Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Suzana Singer

A Folha está aumentando o cerco ao seu conteúdo na internet. A medida mais recente foi proibir a quem não é assinante o “copiar e colar”. Não dá mais para reproduzir um texto (ou trecho dele) para mandar a um amigo por e-mail, para compartilhar no Facebook ou para incluir em um trabalho de escola.

Quem tenta copiar e colar se depara com o seguinte aviso: “Textos, fotos, artes e vídeos da Folha estão protegidos pela legislação brasileira sobre direito autoral. Não reproduza o conteúdo do jornal em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização (…) As regras têm como objetivo proteger o investimento que a Folha faz na qualidade de seu jornalismo”.

Para compartilhar um texto, o internauta pode indicar o link -quem se interessar acessa o site do jornal, o que faz crescer a audiência.

A nova medida aumentou a irritação dos leitores on-line. “Não consegui espargir um belíssimo texto de Reinaldo Azevedo. Essa proibição prejudica a própria divulgação da Folha. Você seleciona um artigo, envia para vários amigos, que passam a outros usuários e assim por diante”, reclamou Camilo Viana, 83, administrador aposentado.

O empresário Adriano Claret, 37, queria mandar um trecho da coluna de Elio Gaspari para a sua mãe, mas foi bloqueado. “É tão bizarro quanto colocar ‘folhespiões’ em bares e, se alguém comentar uma notícia que viu no jornal, o ‘folhespião’ tapa a boca da pessoa e exige que ela clique no texto no celular em vez de contá-la”, argumenta.

O veto ao “copy paste” é só mais um na série de medidas que a Folha vem tomando para estimular os internautas a assinar o jornal.

Em 2012, foi instalado o “paywall”, sistema que permite uma breve navegação gratuita (20 textos por mês). Depois, no ano passado, houve a restrição nos comentários: só os assinantes podem opinar livremente sobre reportagens e colunas -os demais têm um limite.

Cobrar pelo noticiário on-line é uma das saídas encontradas pelos impressos para compensar perdas de circulação e de publicidade. O efeito colateral é não aproveitar bem a possibilidade que a internet dá de se espalhar o conteúdo e, consequentemente, a marca.

A aposta inicial foi que a grande audiência nos sites atrairia tanta publicidade que não seria necessário cobrar nada do leitor, como faz a TV aberta, mas não foi isso o que aconteceu. Boa parte da verba de propaganda desembocou no Google, no Facebook & cia. e a situação econômica dos jornais ficou difícil.

Agora, resta o papel antipático -e, para alguns, antidemocrático, porque diminui o alcance do debate- de colocar uma catraca no acesso aos textos on-line. À Redação cabe convencer, com um conteúdo realmente de qualidade, o internauta a passar pela roleta.

Quem matou Bernardo, 11?

Leitores  estranharam a Folha não ter identificado os acusados da morte de Bernardo Boldrini, 11, em Três Passos (RS). No início da cobertura, o jornal omitiu os nomes dos três presos -o pai e a madrasta do menino e uma amiga desta-, alegando não ter conseguido contato com os advogados de defesa. “A Folha não publicou os nomes dos acusados por se tratar de uma acusação grave de crime familiar e por não haver, até então, possibilidade de ouvi-los”, diz a Redação.

É louvável a preocupação de não expor acusados quando não há o “outro lado”, mas esse não é o padrão do jornal. Na segunda-feira, a notícia de um atropelamento no Tatuapé trazia o nome do motorista, que teria fugido sem ajudar a vítima, mesmo sem ter a sua versão sobre o que aconteceu.

É difícil criar uma regra, porque a variedade de situações é imensa, mas a métrica da gravidade do crime não pode ser determinante. Na internet, o nome do motorista que atropelou, sem querer, a jovem estará, para sempre, associado ao crime.

Mesmo a condição de só publicar nomes quando houver a versão do acusado é complicada, porque os advogados podem adotar a tática de não atender a imprensa para preservar seus clientes.

O que se pode fazer é tentar manter a coerência. No triste fim do garoto Bernardo, omitir os nomes passou a impressão de proteção injustificada aos acusados.

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Suzana Singer é ombudsman daFolha de S. Paulo