Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Autor pune personagens assimétricos

Ainda que prometa um destino “de princesa” para a Perséfone deAmor à Vida (Globo), dificilmente os gorduchos esquecerão as humilhações a que o autor Walcyr Carrasco submeteu a personagem vivida por Fabiana Karla na novela das nove. Fabiana é comediante e não foi escalada por acaso. Carrasco pretendia fazer o público rir das aflições de uma gorda pretendendo livrar-se da virgindade tardia, fruto, tudo indica, do excesso de peso. Compôs o calvário de quem, como confessou em seu blog pessoal, acredita que os gordos (por experiência dele próprio) sofram mais preconceitos que os negros, num país que, ele julga, cultiva a beleza a qualquer preço.

O dado segundo o qual o Brasil é o segundo mercado mundial de cirurgias plásticas, atrás apenas dos Estados Unidos, impressiona mais roteiros globais (produtos do “fascínio boçal pela aparência” – Ivan Martins) que a vida vivida, onde a assimetria é tão frequente quanto regularmente bem-sucedida: o roteiro do real nunca é tão raso quanto a ficção televisual, ainda mais que o Brasil e a América Latina são muito mais dionisíacos que apolíneos.

No universo de Amor à Vida, ela é rigorosamente punida: Perséfone já foi vítima de um sadomasoquista e de um “boa-noite-cinderela”, já foi amordaçada e saqueada e, quando engatou um namoro, foi ridicularizada pelos próprios amigos e hostilizada pelos pais do consorte, que, apesar de terem uma filha autista, envergonham-se da aparência da futura nora. Falta a Walcyr Carrasco diálogo com a realidade cotidiana, que não vitimiza tanto assim alguém de caráter tão doce quanto Perséfone: em geral os amigos de gordos como ela costumam incentivar seus relacionamentos com tapinhas nas costas e recomendações do tipo “é uma excelente pessoa”, embora crueldade e rejeição façam, sim, parte da vida dos assimétricos.

Usina de clichês

Mas por que não bom humor (que não é o humor que humilha) e sedução? A moda e a publicidade já incluíram os manequins GGs há tempos (ver aqui). E também a figura de outro assimétrico banido das telenovelas, o feio charmoso e pegador (vera aqui, aqui e aqui). Quem não conhece um deles, na vida real? (Mesmo porque o feio é o que mais costuma buscar beleza no alheio. Achar que Soon-Yi [mulher de Woody Allen], Luciana Gimenez [affair de Mick Jagger] e Angélica [mulher de Luciano Huck] tiveram outros interesses que não os românticos é subestimar o poder de sedução dos feiosos, que a estética ariana das telenovelas, com sua sintaxe feérica, teima em contrariar.)

Outras assimetrias são castigadas por Carrasco: casais de gerações diferentes estão, na trama, sempre movidos por interesses escusos; é o caso de Aline (Vanessa Giácomo) que quer se vingar de César (Antonio Fagundes); e de Luciano (Lucas Romano) que está com Joana (Bel Kutner) para obter vantagem financeira. O próprio fato de um homossexual ser o grande vilão da novela não deixa de ser uma assimetria punida: apesar de o autor ter criado um casal gay para equilibrar as coisas, o parceiro ativo Eron (Marcelo Antony) arde de desejo por uma mulher (Amarilys, interpretada por Danielle Winnits). (Claro que amor por Nico triunfará no final; mas até lá a possibilidade de harmonia e fidelidade de um par homo foi pras cucuias.)

Em Amor à Vida, a negritude também não tem vez: a médica Judith (Ana Carbath) faz uma ponta, e Raquel Villar uma pequena participação, já encerrada, como a enfermeira Inaiá. Foi só. (Talvez Carrasco ache que deu sua quota na adaptação de Gabriela). A novela consegue, ao restringir o elenco de negros a duas mulatas, ser nesse quesito pior que Flor do Caribe, que apesar do nome tropical teve três protagonistas louros de olhos claros. Está aí um bom cartaz de protesto para as passeatas sem fim: “Mais mestiços nas novelas!” Que equivale a dizer: “Mais cara de Brasil na Globo!” (A preocupação é pertinente: na novelinha-laboratórioMalhação, há um único ator negro jovem, Cadu Paschoal, em papel irrelevante.)

Virjonas magras e pegadoras gordas, feios bem-amados e bonitões solitários, obesos felizes e malhados com problemas sexuais, negros ocupando seu espaço na sociedade e brancos habitando favelas, casais intergeracionais em relação duradoura e casamentos curtos entre jovens; tudo isso não é nonsense. É complexidade. É o que contém a realidade; e a ficção que não se quer limitada e convencional: uma usina de clichês.

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Silvia Chiabai é jornalista