Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

O fim de uma era no telejornalismo

Após 44 anos – 24 dos quais como apresentador e editor-chefe do principal telejornal – o jornalista Dan Rather deixa a rede CBS. A notícia foi anunciada na semana passada [ver aqui nota no Monitor da Imprensa, deste Observatório], quando Rather solicitou seu desligamento da rede, insatisfeito com o ostracismo a que vinha sendo submetido e com a falta de empenho da rede em renovar seu contrato que venceria em novembro. Foi noticiado ainda pela mídia dos Estados Unidos que outra razão para a despedida antecipada do veterano Dan Rather seria o fato de a CBS não ter interesse em associá-lo com seu ressurgente departamento de jornalismo, após o jornalista ter ficado marcado por uma reportagem errada que assinou sobre o presidente George W. Bush no programa jornalístico 60 Minutes II.

A gafe, ocorrida em 2004, além de ter manchado a imagem do jornalismo da CBS motivou a saída de Rather da condução do telejornal diário CBS Evening News, em março de 2005, bem como o cancelamento de 60 Minutes II, a demissão de três executivos e da produtora responsável pela matéria, e ainda a queda do então presidente da CBS News, Andrew Hayward.

A proposta da rede era a de o jornalista se tornar então repórter do dominical 60 Minutes. Neste ano, Rather produziu apenas reportagens secundárias e não tinha grandes perspectivas de novas pautas a partir da metade do ano. Com a saída de Dan Rather da CBS, encerra-se o ciclo de um jornalista-ícone deixando a casa que o tornou icônico.

Programa especial

Em meio a um clima tenso, o presidente da divisão de jornalismo, Sean McManus, divulgou nota oficial externando apreço pelo jornalista.

‘Sempre haverá uma parte de Dan Rather na CBS News. Ele é verdadeiramente o jornalista de todos os jornalistas e ele ajudou a trilhar várias gerações deles na televisão. O seu legado não terá condição de ser repetido.’

Tido como vítima de uma injustiça, por ter contribuído com grandes reportagens por décadas e cometido apenas um deslize, Rather também divulgou sua nota oficial, deixando nas entrelinhas a situação quase humilhante pela qual vinha passando dentro da redação da CBS.

‘Eles não cumpriram com a obrigação de me permitirem fazer um trabalho significativo lá [após a saída do CBS Evening News]. Quanto às ofertas de um futuro sentado em um escritório e sem reportagens para fazer, não é do meu feitio ficar ocioso fazendo nada.’

Apesar da estocada bem endereçada, o jornalista ressaltou a convivência com os colegas e a contribuição daí oriunda para seu trabalho.

‘De produtores a correspondentes a equipes técnicas, foi minha grande sorte ter trabalhado com os melhores profissionais do jornalismo na retaguarda e ao meu lado. Eles são o coração da CBS News e sempre terão meu respeito.’

Na mídia americana circula a especulação de que a saída forçada de Dan Rather era apenas uma questão de tempo, a partir do momento em que o presidente da CBS, Leslie Moonves, passou a direcionar o foco para o combalido telejornal diário da rede, que desde o final da década de 1980 deixou de ocupar o primeiro lugar em audiência, superado pelos concorrentes das redes ABC e NBC.

Após levar a CBS novamente ao posto de rede mais assistida no horário nobre no final dos anos 1990 – e realizar a manutenção desse processo até anos recentes –, Moonves comentou abertamente sobre a necessidade de o telejornal CBS Evening News ser reinventado, a fim de atrair uma audiência mais expressiva, demograficamente mais jovem e, desta forma, mais desejável para os anunciantes.

Para o ‘vovô’ Dan Rather, essa visão poderia significar a sua saída do vídeo e o escândalo envolvendo o nome do presidente George W. Bush, em pleno período eleitoral de 2004, foi a deixa necessária. Com a recente contratação da popular Katie Couric para assumir o CBS Evening News em setembro, e do entusiasmado Anderson Cooper (que continuará também pela CNN) como repórter do semanal 60 Minutes, a imagem madura e secular de Dan Rather passou a ser considerada antiquada para uma divisão de jornalismo que encampou o plano de ‘rejuvenecimento’ trilhado por Moonves.

Leslie Moonves fez questão de distribuir um comunicado no qual considera ter sido valiosa a contribuição feita por Rather ao longo de sua carreira.

‘Por mais de quatro décadas, Dan Rather abordou o ofício do telejornalismo com paixão singular, dedicação e sempre incansável desejo de reportar os fatos para o público americano.’

Apesar de não ter feito esforço algum para segurar Rather a cinco meses do final do seu contrato, e nem de abrir possibilidades de renovação, a CBS irá exibir um especial no horário nobre contando a carreira do jornalista.

Mais apuração 

A saída de Dan Rather da rede CBS rendeu manchetes ao redor do mundo. A imprensa brasileira também destinou algumas linhas para o caso. E quem deu a notícia, a deu com distorções. Foi o caso da versão online da Folha de S.Paulo. Com uma reportagem traduzida da agência France Presse, o diário paulistano publicou na terça-feira (20/6) nota pelo menos três inconsistências acerca da saída de Rather.

Logo no primeiro parágrafo, a nota classificou a situação pendente como um ‘racha’ entre Rather e a CBS. De acordo com a imprensa americana, a situação do jornalista era de clara insatisfação. Entretanto, nunca houve uma troca de ataques que pudesse classificar o momento como ‘racha’. Ainda segundo o texto, ‘Rather foi contratado para colaborar com o programa 60 Minutes‘. Esta noção pode ser encarada com subjetividade, mas o fato é que Dan Rather nunca deixou a CBS após ter saído do comando do CBS Evening News para ser contratado novamente, como pode fazer supor a redação. De acordo com as notícias divulgadas, teria sido uma questão de ajuste dentro do quadro da divisão de jornalismo. Por fim, o texto da Folha erra ao dizer que Dan Rather não comentou sua saída – as declarações do jornalista estão reproduzidas acima.

Quem também repercutiu o caso foi o portal Comunique-se. Este reproduziu material jornalístico da agência EFE, onde houve troca de personagens. O presidente da divisão de jornalismo – chamada de CBS News – Sean McManus foi elevado a presidente da rede CBS. É como se o diretor de jornalismo Carlos Henrique Schroder fosse classificado como presidente da Rede Globo. Outro erro foi de ordem técnica. Na tradução do Comunique-se, a CBS é colocada como ‘canal’, quando em realidade é uma das quatro maiores redes abertas de TV americanas – com cerca de 220 emissoras nos 50 estados americanos e mais três, localizadas em Guam, Bermuda e Ilhas Virgens.

Fica a questão: um assunto tido como difícil ou distante não é digno de uma apuração eficiente?

Improvisos debochados

Daniel Irvin Rather Junior começou sua carreira jornalística em 1950, como repórter da Associated Press, na cidade de Huntsville, no Texas. Atuou em jornais e emissoras de rádio até 1959, quando ingressou na emissora da rede ABC em Houston, KTRK-TV canal 13. Antes de chegar à rede CBS, foi diretor de jornalismo da afiliada KHOU-TV, na mesma cidade. Em âmbito nacional, foi o primeiro jornalista de televisão a divulgar que o presidente John Kennedy havia sido assassinado.

Em 1964, foi promovido a correspondente setorista na Casa Branca, onde realizou cobertura tida como memorável dos escândalos de Watergate e do impeachment do presidente Richard Nixon. Já conhecido pela abordagem crítica que fazia de Watergate, foi aplaudido quando levantou-se para questionar o presidente em uma entrevista coletiva e os dois acabaram tendo um diálogo sarcástico que ficou na história da imprensa americana:

– Obrigado, sou Dan Rather, da CBS News. Senhor presidente…

– [Nixon, reagindo aos aplausos] Dan, você está se candidatando a algo?

– Não senhor, presidente. O senhor está?

O sucesso alcançado nesta tarefa fez com que Rather conquistasse uma cadeira no prestigiado dominical 60 Minutes pela primeira vez em 1975. O êxito desta empreitada outorgou ao jornalista o posto mais alto dentro do jornalismo da rede CBS: o cargo de apresentador e editor-chefe do telejornal CBS Evening News, em março de 1981, sucedendo ao legendário Walter Cronkite, que ficou na posição por 19 anos.

Apesar do currículo qualificado, Dan Rather sempre foi tido como folclórico. E motivos para tal predicado foram vários. Em 1956, consumiu heroína sob a supervisão da polícia do Texas para uma reportagem sobre os efeitos da droga. Mais tarde, em 1968, tomou um soco durante uma cobertura política ao vivo. Em 1987, deixou o estúdio do CBS Evening News minutos antes de o telejornal começar por estar irritado com a possibilidade de prorrogação em uma transmissão esportiva que iria atrasar o começo do jornal (a prorrogação não aconteceu e a CBS saiu do ar, já que Rather não estava no estúdio).

Ainda nos anos 1980, lançou moda ao encerrar o telejornal diário com a palavra ‘courage’ e acabou sendo ridicularizado por tentar falsamente imprimir personalidade no ar. Em 1991, um ativista burlou a segurança e invadiu o estúdio no começo do telejornal com palavras de ordem contra a Aids, forçando Rather a chamar um intervalo comercial nos primeiros segundos do informativo. [Vídeo disponível aqui]

O veterano Rather também é conhecido nos Estados Unidos pelas metáforas estranhas que se tornaram marcas registradas suas durante transmissões ao vivo na rede CBS, sobretudo aquelas referentes aos períodos de eleições. Improvisos debochados deram cores diferentes a produtos jornalísticos geralmente marcados pela sisudez.

** ‘George Bush está passando pelo sul como um tornado pelo parque’ – eleição presidencial de 1988.

** ‘O entusiasmo aqui é tão grande que pode fazer a cera saltar dos ouvidos’ – eleição presidencial de 1992.

** ‘A disputa está mais nervosa que gelatina de refeitório’; ‘O governador Bush poderá estar tão bravo quanto um galo de briga’; ‘Essa disputa é tão apertada como uma sunga de banho no caminho pra casa’ – eleição presidencial de 2000.

** ‘Se sapos tivessem bolsos, carregariam revólveres’; ‘Essa disputa é mais quente que um Rolex falsificado de Times Square’; ‘A situação em Ohio daria dor de cabeça a uma aspirina’ – eleição presidencial de 2004.

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Jornalista