Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

A câmara que nos olha

É interessante ver o medo que a câmera nos causa à primeira vista. Aquele olhar oculto e ao mesmo tempo explícito, a nos inquirir sem pronunciar palavra. O espelho mágico a nos dizer quem somos, a vista de um ponto que revela mais do que gostaríamos.

Foto: Reprodução/International Student

Talvez aí esteja a razão do medo, do constrangimento. Mas depois de uma, duas, três vezes, ou dias, meses e anos em frente às câmeras, um certo apego rouba o lugar do medo e passando de velha companheira à confidente, seu olhar já não constrange. Pelo contrário.

Faz quase um convite para abrir o coração, mesmo que da boca não saíam palavras sentimentais. Tudo porque os olhos dizem mais do que a boca e quando queremos informar alguém temos que, antes de tudo, exercitar o olhar. Me acostumei a ver a câmera assim. Primeiro como exercício profissional e depois por pura satisfação. Durante quase trinta anos eu a tive ao dispor do meu olhar. E a ela revelei todo o sentimento contido nele.

Antes, porém, de chegar ao melhor ponto dessa relação, vivi a síndrome de Narciso. Criei dependência e para sair dela me questionava se tudo não passava de uma criação da minha vaidade e do desejo de ser imagem como condição para existir de fato na ’’sociedade do espetáculo’’. Hoje sei que não fiquei presa dentro do espelho porque sempre desejei dar o melhor de mim, o meu melhor olhar, mesmo sem saber ao menos se havia alguém na sala pra ver.

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Hebe Rios é jornalista e trabalhou como editora, repórter, apresentadora de telejornais, programa de entrevistas e locutora de rádio