Tuesday, 28 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

O que aprendi com a cobertura diária da pandemia de covid-19

(Foto: Divulgação RedeComCiência)

No dia 17 de janeiro, eu escrevia minha primeira matéria sobre uma doença misteriosa identificada na China. Ela nem tinha nome, suas origens e formas de transmissão não eram totalmente conhecidas e, embora já causasse alguma apreensão na comunidade internacional, ainda não havia ganhado tanto destaque na imprensa brasileira.

Naquele momento, o vírus havia infectado apenas 41 pessoas e causado duas mortes. Lembro que, na ocasião, entrevistei um porta-voz do Ministério da Saúde sobre as medidas que estavam sendo adotadas nos portos e aeroportos brasileiros, e ele ressaltou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e as autoridades chinesas ainda nem tinham certeza se a transmissão ocorria entre humanos.

Apenas 13 dias depois, eu e milhares de colegas pelo mundo acompanhamos a coletiva de imprensa da OMS na qual a entidade decretou emergência em saúde pública internacional pela doença. Menos de duas semanas após aquela primeira matéria, o vírus havia chegado a outros 19 países e infectado quase 10 mil pessoas, matando 213 delas.

Passados seis meses e 150 reportagens escritas, pesa cada vez mais o cansaço das longas jornadas de trabalho, isolamento e a tristeza por testemunhar e reportar tanta tristeza. Mas a experiência dessa cobertura diária, apesar de dura, me trouxe aprendizados que eu gostaria de compartilhar.

Nesses quatro meses de quarentena, com a redação toda trabalhando remotamente, só saí de casa por duas razões: ir ao supermercado ou entrar em hospitais para fazer matéria. Foram quatro, entre unidades privadas e públicas, nos quais vi idosos, jovens, pobres e ricos entubados em UTIs lotadas.

Antes da visita ao primeiro hospital, confesso que senti medo da contaminação. Tomei todas as precauções, me paramentei. Mas quando estava lá dentro, o receio ficou em segundo plano diante das cenas que vi. Pela primeira vez em dez anos como repórter, chorei durante uma pauta após presenciar um doente sofrendo uma parada cardíaca e sendo reanimado na minha frente.

Na verdade, chorei de alívio ao ver que ele tinha voltado à vida, mas também de angústia por não saber se ele conseguiria resistir à doença. Sempre que eu fazia pauta nos hospitais, ficava lembrando dias depois de alguns pacientes que eu tinha visto sedados. Todos têm uma história, um propósito de vida. Todos são o amor de alguém. Me perguntava se tinham sobrevivido.

Dessa experiência vem o primeiro aprendizado dessa pandemia para mim: a empatia, mais do que nunca, deve ser um princípio da profissão. Parece óbvio, mas não é. Nós, jornalistas, infelizmente nos acostumamos a narrar tragédias. E, mesmo nessas coberturas difíceis, temos que nos manter firmes, reportando com o máximo de objetividade. Muitas matérias são baseadas em números. Eles são importantes para mostrar o cenário macro de um problema, mas não conseguem traduzir o sofrimento de cenas como as que vi nas UTIs.

Nesta pandemia, é nosso dever profissional se colocar no lugar de cada pessoa que perdeu um parente ou amigo e imaginar a sua dor. Não importa se era do grupo de risco, se tinha cem anos, se possuía doenças crônicas que dificultavam a recuperação. Ver uma pessoa querida morrer de repente, de uma doença desconhecida, sozinha no hospital e sem direito à despedida é cruel. É nosso dever retratar essas histórias com respeito. É também nosso dever mostrar a gravidade dessa pandemia para que as pessoas entendam a necessidade das medidas de proteção e do isolamento.

Dentro desse mesmo objetivo, precisamos de uma cobertura mais ampla e acessível de ciência. Ela precisa ser entendida para ser valorizada. Se expressões como “medicina baseada em evidências”, “ensaios clínicos randomizados” e “uso off label” estivessem mais difundidos entre a população, talvez não teríamos perdido tantas vidas para o negacionismo. Quantas infecções e mortes teriam sido evitadas se a população seguisse as recomendações de autoridades sanitárias e não se deixasse enganar por promessas de curas milagrosas?

A cobertura jornalística de ciência deve ser também crítica, com questionamentos de pesquisas que não seguem as melhores práticas de metodologia e ética científicas. Nessa pandemia, vimos estudos serem realizados e divulgados sem o aval de comissão de ética, periódicos científicos renomados se retratarem pela publicação de pesquisas com dados incorretos, entre outros problemas. Ninguém está imune ao erro e é dever do jornalista ficar atento a trabalhos científicos feitos sem o devido rigor.

O jornalista também não está imune ao erro e uma das formas de melhorarmos a qualidade do nosso material é trabalhar colaborativamente, o que levo como mais um aprendizado. A maioria das redações montou núcleos especiais de cobertura da pandemia, com dezenas de repórteres vindos das mais diversas editorias, desde Esportes até Economia. Isso ajudou não só a trazer diferentes olhares e habilidades à cobertura, mas também a diluir a carga de trabalho que, nas primeiras semanas da pandemia, estava mais pesada para os repórteres especializados em saúde e ciência.

Do ponto de vista pessoal, o trabalho colaborativo me ajudou a encontrar um equilíbrio. Como jornalista de saúde, me sentia na obrigação de estar conectada o tempo todo. Aproveitava minha folga para ler mais papers sobre o assunto, ficava depois do horário de trabalho assistindo coletivas de imprensa de duas horas, conversava com fontes e assessores de madrugada e nos fins de semana de folga. A urgência da cobertura e a gravidade da situação me faziam sentir que o volume de trabalho nunca era suficiente, mesmo após longas jornadas e muitas matérias escritas.

Percebi que essa postura não era sustentável e que acabaria com minha saúde mental. Daí a importância de fazer parte de uma equipe em que todos abraçaram a missão de reportar sobre o tema, mesmo sem ser especialista no assunto. Fundamental a troca de conhecimento e contatos nesse processo. Com isso, me senti mais confortável para me desligar em alguns momentos.

Por fim, levo como aprendizado dessa pandemia que o combate à desinformação e ao ódio é um trabalho extenuante, mas essencial. Muitas vezes fui pessoalmente atacada nas redes sociais simplesmente por escrever uma matéria que trazia um resultado de um estudo científico desfavorável a um determinado medicamento. Desmereciam meu trabalho e até desejavam que um parente meu fosse infectado e morresse sem acesso ao tratamento.

Tive dias difíceis. Mesmo com muita motivação para fazer reportagens que, de alguma forma, auxiliassem no combate à pandemia, confesso que cheguei a questionar se estava conseguindo colaborar. Não compreendia como tantas pessoas negavam a gravidade da pandemia mesmo depois de inúmeras matérias com números assustadores, histórias de perdas, hospitais colapsados.

Me apeguei, então, à ideia de que a situação da pandemia no País estaria muito pior se a população não tivesse acesso à informação de qualidade. Algumas vidas podem ter sido perdidas por causa do negacionismo e da desinformação, mas quantas não foram salvas por jornalistas e divulgadores científicos sérios? Viver e narrar a pior pandemia do último século é desolador, mas nosso trabalho é mais necessário do que nunca.

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Fabiana Cambricoli é jornalista e mestra em saúde pública. Desde 2013, é repórter de saúde do Estadão. Escreveu a convite da RedeComCiência.