Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Fátima num veleiro sem vento

Ao completar 50 edições, a equipe que faz Encontro com Fátima Bernardes deve estar refletindo sobre os erros desta empreitada. Minha contribuição, ainda que não solicitada, segue abaixo.

EFB se estrutura com base em uma presunção: a de que Fátima Bernardes teria as qualidades necessárias para apresentar um programa de auditório. Quais são? Entramos aqui no terreno da subjetividade.

A primeira palavra que me ocorre é carisma -como diz o Houaiss, “o poder de encantar, de seduzir, que faz com que um indivíduo desperte de imediato a aprovação e a simpatia das massas”.

Os primeiros 50 programas deixaram claro que ela não apenas não possuía esse atributo como ainda não o adquiriu. A jornalista também não tinha qualquer experiência no ramo. Apostou-se muito no fato de ser uma das figuras mais simpáticas e queridas no meio onde trabalha.

Suas aventuras em Copas do Mundo, onde foi tratada como “musa” por jogadores a quem bajulou em entrevistas engraçadinhas, podem ter ajudado a criar a impressão de que Fátima era mais que uma apresentadora de telejornal.

Algum absurdo

A Globo errou, ainda, ao colocar Fátima num lugar muito incômodo para um jornalista que nunca se destacou pelo caráter performático: o pedestal. Sua despedida do Jornal Nacional, em dezembro de 2011, foi um espetáculo lamentável, por seus excessos, com a consequência de gerar uma expectativa desproporcional sobre o seu futuro.

Por três dias, o telejornal tratou do assunto. A despedida final durou um bloco inteiro, de 15 minutos. Uma “novelinha piegas”, anotei então, procurou “humanizar” Fátima, mostrar que por trás daquela talking head, que leu as notícias do dia por 14 anos, havia uma mulher de verdade.

Ainda que cercada por uma equipe competente, tanto na fase de criação quanto de implantação do programa, a apresentadora não foi capaz, até agora, de justificar este esforço da emissora em colocá-la no centro de um auditório.

A pauta do seu programa é, de longe, a mais variada da televisão brasileira: saúde, sapatos, Chacrinha, violência contra mulher, traição, crimes, futebol, alimentação… Pense em um tema e ele com certeza já terá batido ponto no Encontro com Fátima Bernardes.

Também fico impressionado com o talento da produção do programa. Sempre encontram pessoas, anônimas ou do casting da Globo, dispostas a contar histórias sobre os problemas abordados -de unha encravada a dificuldades para apagar uma tatuagem.

Tente, porém, se lembrar de algo que foi discutido no programa. Alguma polêmica. Algum absurdo. Ou procure se recordar de algum momento memorável. Assisto quase diariamente, desde a estreia, e tenho dificuldades em apontar algo.

Veleiro sem vento

Ainda que seja ao vivo, EFB parece gravado. Os depoimentos, muitas vezes, soam ensaiados previamente. O programa quase não explora o imprevisto. Tudo é certinho e rápido. Tudo parece igual.

Para quem só se preocupa com índices de audiência, é preciso dizer que o programa não vai mal, ainda que não empolgue. O Ibope mostra Fátima ganhando e, às vezes perdendo, sempre por pequena margem, de um programa feminino tosco da Record e de desenhos animados do SBT.

Encontro com Fátima Bernardes me parece um veleiro sofisticado, de ponta, padecendo da falta de vento em alto-mar.

***

[Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo]