Friday, 21 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Manuel Pinto

‘Sendo fundamentalmente um ‘jornal de notícias’, este diário assume um papel relevante no plano da formação da opinião. Como acontece com a generalidade dos órgãos de Imprensa que acompanham a actualidade local, nacional e internacional, as notícias distinguem-se ou devem distinguir-se claramente do comentário e da opinião. Como a cultura jornalística anglo-saxónica sublinhou, ‘os factos são sagrados, as opiniões são livres’, ainda que nem sempre seja simples delimitar com rigor a esfera de cada qual.

Tipicamente, a opinião de um jornal manifesta-se nas cartas dos leitores, no editorial e, sobretudo, nas colunas dos seus cronistas (sejam eles jornalistas ou não). O JN dedica diariamente uma página (incompleta) à opinião dos leitores, sobre a qual já nos debruçámos noutros momentos. Relativamente ao Editorial, que é a opinião oficial do órgão de informação, ele é tradicionalmente reservado, no JN, para momentos excepcionais ou graves (a Direcção vai sinalizando com regularidade os seus pontos de vista sobre a actualidade através de um espaço menos ‘solene’, digamos assim). Já sobre os seus colunistas, importa salientar que, embora não sendo uma zona prioritária e admitindo que falta algum protagonismo local e regional, a menor visibilidade fica, em parte, a dever-se ao facto de um certo mundo lisboeta continuar a ignorar ostensivamente o que se faz e escreve fora da órbita da capital.

Há, entretanto, que continuar a cuidar desta zona do jornal, procurando qualificar sempre mais a opinião, inovar nas formas e estimular participação dos cidadãos. O recurso a contratos ‘a termo certo’ (xis textos ou xis semanas) pode ser uma alternativa que facilita a circulação de nomes e a descoberta de talentos. A colaboração solicitada a grupos de especialistas, para séries de textos sobre temas de grande interesse público (recordo uma experiência bem sucedida, realizada pelo JN em meados dos anos 80, sobre o insucesso escolar) é outra possibilidade. É vantajoso que o jornal solicite mais frequentemente o comentário especializado externo, quando a actualidade e a natureza dos assuntos o justifique. A iniciativa de inquirir o ponto de vista de diferentes grupos sociais (incluindo as crianças, como foi feito há dias) sobre matérias que lhes digam respeito carece de mais atenção.

Mas é necessário que haja mais leitores a escrever. Sobretudo aqueles que, pelos conhecimentos e experiência que possuem ou/e pelas funções que ocupam, podem ajudar a formar uma opinião pública menos primária, mais fundamentada e mais esclarecida.

António Cândido de Oliveira, de Vila Nova de Famalicão, enviou por correio electrónico uma mensagem ao provedor, na qual relata as conclusões a que chegou, depois de ter acompanhado três jornais – em especial as suas páginas de opinião – durante a segunda quinzena de Agosto. Os jornais foram o ‘Jornal de Notícias’ (edição Minho), o ‘Público’ (edição Porto) e ‘La Voz de Galicia’. ‘A meu ver – escreve o leitor no ‘mail’ enviado –, o JN perdeu claramente, contendo muito menos `opinião´ que os dois restantes jornais’.

Focando em especial a questão ferroviária e a do aeroporto da OTA, António Cândido de Oliveira diz-se chocado com ‘a ausência do JN no debate’, visto serem ‘as decisões sobre a modernização da via férrea (…) da maior importância para a Região Norte’. ‘Parece que esquecemos que enquanto a distância entre Porto e Lisboa é percorrida actualmente em três horas a uma pobre média de pouco mais de 100 km/hora, a distância entre Porto e Vigo é percorrida em igual tempo a uma inaceitável média de 50 km/hora! E actuamos como se esta fosse uma questão que não nos interessa’ – faz notar o leitor.

E acrescenta um aspecto interessante a opinião que em Portugal se manifestou sobre este problema ‘era quase toda – se não toda – oriunda de Lisboa e vista do ponto de vista de Lisboa. O Norte continua sem ter voz!’.

Não sendo tarefa do provedor pronunciar-se sobre as opiniões de quem aqui escreve, já a política editorial do jornal relativamente a esta área pode ser objecto de apreciação. Até porque, sendo este jornal, como o seu título indica, ‘de notícias’ – o que representou uma pequena revolução no jornalismo que se fazia em Portugal, na altura em que o JN nasceu, em Junho de 1888 – tal não significa que não acolha e valorize a opinião.

Um sinal disso é que a edição do primeiro dia deste mês de Setembro surgia com uma nova coluna do escritor e antigo jornalista do JN Manuel António Pina, a publicar de segunda a sexta-feira, na última página, e na qual o autor se propõe, como programa, ‘juntar os pedaços dispersos do mundo e, com eles, descobrir, para nós (…) ao menos uma forma de sentido para aquilo a que chamamos a nossa vida’.

Ao lado dessa primeira coluna, uma curta notícia anunciava a renovação da equipa de cronistas do ‘Jornal de Notícias’, com a entrada da eurodeputada e ex-ministra Elisa Ferreira (ao domingo); do deputado Honório Novo (à segunda-feira); do sociólogo do trabalho Paulo P. Almeida (à terça, quinzenalmente); e do empresário Manuel Serrão (à quarta-feira). Teria sido razoável – até porque isso não tem nada de dramático – que os leitores fossem informados dos cronistas que terminaram a sua colaboração no JN.

Comentando quer a mensagem do leitor António Cândido de Oliveira quer as mudanças dos colunistas, David Pontes, director-adjunto do ‘Jornal de Notícias’, salienta os seguintes aspectos

‘Desde há algum tempo, temos tentado reforçar a opinião na qualidade e na proximidade, mantendo as características de diversidade do JN. Nas mais recentes entradas de cronistas tivemos a preocupação de ir ao encontro de uma das preocupações exibidas pelo leitor, a de que o jornal dê espaço e relevo às `vozes do Norte´, a área de maior implantação do jornal, com nomes como Manuel António Pina ou Manuel Serrão, que apesar de estarem fortemente ligados a esta região possuem clara notoriedade nacional.’

Relativamente à política geral seguida pelo JN, David Pontes faz notar que, não estando esta matéria entre as ‘preocupações centrais’ da Direcção, ‘pausadamente’ se tem ‘dado passos para tentar solidificar um espaço de opinião’ correspondente ao que se acha ‘serem as necessidades dos leitores’ do jornal. Recorda, por outro lado, que existem, disseminados pelo corpo do JN, espaços de opinião geral, nas secções de Local – onde ‘é já uma tradição’ – na Economia e no Desporto, além de que, ‘nos últimos dois anos, a Direcção tem assegurado um espaço de opinião interna no `Preto no Branco’. Acresce que, ao lado dos colunistas regulares, o JN recorre também, de forma pontual, a depoimentos de especialistas ou de analistas credenciados para comentar assuntos de actualidade.

No entanto, e como nota o director-adjunto, relativamente à ocupação destes espaços de opinião, seja os que ocorrem a convite da Direcção, nomeadamente no âmbito local, seja os das participações esporádicas, ‘o jornal nem sempre consegue manter um fluxo constante’ no acompanhamento dos temas da actualidade, não tanto por falta de vontade sua, mas, ‘porventura, por falta de protagonistas locais (não é só em riqueza que o Norte vai perdendo para a capital…) e por escasso empenho de quem tem o conhecimento e o dever cívico de participar no esclarecimento dos seus concidadãos’.

Neste ponto, a ‘bola’ também parece estar do lado dos leitores.

Faz falta um maior protagonismo dos cidadãos nortenhos’