Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Os anos rebeldes

Quando Pedro Damián negociou com a produtora Cris Morena Group os direitos de produção local da telenovela Rebelde Way não sabia que a trama – derivada de um original argentino – teria tanta repercussão, na mídia e no comércio, dentro e fora do México. Seguindo a velha fórmula de fazer novelas adolescentes, Rebelde, exibida no Brasil entre 2005 e 2007 pelo SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), trouxe seis jovens cheios de complexos e sensualidade que tinham um interesse em comum: a música.

Até aí, tudo bem, telenovela mexicana, SBT, meninas de saias curtíssimas, cabelos com mechas coloridas, rebeldias e crianças assistindo. Crianças assistindo?! Durante dois anos de exibição, a narrativa gerou discussões e diversos posicionamentos contrários e a favor do melodrama. Pais, professores e psicólogos versus crianças, mídia e comerciantes. Não que os comerciantes tenham assistido à novela. O fato é que eles muito lucraram com a febre de rebeldia daquela época (assim como buscam rentabilizar outras rebeldias, posicionamentos e sensações).

Apresentem-se os números: a média de público estimado em shows no Brasil, em 2006, foi de 700 mil pessoas, 44 milhões de chicletes foram mascados, 150 mil bonecas foram manipuladas por crianças e, incrivelmente, até por adultos, com venda de 10 milhões de revistas e pôsteres, todos levando a marca ‘Rebelde’. O consumo fala mais alto sempre e as lojas eram lotadas de produtos relacionados à produção e à banda RBD, que saiu da ficção para as paradas de sucesso e shows lotados de fãs orgulhosos. Foi uma grande festa para o comércio brasileiro.

Uma (falsa) realidade bonita

O canal SBT já exibiu telenovelas direcionadas para o público infantil vistas com bons olhos por pais e educadores, duas delas tendo sido produzidas pelo mesmo produtor de Rebelde: Vovô e Eu e Luz Clarita. As tramas traziam crianças como protagonistas, deixando a realidade mais próxima de quem as assistia. Diferente, contudo, de Rebelde, que carregava um elenco adulto interpretando jovens de 15 a 17 anos.

O figurino (saia curta, gravata e bota de cano alto) era mais ousado – ao contrário da versão argentina –, explorando descaradamente a sensualidade das atrizes, o que ajudou no sucesso da novela, obviamente. Não havia lugar onde não se encontrasse uma criança com esse tal uniforme imitando poses das personagens. Psicólogos se arriscam a dizer que o fanatismo das crianças se deve ao fato da novela mostrar uma (falsa) realidade bonita, próxima da perfeição e com personagens belos. Professores denunciam alunas que usavam maquiagem carregada no período matutino – imitação de uma das protagonistas: a ‘rebelde’ mais rebelde, Roberta Pardo.

Botas de cano alto, gravatas desalinhadas

A mídia pescou, faz tempo, que o belo atrai (também) o público infantil, e usa isso como estratégia para fisgar telespectadores. A realidade mostrada encanta qualquer um: Elite Way School era um colégio de prestígio frequentado por alunos de classe média alta que desfilavam pelos corredores com notebooks, celulares de última geração, motoristas, limusines e todo esse universo que o dinheiro pode proporcionar.

Talvez a discussão volte neste 2011, já que a Rede Record está envolvida no desenvolvimento da Rebelde brasileira. Diferente da mexicana, que contava com um elenco conhecido, a emissora vai apostar em novos talentos. Aos poucos estão divulgando fotos e informações, todo um mistério capaz de instigar mais aquele público que ficou órfão quando o último capítulo da novela foi exibido, em 2007. Não se sabe se um grande sucesso é esperado, pois atualmente, da pré-adolescência em diante, os valores e modismos seguem em mutação permanente. Mas se a produção for similar à mexicana, pode-se esperar a volta das botas de cano alto e gravatas desalinhadas.

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Respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos; e graduanda em Comunicação Social-Jornalismo na mesma instituição