montado ainda no governo de Joaquim Roriz.

Há indícios de que ali não há inocentes, mas quando todo mundo é suspeito, fica mais difícil encontrar o culpado.

Tratamento desigual

A questão da corrupção é muito mais complexa do que faz crer o noticiário.

O problema começa no sistema partidário, que não representa os perfis ideológicos e de interesses da população e favorece a criação de grupos de lobbies travestidos de partidos políticos.

Ao fazer muito barulho sem esclarecer como funcionam os esquemas que comprometem parlamentares e governantes ainda antes das eleições, a imprensa produz apenas relatórios como o do Departamento de Estado americano, e não ajuda a documentar o problema.

O noticiário dá ao cidadão comum a impressão de que nada funciona no país sem o pagamento de propina, o que não é necessariamente uma verdade. E de que também na corrupção existem castas sociais diferenciadas, o que é bem mais verossímil.

Alberto Dines:

– Uma questão está sendo discutida nas redações brasileiras mas ainda não conseguiu alcançar aos leitores: por que razão foi imposto o sigilo nas investigações sobre os negócios do empresário Fernando Sarney e o mesmo sigilo não vigorou nas investigações sobre as propinas recebidas pelo governador Arruda e seus asseclas no Distrito Federal? É evidente que a divulgação dos vídeos de Brasília foi decisiva para encarcerar pela primeira vez ma história um governador em pleno exercício de suas funções. Foi um avanço, uma vitória na luta contra a corrupção. Mas este avanço poderia ter ocorrido muito antes se a justiça não impedisse o jornal O Estado de S. Paulo de publicar o resto do inquérito ao qual teve acesso sobre os negócios da família Sarney. Em outras palavras: não teria havido tratamento diferenciado na divulgação de inquéritos da mesma origem e igual importância? A comparação, no entanto, não pode ser linear, a administração da justiça é um processo extremamente sutil, mas a questão é pertinente e, por isso, será explicada na edição desta noite no “Observatório da Imprensa” da TV-Brasil. Não perca, às 23 horas em rede nacional ao vivo. Em S. Paulo pelo Canal 4 da Net e 181 da TVA