Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Mergulho nas entranhas das milícias do Rio, inimigo público número um do Brasil

(Imagem: Divulgação)

Considero as milícias do Rio de Janeiro a organização mais letal do país, porque no horário do expediente os seus quadros são policiais militares e civis. E, nas horas de folga, são bandidos que mantêm comunidades inteiras como reféns nas favelas cariocas. Por serem policiais, eles têm acesso a informações sobre o aparato de segurança pública. Diferentemente dos outros quadrilheiros que são bandidos 24 horas por dia, como os do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, do Comando Vermelho (CV), do Rio, ou das dezenas de facções e grupos criminosos que existem pelas capitais do país. As milícias não são um problema exclusivo do Rio de Janeiro. Mas de todos os estados do país, por terem virado exemplo, para os seus colegas policiais, de como extorquir dinheiro. Devido à simpatia do atual presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) e de três dos seus filhos, Carlos, vereador do Rio, Flávio, senador do Rio, e Eduardo, deputado federal por São Paulo, os milicianos vivem o seu auge, e não é por outro motivo que tentam consolidar a sua presença na política carioca.

Como as milícias do Rio de Janeiro chegaram a esse grau de organização e letalidade? O caminho para encontrar a resposta para essa pergunta encontra-se nas 295 páginas do livro A República das Milícias – Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, escrito pelo jornalista, doutor em ciências políticas, graduado em economia e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Bruno Paes Manso. Vários colegas já recomendaram esse livro. Por que estou fazendo o mesmo? Simples. Uma boa parte dos meus 40 e tantos anos de jornalismo, 30 e tantos na redação, trabalhei como repórter. Em 1979, quando comecei na profissão, já era uma dificuldade para o jovem repórter que cobre o dia a dia do noticiário ter tempo para saber como as coisas funcionam e evitar se tornar um “papagaio” que repete nos seus textos fatos que todos dizem que é assim, mas que ninguém sabe se é verdade.

Hoje, a dificuldade aumentou, porque a carga de trabalho do repórter aumentou (faz texto, foto, vídeo e áudio) e o seu salário, diminui. Até pouco tempo atrás, os novatos tinham como tirar as suas dúvidas sobre assuntos mais complexos, principalmente na área da segurança pública, com os colegas mais experientes. Atualmente, não é mais assim, porque os velhos foram extintos das redações devido aos problemas econômicos das empresas de comunicação. Foram substituídos pelo “tio Google”, como brincou na mesa do boteco um jovem colega. Mais ainda: o encolhimento das grandes empresas de comunicação retirou os correspondentes do interior do Brasil. Hoje, para mandar um jornalista para o interior, só se aparecer um cavalo com asas, exagerando. Essa realidade jogou no colo da imprensa local a obrigação de não só noticiar os assuntos da região como também falar dos temas nacionais.

Dentro dessa realidade, eu considero fundamental que os repórteres na correria do dia a dia leiam A República das Milícias. Mesmo os não estão envolvidos na cobertura de segurança pública. Porque a questão das milícias transita pelas áreas econômica, política e de lazer que fazem parte do cotidiano dos nossos leitores. O livro do Bruno Paes conta a história de como as milícias foram se criando, se organizando e finalmente tomando conta da segurança pública do Rio. Também considero a publicação essencial para os professores das faculdades de jornalismo analisarem com os seus alunos. Bruno Paes consegue contar uma história cheia de cascas de banana de uma maneira simples, contundente, elegante e emocionante. Para seguir esse roteiro dentro do assunto é exigido do autor um grande conhecimento de causa. O que significa horas e horas de apuração dos fatos e muita segurança para redigir.

Para entender como Bolsonaro se tornou presidente da República é necessário ler o livro. Não vou entrar em detalhes dos conteúdos da publicação, eu li e, claro, conversei com o Bruno. Entendo que a minha função é chamar a atenção dos meus colegas repórteres para a importância da obra. E também de quem não é jornalista. Mas se interessa em saber como chegamos a essa situação de precariedade na segurança pública das cidades do Brasil. E o que nos espera ali na frente. É por aí, colegas.

Publicado originalmente no blog Histórias Mal Contadas

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.