Sunday, 03 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Chegou a hora do roxão cowboy

(Foto: Alan Santos/PR)

Para o ex-cadete 531 conhecido como Cavalão e mau soldado antes de ser expulso do Exército, capitão agora montado no Roxão Cowboy, chegou a hora. Na última pesquisa Datafolha, 42% dos entrevistados apoiaram o impeachment que vai passar dos 61 pedidos esta semana. A reprovação a Bolsonaro subiu para 40%. Apoio mesmo ele tem dos mesmos 31%. Os atos perversos e irresponsáveis do presidente negacionista agora atentam contra a vida. Para 62% de brasileiros a pandemia está fora de controle.

Parte do Centrão discute o seu impeachment, não acredita nas medidas do presidente exceto a economia, mas está cobrando caro pelo apoio: varrer os militares do Planalto e ocupar cargos chave. Bolsonaro segue na caluda puxado pela coleira ou pelas mesmas rédeas que usou para montar Roxo Cowboy só que no seu pescoço para manter os 72,5% de apoio parlamentar, leia-se contra o impeachment. A eleição de Arthur Lira ( Progressistas-AL) garantiria isso.

Se os crimes contra a Constituição não contaram enquanto ele estimulava arruaceiros contra o fechamento do Congresso e o STF atingido por fogos…se não foram contabilizados enquanto insinuava o apoio das Forças Armadas para desestabilizar o país e montava um gabinete de troca-troca com marionetes para sua inábil manipulação, se nada disso conta, então conta a vida. As quase 220 mil vidas que perdemos.

As pesquisas apontam um governo ruim ou péssimo, um presidente sem capacidade para liderar o país. Quanto mais o tempo passa, ninguém acredita como ele chegou lá. E o capitão aposta na invasão do Congresso em 2022, insinuando que a democracia” é um veneno para as corporações militares”.

Basta voltar ao julgamento do Superior Tribunal Militar pelo seu plano de explodir bombas na Vila Militar da Academia das Agulhas Negras, onde serviu de 1974 a 1977. Cavalão exigia reajuste de 60% no salário dos militares. Ali Bolsonaro foi detectado com “grave desvio de personalidade”.

No Congresso que ocupou como deputado durante 27 anos, Cavalão sempre defendeu a ditadura, homenageou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, preferia que a tortura tivesse “matado mais gente” para o país ficar melhor e incluíu Fernando Henrique nos fuzilamentos.

A demência não é isolada, montou seu gabinete tal e qual.

É a turma do disse-não-disse. Como o chanceler Ernesto Araújo que, depois de pregar a diplomacia dos conflitos e da exclusão, agora diz que não há nenhuma crise diplomática entre Brasil e China. E o general Pazuello, que já prescreveu cloroquina, ivermectina, azitromicina até para bebês, agora diz que nunca houve “tratamento precoce”.

O mundo inteiro já sabe, onde Ricardo Salles pisa não nasce grama mas na carta a Joe Biden Bolsonaro ressalta “a defesa da Amazônia”, “estamos prontos a continuar nossa parceria em prol do desenvolvimento sustentável e da proteção ao meio ambiente…”.

Só que a parceria era com Trump, entre outras coisas para desacreditar o acordo do clima de Paris, o acordo nuclear com o Irã, o desmérito da Organização Mundial do Comércio tirando a China de lá. Ainda podemos entrar na lista dos países que já não merecem as benesses tarifárias americanas. O Brasil, que já foi o maior mercado de energia renovável e pulmão do mundo, agora amarga a desconfiança, a rejeição e o isolamento.

Estamos babando com as medidas de Joe Biden derrubando em poucas horas mais de 100 medidas de desmonte de Trump incluindo a volta ao acordo de Paris. Biden varreu da Casa Branca bandeiras militares e colocou Benjamin Franklin (1706-1790) um dos founding fathers, no lugar do retrato do presidente Andrew Jackson (1829-1837) que estimulou o massacre de indígenas. O novo gabinete é o da diversidade, inclui negros, gays, latinos, indígenas, asiáticos.

Se não fosse a intervenção da velha diplomacia do Itamaraty não teríamos vacina. E foram os profissionais de carreira e técnicos da Anvisa que liberaram os insumos farmacêuticos ativos e a vacina “da China”. Mas quem posou para a foto em Guarulhos na chegada dos dois milhões de doses da vacina AstraZeneca de Oxford foram os ministros mais criticados pelo auge da pandemia brasileira: general Pazuello e Ernesto Araújo.

A ofensiva de comunicação montada no Planalto para reverter o vexame é digna da terra de Pinóquio. Estamos atrás da fila das vacinações no mundo, com falta de doses e seringas, mas o governo diz que as vacinas “já estão sendo distribuídas em todo o país”. A vacina do Dória ou da China agora é “a vacina do Brasil”. O general tornado ministro que comanda a Saúde desvencilha-se dos erros do passado e diz “a partir de agora só discuto o futuro”.

O presidente da Câmara americana vai votar o impeachment de Trump na segunda semana de fevereiro com apoio de democratas e republicanos que querem impedir sua reeleição.

No Brasil, o presidente da Câmara vai sair sem desengavetar os 61 pedidos de impeachment de Bolsonaro. O Procurador Geral da República não vê nenhuma irresponsabilidade na condução da pandemia pelo presidente, que pode conceder-lhe uma vaga no STF. Augusto Aras tira o corpo fora e diz que só quem pode fiscalizar o presidente é o Congresso — agora blindado com os cargos concedidos ao Centrão. E ainda sugere que o Brasil pode sair do estado de calamidade para o estado de sítio — o estado de calamidade “é a antessala do estado de defesa”.

O Ministério Público e a própria PGR criticaram tanto Augusto Aras que ele acabou por abrir um inquérito contra Pazuello pela distribuição de 120 mil doses de hidroxicloroquina em Manaus às vésperas do colapso por falta de oxigênio. Será o terceiro ministro da Saúde a cair, o bode expiatório da pandemia.

Estamos em guerra contra o ostracismo, contra o negacionismo da Ciência. O Brasil não é uma ilha, não devíamos nos indispor com nossos parceiros dos BRICS onde três países fabricam a vacina. Estamos na capa dos principais jornais do mundo pelo documento de 50 páginas que o cacique Raoni Metuktire apresentou ao Tribunal Internacional de Haia denunciando Bolsonaro por crimes contra a humanidade por seu comportamento na Amazônia provocando a vulnerabilidade dos indígenas na pandemia com a morte inclusive de sete caciques, além de se omitir na demarcação de suas reservas, e permitir o garimpo ilegal.

Este é um momento histórico, que Mario Sergio Conti chamou de pântano, pororoca ou praça (FSP, 23/1/21), José Eduardo Agualusa clamou para a nossa Liberdade, modo de usar (Globo, 23/1/21), e três luminares da Comissão Arns (Margarida Genevois, José Carlos Dias, Paulo Sergio Pinheiro) dizem Basta! (Globo, 24/1/21).

Roberto Freire, presidente da Cidadania, em entrevista por live esta semana a um grupo formado por jornalistas, deu a palavra final. Convidou os brasileiros a “abandonar o porto seguro e arriscar em mar aberto”. Estamos na pandemia, sem povo nas ruas, e no meio do caminho tem o Centrão, mas a hora é agora.

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Norma Couri é jornalista.