segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Notícia e suas fantasias

Faz parte da construção da imagem dos fazedores de notícia o discurso do jornalismo independente ou, ainda outro, o discurso dos que se dizem partidários e integrantes da mídia popular e democrática. Uns vendendo a imagem de que são capazes de produzir um jornalismo isento, imparcial, relatando apenas os fatos, sem prestar favores editoriais a anunciantes ou ao poder, a grupos políticos e sem relações promíscuas com suas fontes; e os outros que se dizem comprometidos com um jornalismo envolvido com os interesses populares e com a democracia.

Quando em 2002 concluí pesquisa acerca da revista Caros Amigos, publicação concebida por nomes como o somaterapeuta Roberto Freire e o jornalista Sérgio de Souza, trabalhei com a possibilidade de que efetivamente pudesse existir jornalismo independente. Elenquei uma série de fatores que, em conjunto, caracterizariam como independente ou não uma forma de se fazer jornalismo. Assim, a relação com as fontes, anunciantes, escolha dos temas e o enquadramento que é dado à notícia seriam formas de se avaliar a produção e veiculação, mensurando a independência do produtor de notícias. (Um breve resumo da pesquisa pode ser consultado em artigo publicado ainda naquele ano, neste Observatório.)

Pesquisar um objeto em pleno movimento é tarefa não raras vezes ingrata e, tratando-se de uma mídia dedicada a temas relacionados à política e a questões sociais, mudanças internas podem levá-la, também, a caminhos diferentes daqueles inicialmente concebidos. Uma dessas mudanças em Caros Amigos ficou por conta da saída de Roberto Freire que, com sua postura libertária, garantiu até o período em que saí definitivamente da revista uma independência editorial no que tange ao alinhamento político da revista, ao menos a partidos políticos. Roberto Freire “desligou-se de Caros Amigos no início de 1999” (a revista foi lançada em abril de 1997), por divergir dos rumos que a revista estava tomando que, segundo relato no site da somaterapia, “cada vez mais se estraga ao defender a política tradicional/partidária” (Câmara, pag. 50, 2002).

A verdade popular e democrática

Os elementos que utilizei para mensurar uma possível independência de empresas jornalísticas, acredito, devem ser revistos no sentido de utilizá-los de maneira a ampliar sua perspectiva de análise. Eles medem independência, sim, mas há de se apontar em relação a qual perspectiva política ela se dá. São elementos que colaboram para o entendimento da linha editorial de uma empresa jornalística, sejam as dos chamados meios de comunicação de massa (MCM) ou as que dizem dedicar-se ao campo democrático popular.

O discurso da independência jornalística não é privilégio de nenhuma empresa: uns dizem que estão de “rabo preso com o leitor” ou compromissados com a notícia, ou o telespectador, no caso de telejornais, ou com o campo popular democrático. Arvorar-se independente surge como um dogma caro no meio jornalístico, em geral acolhido tanto à esquerda como à direita.

Manuel Castells observa, ao analisar os movimentos sociais na era da internet em Redes de Indignação e Esperança, o campo de atuação dos canais de comunicação em contraponto à autonomia que, na opinião do autor, as redes sociais teriam em relação a eles.

“Como os meios de comunicação de massa são amplamente controlados por governos e empresas de mídia, na sociedade em rede a autonomia de comunicação é basicamente construída nas redes da internet e nas plataformas de comunicação sem fio” (Castells, pag. 14, 2012).

Nessa relação que vai de governos pouco ou não democráticos – que, de fato, monopolizam os meios de comunicação – a sociedades democráticas que convivem com empresas de jornalismo que apoiam um ou outro grupo político, é fato que não é tão útil à democracia quando as coisas do ponto de vista da preferência política não ficam claras, ou quando uma mídia se diz mais democrática do que as outras, ou a portadora da melhor verdade, a verdade popular e democrática.

Opções limitadas

Especificamente no caso brasileiro, a questão então é: independência em relação a que, a qual perspectiva ou articulação política?

Observando algumas publicações, seus enquadramentos, fontes e escolha de temas, temos que não é lá muito produtivo procurar uma visão crítica em relação a determinadas questões em uma mídia ou favorável em outra. Ou seja, um enquadramento que entenda o governo petista no âmbito federal como um grupo no poder que empreendeu prejuízo ao processo democrático no país, ao construir um esquema corrupto de apoio parlamentar – mensalão –, é impossível de ser encontrado na revista CartaCapital, assim como uma crítica sistemática ao pensamento liberal não será encontrada na revista Veja, porém um acompanhamento de todo o processo do escândalo de compra de parlamentares, efetuado por quadros do PT, poderá ser encontrado em publicações como a Veja, que se opõem – desde sempre – ao grupo de poder estabelecido em Brasília, oposta à CartaCapital, que se dedica ao acompanhamento do governo petista de maneira francamente favorável, construindo uma imagem edificante da gestão e do ideário petista.

Em seu período de existência (1997 a 2006), a revista Primeira Leitura, publicação francamente favorável ao PSDB, empreendeu crítica ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Compreendia-o como algo anacrônico enquanto proposta de movimento social, relatando, inclusive, caso de justiçamento entre seus quadros. Já o leitor que estivesse interessado em entender o MST enquanto um movimento que iria garantir justiça social e uma nova maneira de se empreender a estrutura fundiária e a produção agrícola brasileira, este deveria ler a revista Caros Amigos, que no mesmo período se dedicou, sistematicamente, a relatar a estrutura e ações do MST, com um enquadramento em nenhum momento crítico ao movimento (Câmara, págs. 36 e 114 a 120, 2002).

Se o discurso da independência não colabora com a transparência, o fato é que a delimitação do campo político em que mídias se circunscrevem está posto. Sem haver o anúncio oficial das empresas de jornalismo, as preferências estão assentadas, mesmo que circunscritas a opções políticas limitadas, num contexto midiático em que a preferência política dos fazedores de notícia pode ser considerada como razoavelmente configurada, a despeito dos discursos que os fazedores de notícia fazem deles mesmos.

“Imparcialidade” ao gosto

A explicitação de alguns discursos já dá ao consumidor de notícias uma melhor visualização do conjunto de perspectivas que apontam os possíveis diagnósticos e soluções aos problemas tratados, ao menos no campo politico partidário da atual conjuntura. Nos dias atuais, de mídias que francamente apoiam o governo petista aos que lhe fazem oposição, o panorama já poderia dar aos leitores algumas opções que o ajudassem na formação de sua opinião, porém isso esbarra em outra questão.

Diante do que é veiculado pelas empresas jornalísticas, o leitor tende a procurar a notícia produzida segundo a sua preferência por tal ou qual discurso político, ou seja, não procura a notícia veiculada pela mídia que seja contrária e muito crítica ao partido ou grupo político de sua preferência. O caráter monocórdio recorrente dos produtores de notícias em suas respectivas mídias – e o apego do leitor a essa abordagem – provavelmente seja mais um empecilho ao confronto democrático de ideias.

Assim algumas questões ficam postas: a mídia que se intitula a realmente democrática e popular, que despreza a dita grande mídia, o jornalismo independente que – claro – não existe, pois se vincula a concepções e não raros partidos e coalizões políticas especificas, mas por seu próprio caráter dependente, não confesso, permite certa diversidade ao leitor, e a tendência do leitor em buscar informações e análises que corroborem e fortaleçam suas convicções.

Quanto às preferências políticas não confessadas, talvez isso fique por conta do marketing necessário ao meio: a mercadoria notícia isenta/jornalismo independente é mais fácil de ser vendida do que a mercadoria que se confessa partidária de um grupo político específico. Já o leitor parece preferir entender como “imparcialidade” aquilo que lhe agrada melhor do ponto de vista ideológico, posto ser muito dolorido o processo de negação ou mesmo crítica de nossas verdades.

Referências

CÂMARA, Marcelo Barbosa. “Caros Amigos: Esfera Pública, Política e Jornalismo Independente (1997-2002)”. PUC-SP. 2002.

CASTELLS, Manuel. Redes de Indignação e Esperança – Movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro. Zahar, 2012.

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Marcelo Barbosa Câmara é doutor em Ciências Sociais (Política) pela PUC-SP