Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Show brilhante no limite da ética

Capitão Kirk mudou de profissão. Após ter ganhado fama internacional na pele do personagem-mor do antigo seriado Jornada nas estrelas, William Shatner hoje simboliza outro sucesso da televisão americana: interpreta Denny Crane, um dos advogados tresloucados do escritório Crane, Poole and Schmidt no seriado Boston Legal – em português, Justiça sem limites. No ar desde 2004 pela rede ABC, a produção mostra o dia-a-dia de advogados que freqüentemente caminham no limite da ética jurídica. Sua técnica, geralmente brilhante, é emocionalmente desequilibrada. Com roteiro rápido e proposta de humor negro, o seriado confronta assuntos contemporâneos de ordem social e moral no dia-a-dia dos seus protagonistas, bem como no dia-a-dia internacional – tal como a participação dos Estados Unidos na solução de problemas mundiais.

Com o slogan ‘todo mundo merece o seu dia no tribunal’, Boston Legal nasceu a partir de outro seriado da rede ABC chamado The Practice, onde o ator James Spader já encarnava o atual personagem Alan Shore. Um misto de falta de compostura e esperteza, Shore caiu no gosto do público, virou protagonista e retrata uma realidade constante no universo da advocacia: aquela onde não existe baliza para se atingir os objetivos na defesa de um cliente. Mas oscila também até o lado do sarcasmo e humor impróprios para um advogado. Tal como em um episódio onde conversava a sós com um cliente que havia matado sua própria mãe. Quando abordado por um policial perguntando sobre quem era o suspeito do assassinato, Shore respondeu ‘sou eu, senhor policial. Ah, mentira, é ele’. No mesmo roteiro, o personagem de Spader consegue inocentar seu cliente da acusação de homicídio através de uma fenda na lei. Após o veredicto, enquanto acompanha o cliente até o elevador, Shore emenda: ‘Agora você está livre para viver sem essa mulher. Liberdade é o que você queria quando matou ela’, sem qualquer constrangimento na frente de outras pessoas.

O ator James Spader confirma que o personagem tem queda para confusões. ‘Ele é um malandro e um criador de complicações. Dono de grande ímpeto. Eu ainda não descobri o que o enfraquece, talvez a complacência’, comentou em entrevista à Playboy americana. Em outro episódio, o intrépido advogado faz abrupta objeção ao juiz para indicar que a promotoria não poderia começar o segundo argumento usando a palavra ‘primeiramente’. Spader confirma que o sucesso do personagem deve-se às semelhanças entre ambos. ‘Só tive condição de interpretar o Alan Shore porque gosto de coisas que não se encaixam, que sejam contrárias. E Alan é isso’.

‘Quarta parede’

Toma parte ainda no elenco a renomada atriz Candice Bergen, que durante 10 anos seguidos encarnou a personagem Murphy Brown no seriado homônimo da CBS. Candice interpreta Shirley Schmidt, antiga namorada de Denny Crane que retorna ao escritório para integrar a equipe de advogados.

Criado pelo autor David E. Kelley, responsável pelos sucessos dos também jurídicos Ally McBeal e The Practice, tem em citações e diálogos debochados uma de suas estampas. Personagens pouco salutares são acentuados com suas tiradas e constatações muitas vezes pouco atreladas à realidade. Como estes exemplos, retirados de alguns episódios:

Alan Shore: – Shirley? E com relação a colegas de trabalho? Não haveria nada de errado com, digamos, eu desejando você? Haveria?

Shirley Schmidt: – Assine a National Geographic. Faça uma lista de lugares que você jamais visitará. Inclua na lista ‘Schmidt’.

Alan Shore: – Você sabe que eu não vou ao Texas e deixar de andar no touro mecânico. É como ir a Los Angeles e não transar com a Paris Hilton.

Denny Crane: – Tenho uma ereção. É um bom sinal. Estou preparado para o julgamento. Arma carregada.

Denny Crane: – Você me deixou, Shirley. Mulheres não deixam Denny Crane. E me deixou por um secretário!’

Shirley Schmidt: – Era o secretário de Defesa…

Para os amantes de televisão e cinema, Boston Legal oferece o chamado ‘rompimento da quarta parede’, ou seja, deixa claro ao público que se trata de um programa de televisão com personagens reconhecendo isso no texto – como na ocasião em que Alan Shore diz: ‘Danny, não havia encontrado você neste capítulo ainda – e olhando eventualmente para a lente da câmera. O elenco percebe o arrojo da série.

Dez milhões de audiência

‘Se fosse para convidar alguém para fazer uma participação especial, teria de ser Jesus Cristo. E que tal Moisés? Ele seria um bom contraponto para Denny’, bravateia William Shatner, em entrevista à revista TV Guide. Shatner explica ainda que o ego avantajado e as intenções sempre sexuais do personagem Denny Crane (além da compulsão de referir-se a si mesmo na terceira pessoa) não o colocam como galã, mas sim como um homem que teve uma vida sofrida. ‘Ele desperta aquele pensamento de ‘olhe para ele, ele é um coitado’. Então Kelley usa bastante isso, talvez de um modo diferente, para chocar’.

Da mesma forma que Crane chocou no episódio em que um homem armado invade o escritório e faz Alan Shore de refém. Crane, pouco ortodoxo, pega um rifle escondido em sua mesa e manda uma funcionária abrir a porta de seu escritório para atirar. Tiro certeiro no ombro do bandido e situação resolvida. Ao ser interpelado por um policial se tinha certeza do risco concreto vivido pelo colega Shore para poder atirar, Denny Crane explica: ‘Lógico que não. Por que deixaria chegar a esse ponto?’.

Em termos de audiência, Boston Legal não está na lista Top 20 do Instituto Nielsen, entretanto, é um dos programas mais vistos da rede ABC nas noites de terça. Na semana do dia 4 de dezembro, por exemplo, marcou média de 10,9 milhões de telespectadores. No Brasil, o seriado é exibido diariamente às 6h e 17h pelo canal pago Fox e em dias alternados nas madrugadas da Rede Globo, após a sessão Corujão.

Página oficial: http://abc.go.com/primetime/bostonlegal

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Jornalista