Saturday, 22 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Jornais não ligam para a educação

A Associação Mundial de Jornais está convidando editores, gerentes de marketing e coordenadores de projetos de jornais na educação, além de educadores, para a 6ª Conferência Mundial de Jovens Leitores, que vai se realizar em Buenos Aires entre os dias 18 e 21 deste mês. O objetivo é juntar esforços e criatividade para dar andamento a um projeto crucial para o futuro da imprensa: atrair leitores jovens e estancar o envelhecimento do público, que ameaça transformar o hábito de leitura em atividade típica da terceira idade.

Neste ano, a associação vai homenagear duas iniciativas bem-sucedidas no aumento do interesse de crianças e jovens pela imprensa. Não por coincidência, trata-se de dois projetos de educação, um deles o suplemento Eureka, do jornal irlandês The Irish Independent, com uma tiragem média diária de 177 mil exemplares. O outro, um caderno chamado Ciência da Vida, criado por um pequeno jornal comunitário da África do Sul, Limpopo Mirror, que tem uma circulação de apenas 8 mil exemplares por edição.

O programa inclui também a apresentação de uma pesquisa intitulada ‘Como cativar jovens leitores: 50 estratégias editoriais’, realizada por consultores da organização Innovation International, ligada à Universidade de Navarra, Espanha, além de outros estudos do programa ‘Jornais na Educação’. Algumas experiências de aproximação com crianças e jovens vão preencher uma sessão de informações e debates, com a presença, entre outros, do editor-chefe do Zero Hora, de Porto Alegre, Marcelo Rech.

No Brasil, esporte

A premiação a dois jornais inexpressivos, um deles um jornal que circula numa comunidade pobre da África do Sul, mostra que tem faltado criatividade à grande imprensa em todo o mundo para encarar o desafio de tornar a leitura de notícias uma atividade interessante para os espíritos irrequietos da juventude.

O Independent tem apenas 15 anos de idade e, além do suplemento que lhe valeu o prêmio, oferece costumeiramente uma série de temas complementares às atividades escolares, na versão impressa, em edições online e boletins que podem ser lidos no telefone celular, além de manter um permanente contato com seus leitores por meio de pesquisas e consultas de opinião – um recurso muito além das velhas seções de cartas da maioria dos diários.

O Limpopo Mirror começou com um suplemento semanal de ciência para adolescentes, mas logo percebeu que o conteúdo estava muito além da capacidade de compreensão de seu público. Em sua área de circulação, 50% da população têm até 18 anos de idade, 25% têm apenas o curso primário, 25% são analfabetos e apenas 12,6% têm um emprego formal. Ao mudar o projeto e visar as crianças do primeiro ao terceiro ano do ensino fundamental, o jornal acabou por atingir uma porcentagem maior do público. A escolha do material editorial leva em conta o potencial para carregar conhecimento básico de matemática, ciências, gramática e conhecimentos gerais, ajudando a suprir a falta de material didático nas escolas e nas casas dos alunos.

Os jornais brasileiros e de outros países latino-americanos que serão apresentados como exemplos de aproximação com o público jovem são invariavelmente publicações de esportes, como o diário Lance!. Embora a maior parte dos trabalhos que serão anunciados na conferência como bem-sucedidos estejam vinculados à educação, não há referência a projetos ambiciosos com instituições de ensino. Em geral, os projetos consistem na distribuição de alguns exemplares a professores, sem a aplicação de programas de acompanhamento do uso de jornais em sala de aula ou de pesquisa para percepção da qualidade do material editorial por parte dos jovens e dos educadores.

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Jornalista