Sábado, 10 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1370

O jornalismo que naturaliza o inaceitável

(Foto: Andrea Piacquadio/Pexels)

A notícia atravessa as redações com a naturalidade de um boletim meteorológico: o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores são detidos e extraditados para os Estados Unidos. As manchetes sucedem-se num fraseado asséptico, “capturado”, “preso”, “transferido”, como se descrevessem a rotina burocrática de um mandado judicial qualquer, e não o que configura, sob qualquer leitura minimamente rigorosa do direito internacional, um sequestro de Estado perpetrado pela maior potência militar do planeta contra o presidente de uma nação soberana.

O que deveria provocar espanto, indignação e questionamento crítico é recebido pela imprensa corporativa brasileira com uma passividade que beira a cumplicidade editorial. Não há estranhamento diante da operação militar estrangeira em solo venezuelano, não há questionamento sobre a legalidade de uma extradição que dispensa tratados, tribunais internacionais ou qualquer formalidade jurídica reconhecível. Não há, sequer, a hesitação jornalística elementar diante de uma narrativa que se apresenta pronta, embalada e entregue pela chancelaria de Washington.

Existe, isso sim, uma adesão acrítica que se manifesta na própria escolha lexical, pois quando um veículo de comunicação opta por “capturado” em vez de “sequestrado”, quando celebra a “eficiência logística” de uma operação de forças especiais estrangeiras em território alheio, quando reproduz sem aspas ou distanciamento crítico a classificação de “ditador” ou “narcotraficante”, esse veículo não está apenas reportando fatos, mas operando como correia de transmissão de uma narrativa geopolítica específica, construída e disseminada pelo aparato de comunicação estadunidense.

Este fenômeno não é novo, mas sua manifestação atual adquire contornos particularmente preocupantes. A cobertura jornalística brasileira sobre a Venezuela nos últimos anos tem se caracterizado por uma adesão notável aos enquadramentos produzidos pela diplomacia estadunidense e pelos grupos de oposição venezuelanos alinhados a Washington. A complexidade da crise venezuelana, enraizada em fatores históricos, econômicos e geopolíticos, é sistematicamente reduzida a uma narrativa maniqueísta que dispensa nuances e contextualização.

O que está em jogo, contudo, transcende a Venezuela. Quando a mídia brasileira normaliza uma intervenção militar unilateral, quando aceita como legítima a prisão de um chefe de Estado estrangeiro por forças de outro país, quando celebra implicitamente a entrega dos recursos naturais de uma nação a corporações estrangeiras como reconstrução, está estabelecendo precedentes perigosos que podem, eventualmente, voltar-se contra o próprio Brasil.

A história latino-americana está repleta de exemplos que deveriam servir de alerta, já que, ao longo de décadas, as ingerências estadunidenses na região foram invariavelmente precedidas e acompanhadas por narrativas midiáticas que construíam consensos favoráveis à intervenção externa. Os líderes visados eram sistematicamente demonizados, suas políticas distorcidas, suas nações apresentadas como ameaças que precisavam ser neutralizadas para seu próprio bem. E a mídia corporativa, tanto internacional quanto local, frequentemente operou como amplificadora dessas narrativas.

O argumento de que o presidente venezuelano Maduro seria um ditador cuja remoção estaria justificada ignora deliberadamente que o direito internacional não autoriza nenhum país a invadir outro e sequestrar seu líder, independentemente da natureza de seu governo. Se assim fosse, a ordem internacional desmoronaria numa sucessão de intervenções unilaterais justificadas por avaliações subjetivas e interessadas sobre a legitimidade de governos estrangeiros. A Carta das Nações Unidas, os tratados interamericanos e o próprio princípio de autodeterminação dos povos existem precisamente para impedir que a força militar substitua os mecanismos diplomáticos e legais na resolução de conflitos internacionais.

Porém, existe uma dimensão ainda mais profunda nessa história que a cobertura jornalística brasileira tem ignorado quase completamente, isto é, a questão do petrodólar e o papel da Venezuela na economia política global da energia. Com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, 303 bilhões de barris, superiores às da Arábia Saudita, a Venezuela não é apenas mais um país latino-americano em crise, mas uma peça central num tabuleiro geopolítico em que se desenha uma disputa pela hegemonia monetária global.

Desde 1974, quando Henry Kissinger estabeleceu com a Arábia Saudita o sistema do petrodólar, segundo o qual o petróleo seria comercializado globalmente em dólares, os Estados Unidos garantiram uma demanda artificial e permanente por sua moeda. Este mecanismo permitiu a Washington financiar déficits colossais, manter seu aparato militar planetário e exercer poder econômico desproporcional através do controle sobre o sistema financeiro internacional. Por conseguinte, desafiar o petrodólar não é um ato econômico trivial, é questionar o alicerce da hegemonia estadunidense.

E a Venezuela fez exatamente isso. Desde 2018, Caracas vem comercializando petróleo em yuans chineses, euros e rublos russos, buscando ativamente desdolarizar suas transações. O país solicitou adesão ao BRICS, bloco que tem trabalhado na construção de sistemas de pagamento alternativos ao SWIFT e na redução da dependência do dólar no comércio internacional. Para os formuladores da política externa estadunidense, um país com as reservas energéticas da Venezuela operando fora do sistema do dólar representa uma ameaça existencial ao modelo econômico que sustenta o poderio dos EUA.

Devemos nos lembrar que existem precedentes eloquentes. Saddam Hussein anunciou em 2000 que o Iraque venderia petróleo em euros, três anos depois o país foi invadido sob a justificativa de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. Muammar Gaddafi propôs em 2009 uma moeda africana lastreada em ouro para o comércio de petróleo; em 2011, a OTAN bombardeou a Líbia e o líder líbio foi assassinado. Os e-mails vazados de Hillary Clinton posteriormente confirmaram que a proposta monetária de Gaddafi foi considerada uma ameaça aos interesses dos EUA.

Apontar esse padrão não implica defender os governos de Hussein, Gaddafi ou Maduro em todas as suas políticas e ações. Implica, sim, reconhecer que as justificativas oficiais para intervenções militares frequentemente mascaram motivações geopolíticas e econômicas que permanecem não declaradas. Implica questionar por que países que desafiam o sistema monetário dólar-centrado parecem invariavelmente tornar-se alvos de “mudanças de regime”, enquanto ditaduras alinhadas aos interesses de Washington, como a da Arábia Saudita, permanecem aliadas respeitáveis.

Quando Stephen Miller, conselheiro de Donald Trump, declarou publicamente que “o suor, a engenhosidade e o trabalho árduo dos americanos criaram a indústria petrolífera na Venezuela” e que sua nacionalização constituiu “o maior roubo de riqueza americana”, ele não estava fazendo retórica vazia, mas articulando explicitamente uma lógica imperialista segundo a qual recursos naturais em território estrangeiro pertencem legitimamente a corporações estadunidenses que os desenvolveram, e sua recuperação por Estados soberanos constitui roubo que justifica a intervenção.

Esta lógica deveria soar alarmes ensurdecedores em qualquer país latino-americano. Empresas estrangeiras também desenvolveram recursos brasileiros durante a história. Isso daria a outros países direitos permanentes sobre nossas riquezas naturais? A aceitação passiva dessa narrativa pela mídia brasileira demonstra uma alarmante incapacidade de reconhecer implicações que transcendem o caso venezuelano.

Cabe perguntar, neste momento, sobre o papel das faculdades de jornalismo. Instituições que deveriam formar profissionais capazes de questionar narrativas hegemônicas, analisar criticamente relações de poder e contextualizar eventos geopolíticos parecem ter produzido gerações de jornalistas que reproduzem acriticamente enquadramentos prontos vindos de agências internacionais e centros de poder estrangeiros. A formação jornalística no Brasil tem privilegiado competências técnicas como redação, edição, produção multimídia, em detrimento de ferramentas analíticas fundamentais: economia política internacional, história das relações interamericanas, análise crítica do discurso, epistemologias do Sul Global. O resultado é uma categoria profissional tecnicamente competente para reproduzir informação, mas intelectualmente desarmada para questioná-la. Quando currículos acadêmicos negligenciam a formação crítica sobre imperialismo, dependência e assimetrias de poder global, produzem jornalistas vulneráveis à captura por narrativas dominantes, profissionais que confundem neutralidade com subserviência às fontes mais poderosas.

A cobertura jornalística que naturaliza a atual situação também ignora suas repercussões geopolíticas imediatas. China, Rússia e Irã, principais parceiros comerciais da Venezuela e líderes do movimento de desdolarização, emitiram declarações contundentes denunciando a agressão armada. Pequim, maior comprador do petróleo venezuelano, vê bilhões em contratos ameaçados. Os países do BRICS assistem a uma demonstração inequívoca, pois desafiar o domínio do dólar pode resultar em intervenção militar.

Paradoxalmente, esta mensagem pode acelerar, não frear, o processo de desdolarização. Nações do Sul Global podem concluir que sua única proteção contra intervenções similares é justamente apressar a construção de sistemas econômicos e financeiros independentes do dólar. A China já estabeleceu o CIPS, alternativa ao SWIFT com 4.800 bancos em 185 países. O projeto mBridge permite liquidação instantânea de transações entre bancos centrais em moedas locais. A Arábia Saudita discute abertamente aceitar yuans por petróleo.

Dessa maneira, o que se cobra da imprensa brasileira não é adesão acrítica a Maduro ou a romantização de seu governo, mas apenas jornalismo, a prática de questionar narrativas prontas, contextualizar eventos, analisar interesses subjacentes e manter distância crítica de todos os centros de poder, incluindo e especialmente o poder estrangeiro. Ou seja, a capacidade de estranhar o que se apresenta como normal, de investigar o que se oferece como evidente, de problematizar o que se vende como inevitável.

Quando essa capacidade crítica desaparece, quando os veículos de comunicação se tornam ecos de narrativas geopolíticas construídas em Washington, quando celebram eficiências operacionais de intervenções militares estrangeiras e naturalizam violações ao direito internacional, esses veículos não estão apenas falhando profissionalmente, mas participando ativamente da normalização de práticas que podem, num futuro não tão distante, ser voltadas contra a soberania do próprio Brasil.

A América Latina conhece bem o roteiro, pois a demonização midiática precede a intervenção militar, que é seguida pela apropriação de recursos por corporações estrangeiras, vendida como reconstrução. Cada etapa é acompanhada por narrativas que apresentam o inaceitável como necessário, o ilegal como legítimo, o colonial como libertador. E cada vez que uma parcela significativa da mídia adere sem questionamento a essas narrativas, torna-se cúmplice não apenas de um crime específico contra uma nação específica, mas da normalização de um padrão de relações internacionais baseado na força, não no direito.

O silêncio cúmplice de hoje prepara a vulnerabilidade de amanhã. Quando os profissionais da imprensa celebrarem a próxima intervenção, o próximo sequestro, o próximo saque de recursos naturais, quem sabe onde, quem sabe quando, terão sido seus próprios precedentes acríticos que pavimentaram o caminho. A história não perdoa e a geografia não protege quem normaliza o inaceitável quando aplicado aos vizinhos.

 

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Ramsés Albertoni é Professor de Artes, Pesquisador de Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador do Grupo de Pesquisa Arte & Democracia.