Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

O populismo digital do presidente bufão – II

(Foto: Arquivo Pessoal)

Dando continuidade à entrevista de Yvana Fechine publicada na edição 1211 (“O populismo digital do presidente bufão”), o Observatório da Imprensa explora como as estratégias de comunicação utilizadas por Bolsonaro atuaram (e atuam) a serviço da desinformação.

Yvana Fechine é jornalista e doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É professora do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e pesquisadora associada ao Centro de Pesquisas Sociossemióticas, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É autora do livro ‘‘Um bufão no poder’’ em coautoria com Paolo Demuru, professor do Programa de Pós-graduação da Universidade Paulista (UNIP). A obra trata da análise sociossemiótica da comunicação de Bolsonaro por meio das redes sociais que cria a ideia de pertencimento, presença e proximidade com os seguidores e faz uso de teorias da conspiração, do caos e desinformação.

Observatório da Imprensa – O livro aborda os diferentes tipos de estratégias discursivas utilizadas pelo presidente Bolsonaro e como elas evidenciam seu caráter bufônico. Quais são essas estratégias e como elas favorecem a desinformação?

Yvana Fechine – Nessa última eleição, por exemplo, o fato de Bolsonaro ter escolhido como tema de campanha a ameaça da implementação de banheiros unissex nas escolas mostra seu caráter bufônico. Esse tipo de tema cria um pânico moral que está muito relacionado com o discurso do caos que é um dos métodos utilizados por Bolsonaro. Perceba que esse pânico moral talvez se entrecruza com o discurso escatológico evangélico que seria o discurso que apela a visões apocalípticas sobre fim dos tempos, como nos seguintes discursos: ‘‘O Brasil vai virar Venezuela’’, ‘‘o Brasil vai virar Nicarágua’’, ‘‘Vamos virar um país comunista’’, ‘‘Vão tomar nossas casas’’. Dessa maneira você une as pessoas através do medo. No Brasil existe o agravante do nosso passado ditatorial, onde o comunismo era demonizado, já que éramos alinhados com o anticomunismo americanista da Guerra Fria. Isso mostra como o processo de desinformação ecoa e faz renascer uma série de preconceitos e imaginários que estão por aí, ainda mais que o Brasil é um país conservador.

Outra ferramenta discursiva típica do bufão é a vagueza, como por exemplo o trecho do Evangelho de João (8:32) citado frequentemente por Bolsonaro: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Mas que ‘‘verdade’’? Qual é a ‘‘verdade’’? ‘‘O problema é o Mal, nós queremos o Bem’’, o ‘‘Bem’’ pode ser qualquer coisa, dependendo de onde ele esteja. O ‘‘Bem’’ para o agronegócio é permitir que as terras sejam invadidas, que os agrotóxicos tomem conta de tudo, o ‘‘Bem’’ para os evangélicos é não ter aborto, não ter banheiro unissex. O que é o ‘‘Mal’’? Na pandemia, o coronavírus era o ‘‘Mal’’ e era enviado pelo ‘‘Mal’’. Isso faz com que não se tenha uma responsabilidade objetiva, de forma que não haja uma solução objetiva. Tudo isso se conjuga e acaba se reforçando e assim você cria um ambiente discursivo que favorece todo tipo de estratégia de desinformação.

A desinformação vai além das informações falsas (fake news), ela abrange também todo esse conjunto de postulações como as associadas às teorias da conspiração, pânico moral, discurso do caos entre outras. E todas essas estratégias desviam o debate dos problemas objetivos e cria uma mobilização em torno de problemas que nem existiam até você criar a desinformação, as peças desinformativas ou o discurso desinformativo. Por que isso funciona tão bem com evangélicos? Porque você já tem essa escatologia de guerras, de fim dos tempos, do Mal contra o Bem e de um iminente caos que pode acontecer a qualquer momento.

Esse chão geral da desinformação é um terreno fértil para todo tipo de discurso e faz com que pessoas que são penalizadas diretamente por um governo desastroso como o do Bolsonaro queiram reelegê-lo.

OI – Além de todas essas estratégias de desinformação, no último capítulo do livro você e Paolo Demuru observam a retórica da desinformação empregada pelo presidente durante o período da pandemia da Covid-19 para disseminar notícias falsas ou distorcidas. Quais técnicas vocês observaram e como elas funcionam?

Fechine – A retórica vem de Aristóteles, é uma prática filosófica que existe desde antes de Cristo e consiste em técnicas de persuasão, de como se constrói a confiança do destinatário com quem narra e cuja base é a partilha de valores. Eu e Paolo resolvemos olhar como os argumentos são construídos, já que a retórica é sobretudo uma técnica argumentativa.
Dentre os procedimentos para convencer os outros através da argumentação existem os que são baseados em argumentos falsos. Então uma boa parte da desinformação que a gente vê circulando também nas redes bolsonaristas, não são propriamente notícias falsas, são informações construídas a partir de falsos argumentos.

Então nesse capítulo inventariamos alguns dos falsos argumentos que são previstos pela própria retórica, por isso chamamos de uma retórica da desinformação. Nosso foco foi também no Facebook, mas sobretudo nas mensagens no WhatsApp.

Durante o período da pandemia eu acompanhei o Facebook do Bolsonaro e semanalmente eu fazia coluna para o podcast ‘‘Corona em Xeque’’ desmascarando uma estratégia argumentativa utilizada por ele. Eu sempre pegava exemplos das lives dele da semana, já que durante a pandemia ele fazia umas lives no cercadinho umas três a quatro vezes por dia. Com esse mapeamento que eu fiz das lives, eu, Paolo e Cecília Lima, colega de Departamento, observamos como essas estratégias retóricas se homologam também no WhatsApp e o que vimos é que elas se aprofundam em alguns casos. Por exemplo, uma técnica retórica utilizada por Bolsonaro é o argumento de autoridade, tanto os que vêm de pessoas anônimas até os que vêm de pretensos especialistas. O das pessoas anônimas passa a ideia de que não tem interesse por trás, que é autêntico, que mostra o que é visto e vivido pela pessoa. Esse tipo de argumento acontecia muito no Facebook, como no vídeo onde uma pessoa que não se identifica diz que a Ceasa de Belo Horizonte estava desabastecida por causa da campanha do ‘‘Fique em casa’’. Alguma equipe de reportagem esteve na Ceasa e mostrou que estava em funcionamento. Depois o vídeo foi desmentido e retirado do ar. Esses tipos de vídeos eram recorrentes no Facebook e mostravam professores, comerciantes, pessoas que estavam no cercadinho e faziam desabafos e discursos. No WhatsApp esse argumento de autoridade aparecia também como áudios com a narrativa: ‘‘olha, eu acabei de receber, estou aqui falando de tal local’’, onde a pessoa que falava não se identificava e sempre com esse sentido da urgência, de caos, que era bem próprio das estratégias mais gerais. Esses tipos de estratégias foram usados até nas campanhas de eleição presidencial. Um exemplo da retórica com argumentos de autoridade de ‘‘especialista’’ é a da médica Raíssa Soares da Bahia que defendia o ‘‘tratamento precoce’’ da Covid-19.

OI – Até que ponto o conhecimento dessas estratégias retóricas pode ajudar as pessoas a não cair nessa trama de mentiras?

Fechine – Todo o trabalho de letramento midiático que se faz hoje é um pouco a tentativa de desmascarar os procedimentos retóricos desinformativos, apresentar estas técnicas e tentar ‘‘vacinar’’ as pessoas contra este tipo de manipulação. Não podemos fazer nada contra o viés de confirmação e contra a reverberação que essas peças desinformativas têm em certos valores como numa cultura autoritária conservadora, no imaginário anticomunista que foi cultivado pelos anos de ditadura. Então quanto a isso não há o que fazer. Isso só ocorrerá por meio de uma mudança geracional que eu espero que nossos netos ou pelo menos os alunos que estamos formando na universidade agora façam parte de uma geração que entenda outros valores e que estejam menos suscetíveis ao eco dessas peças desinformativas.

Nicole De March é mestre e doutora em Física (UFRGS). Pós-doutoranda do LABTTS (DPCT-IG/Unicamp) e membro do Grupo de Estudos de Desinformação em Redes Sociais (EDReS).