Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

O custo de modernizar o rádio na migração AM-FM é sacrificar o jornalismo local?

(Foto: Lubos Houska por Pixabay)

O rádio já teve seu fim decretado em tempos históricos distintos. A chegada da TV, a informatização das emissoras, a internet e até mesmo as transmissões por streaming o colocaram como um meio com validade datada. No entanto, os dados sobre audiência apontam para um outro caminho. 

O consumo de rádio no Brasil tem aumentado desde a pandemia, segundo pesquisas anuais publicadas pela Kantar IBOPE Media. Em 2023, 80% da população das regiões metropolitanas disse ouvir o meio. Se ampliarmos para outros formatos de áudio, como por exemplo os podcasts, o número chega a 90% das pessoas ouvidas. Uma realidade que muito agrada o setor de radiodifusão que passa por transformação nos últimos anos por conta do processo de migração do AM-FM.

Desde 2013, data de assinatura do decreto 8.139 que autorizou a troca de dial no Brasil, o país acompanha os desdobramentos da mudança de espectro do rádio AM para o FM. Em 2016, as primeiras emissoras começaram a operar em Frequência Modulada, gerando oportunidade de renovação para empresas tradicionais radiofônicas, que entenderam a migração como possibilidade não somente de melhoria sonora como também de atualizar a programação para se reposicionar diante da convergência e das multiplataformas.

Nestes 10 anos do decreto, mais de 1,1 mil emissoras operam em nova banda trazendo qualidade sonora e sobrevida ao meio, que enfrentava desafios decorrentes de ruídos eletromagnéticos no AM, com perda de alcance, audiência e anunciantes. É fato que os radiodifusores têm muito a comemorar com a medida governamental entendida como um marco regulatório importante no cenário brasileiro da atualidade. Além de ter sido um respiro aos empresários, a migração foi uma das soluções encontrada para a falta de um modelo de transmissão digital no país.

No entanto, a troca no dial, além de constituir melhorias aos negócios, revelou-se uma estratégia para os proprietários de emissoras. Muitos donos de rádio aproveitaram o momento de investimento tecnológico não apenas para modernizar as operações, mas também como oportunidade para efetuar cortes, rescindir contratos e reduzir despesas com pessoal. Ou seja, a migração avalizou também um discurso de rejuvenescimento de marca resultando em um cenário de cortes e otimizações país afora. Prova disso são emissoras históricas, com mais de 40 ou 50 anos de atuação que deixaram de existir ou passaram a retransmitir conteúdo em rede.

Embora reconheçamos o potencial de grupos midiáticos e das redes em profissionalizar e ampliar o alcance para além do ambiente local, é importante debruçarmos o olhar para as estações do interior do Brasil. A adesão a tais redes, em alguns casos, resultou na diminuição do espaço dedicado à informação local. Emissoras que, desde a fundação, eram essencialmente focadas na comunicação de proximidade com a comunidade, adaptaram-se a estilos alinhados às FMs de grandes centros. 

Assim, o meio que sempre teve sua “vocação” voltada às pautas do entorno, aos temas dos bairros, deu lugar aos hits nacionais ou a programas destinados a um público de regiões metropolitanas. O buraco de rua, os eventos regionais e os times de interior não estão mais representados pelo radiojornalismo local em municípios que se ouviam nos microfones destas estações.

Evidentemente que o fenômeno não pode ser analisado de forma linear. No entanto, é fato que os estudos sobre o meio precisam enxergar o enxugamento da informação local como um possível problema futuro, onde não pertencer às pautas regionais significará perda de força política, de mobilização e até de enfraquecimento da opinião pública. O tempo há de mostrar os prejuízos do enfraquecimento do jornalismo. 

Diante deste fenômeno, faz-se necessário compreender se tal enxugamento da informação em um meio tão democrático como o rádio resultará ainda em um agravamento na percepção da realidade da população. Desta forma, os dez anos da migração do AM-FM representaram mudanças técnicas sim, mas também reacenderam discussões sobre o equilíbrio entre a preservação da identidade do jornalismo local e a adaptação às exigências da evolução do meio. A complexidade dessa transição requer uma redefinição do papel fundamental desempenhado pelo meio na comunidade, exigindo uma cuidadosa consideração às implicações socioculturais e uma abordagem estratégica para enfrentar os desafios contemporâneos.

Por fim, este texto não é apenas uma opinião desta autora, mas resultado de análises de pesquisas que acompanham de perto o processo de migração do AM para o FM no cenário radiofônico desde as primeiras trocas de espectro. O objetivo é refletir sobre os desafios enfrentados pelo radiojornalismo local nesse contexto de transição e suas implicações específicas para o jornalismo.

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Karina Woehl de Farias é Docente do Departamento de Comunicação Social da Unesp. Professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Mídia e Tecnologia da mesma instituição. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (UFSC) e Integrante do Grupo de Investigação em Rádio, Fonografia e Áudio (Girafa/CNPq). É vice coordenadora do GT História da Mídia Sonora da ALCAR.