Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Além das inundações, uma enxurrada de fake news

(Foto: Negative Space/Pexels)

Tão logo se confirmou a situação de calamidade pública com as inundações se propagando por mais de 200 municípios gaúchos, surgiu uma enxurrada virtual de fake news despejada na Internet para circularem pelas redes sociais. Os boatos e mentiras com o objetivo de atingirem o governo federal chegaram a criar problemas para o atendimento, socorro e envio de mantimentos para os sinistrados.

Algumas pessoas e alguns grupos foram denunciados pela imprensa como criadores e distribuidores dessas fake news, mas tornara-se impossível conter seu fluxo, pois eram (e ainda são) replicadas por centenas de canais e milhares de redes sociais, contando com o apoio de grupos políticos e religiosos. Eu mesmo recebi fakes de um pastor e de militantes da extrema-direita bolsonarista.

Muita gente deve ter pensado, como eu, de ir coletando essas mensagens mentirosas para publicar um repertório das mais frequentes com seus responsáveis pela vasta propagação. Um paciente e quase impossível trabalho de pesquisa individual nas redes sociais.

Ora, o Laboratório de Estudos da Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro poupou esse trabalho a todos os pesquisadores e o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publicou no começo desta semana o primeiro resultado de suas pesquisas universitárias, orientadas pelas professoras Débora Salles e Marie Santini.

Os métodos de análise anunciados são o mapeamento qualitativo de influenciadores e narrativas de desinformação multiplataforma e análise manual de anúncios sensíveis e não sensíveis no Meta Ads, do Facebook e Instagram.

De acordo com a professora Marie Santini, “as narrativas dominantes são produzidas por influenciadores com grande número de seguidores e capacidade de angariar engajamentos… Eles têm grande conhecimento de como explorar emoções negativas”.

Além da desinformação, foram detectados 351 golpes explorando a tragédia, manipulada para fins políticos e econômicos. Assim “influenciadores, sites e políticos de extrema-direita têm utilizado a comoção para se autopromover e espalhar desinformação com o intuito de atacar e descredibilizar o governo”.

Os objetivos dessa fake news são afirmar que o atendimento do governo federal não tem sido suficiente, não haver ligação entre os eventos extremos e as mudanças climáticas, incluir a tragédia nas pautas morais com teorias de conspiração, aumentar a importância do papel da oposição na resposta à crise e se beneficiar da catástrofe se autopromovendo, fazendo pedidos de doação e utilizando-se de fraudes.

Na introdução à pesquisa da UFRJ, são também citadas reportagens investigativas e de checagem que nos direcionam à plataforma Aos Fatos, dedicada às campanhas de desinformação. Algumas das mais vistas desinformações tratam de doações descartadas, usando vídeo com cenas falsamente colhidas em Mathias Velho, Canoas. Na verdade, as cenas foram filmadas em setembro do ano passado em Encantado, quando empilhadeiras organizavam os donativos para aumentar o espaço nos armazéns.

Outra afirma que a TV SBT apagou uma reportagem mostrando caminhões com donativos sendo multados. Na verdade, foi um caso isolado e não se tratava de uma frota de caminhões. Um caminhão foi multado automaticamente por excesso de peso, porém a multa, e outros seis casos de multas ocorridos na pesagem, foram anuladas.

Outra mentira espalhada foi a de que o Ibama teria apreendido retroescavadeiras utilizadas para limpar estradas entre os municípios de Muçum e Vespasiano, no Rio Grande do Sul. O Ibama informou não fazer esse tipo de trabalho e que, diante das inundações, nem haveria condições para limpeza de estradas.

De uma maneira geral, ainda de acordo com Aos Fatos, ocorre o uso de cenas fora de contexto, gravadas em outros lugares, como China e México, e em épocas diferentes. Ou a divulgação de exigências falsas como a apresentação de documentos pelos proprietários de barcos e jet-skis utilizados pelos voluntários. Outras fakes objetivam criar pânico, como a notícia da descoberta de 300 corpos em Canoas, ou visam comprometer o governo federal com acusações de não estar prestando socorros.

Assim, o empresário Luciano Hang teria cedido mais aeronaves do que as Forças Armadas no resgate de vítimas das inundações. Um vídeo antigo é utilizado para enganar, como se Lula tivesse sido vaiado nestes dias no RS. Há ainda a alegação do governo federal ter patrocinado o show da Madonna com dinheiro destinado aos gaúchos. Ou que tudo foi um castigo de Deus, diante de tantos cultos africanos e candomblés.

Alguns desinformadores identificados

Talvez o mais importante seja o coach e influencer Pablo Marçal, com mais de oito milhões de seguidores só no Instagram. Num de seus fakes mais vistos, Pablo afirmou ser necessário notas fiscais para as doações. Seu fake diz textualmente que “a Secretaria da Fazenda do RS está barrando os caminhões de doações por falta de nota fiscal.”

Marçal, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) formam o trio mais ativo na distribuição de falsas informações, já denunciados pelo ministro da Justiça para a Polícia Federal. Outro criador e disseminador de mentiras é Nego Di. É dele a falsa informação da exigência de brevê de piloto para os voluntários que desejam ajudar com barco ou jet-ski. E de que a Polícia Federal estava bloqueando os veículos com doações, desinformação já desmentida.

A influenciadora Michelle Dias Abreu divulgou vídeo culpando religiões de matriz africana pela tragédia no Rio Grande do Sul. Em outras palavras, o vídeo, que viralizou no YouTube, dá o recado de ter sido um castigo de Deus. O Ministério Público de Minas Gerais indiciou a mineira de 43 anos pelo crime de intolerância religiosa. Depois de ter visto o impacto de seu vídeo no Instagram, com 4 milhões de curtidas, Michele gravou depressa outro vídeo pedindo textualmente “perdão”.

Para o advogado-geral da União, Jorge Messias, as notícias falsas a respeito da situação de calamidade no RS são uma estratégia de desinformação para obter ganhos políticos e eleitorais, além de ganho financeiro, pois muitos canais são monetizados.

Paulo Pimenta, agora ministro de Estado da Secretaria Extraordinária da Presidência da República para Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul definiu a desinformação sobre a tragédia no RS como tática da extrema-direita para destruir o Estado, para o povo considerar o Estado ineficiente e que as políticas públicas não funcionam. O ministro quer propor políticas públicas e programas de recuperação dentro de uma lógica sustentável, socioambiental e que se discutam e aprofundem as razões pelas quais aconteceu a tragédia.

Para ler a íntegra do relatório.

Algumas fake news mais vistas.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.