segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Uma aula de jornalismo que veio de fora

Foi preciso um olhar estrangeiro para que o assunto ‘anorexia no Brasil’ recebesse o tratamento devido na imprensa. Em matéria com mais de 9 mil caracteres, publicada no domingo (14/1) e assinada pelo correspondente Larry Rother, o jornal New York Times ouviu médicos, antropólogos, historiadores e nutricionistas brasileiros e deu uma verdadeira aula de bom jornalismo aos nossos colegas.

Segundo o jornal, os dados disponíveis levam a perguntar o que está acontecendo no país:

** Seis jovens morreram de anorexia recentemente, duas em apenas 15 dias;

** A venda de moderadores de apetite mais que dobrou de 2001 a 2005, tornando o Brasil o campeão mundial no consumo ‘pílulas de dieta’;

** Neste verão, a nova mania é fazer lipoaspiração nos dedos dos pés e está acontecendo uma verdadeira explosão de cirurgia plástica entre mulheres de 80 anos ou mais;

** O Rei Momo, símbolo da alegria e da opulência, fez cirurgia do estômago, perdeu 70 quilos e entrou no programa de exercícios físicos.

Os dados não são novos. Foram, aliás, recolhidos na imprensa brasileira. Nova é a forma de tratar o assunto, que na imprensa nacional só mereceu destaque quando a vítima foi a modelo famosa. Já na matéria do New York Times, a maior das celebridades nesta área, a modelo Gisele Bündchen, só entrou porque representa bem esse novo padrão de beleza importado – e que, em última análise, tem sido a causa das trágicas mortes de jovens brasileiras.

Preferência masculina

Para tentar explicar essa mudança no padrão de beleza brasileiro (trocar o corpo violão pela forma esguia e descarnada na boneca Barbie), o jornal discute aspectos psicólogos, antropológicos e históricos.

A historiadora Mary Del Priore, opina: ‘O país está abandonando sua crença tradicional de que gordura é sinal de beleza e a magreza deve ser temida. O resultado contraditório é que hoje os ricos são magros e os pobres são gordos no Brasil’.

Para a psicóloga Joana de Vilhena Novaes, as meninas tentam seguir o padrão Gisele Bündchen, o grande símbolo de beleza nos dias de hoje: ‘A beleza dela é globalizada, não tem nada a ver com o biótipo brasileiro. Ela tem o corpo de uma Barbie e ascendentes alemães’.

Segundo o professor Elisaldo de Araújo Carlini, da Universidade de São Paulo, o que acontece hoje é resultado de ‘uma cruel imposição cultural sobre as mulheres brasileiras, influenciadas por imagens que vêm de outro lado do mundo, acima da linha do Equador’.

A conclusão do artigo é que, embora as mulheres busquem, cada vez mais, um padrão de beleza que implica ser magra, os homens brasileiros continuam preferindo as mulheres de corpo tipo ‘violão’. E conclui com a frase da historiadora Mary Del Priore:

‘Esta abrupta mudança é uma decisão feminina que reflete uma mudança de papéis. As mulheres querem ser livres e poderosas e uma forma de rejeitar a submissão é adotar padrões internacionais que nada têm a ver com a sociedade brasileira’.

Nada a ver

E é a conclusão do artigo que nos dá a certeza de que ainda há espaço para uma análise do problema – com uma visão própria e em profundidade – na imprensa brasileira. Atribuir a uma necessidade de liberação feminina esse fanatismo pela magreza é um certo exagero.

Primeiro, porque mulheres realmente liberadas não se submetem a ditames da mídia – que reflete o pensamento de estilistas, experts em beleza e outros pequenos ditadores de nossos dias – com relação ao seu visual.

A necessidade das jovens de adaptar seu biótipo a padrões ‘alienígenas’ (como diriam os norte-americanos) tem pouco ou nada a ver com movimento de liberação feminina. A magreza, hoje, significa a chance de uma carreira, fama e possibilidade de ganhar dinheiro.

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Jornalista