segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

O Estado de S. Paulo


PRÊMIO
‘Morumbi fora da Copa’ ganha Prêmio Estado


A reportagem que revelou que o Estádio do Morumbi seria descartado pela Fifa
e não receberia nenhuma partida da Copa do Mundo de 2014, muito menos a
abertura, foi a vencedora do 10.º Prêmio Estado de Jornalismo na categoria
reportagem. A premiação destaca os melhores trabalhos produzidos pelo jornal
durante o ano.


No total, 23 trabalhos foram agraciados em 8 categorias. O 3.º Prêmio
Estadão.com, que destaca a produção voltada para a internet, teve 11 ganhadores
em 4 categorias.


O repórter Sílvio Barsetti ficou em primeiro lugar por trazer à tona a
decisão da Fifa de eliminar o Morumbi como um dos estádios para abrigar partidas
do Mundial de 2014 em São Paulo. A matéria foi publicada em abril, época em que
o estádio era o mais cotado para sediar a abertura do evento. O anúncio oficial
de que o Morumbi estaria fora foi feito dois meses depois pela entidade.


Na categoria reportagem especial, o primeiro lugar ficou com Fausto Macedo,
pelo caderno México em Guerra, publicado em maio. O repórter viajou até o país
para mostrar os graves confrontos envolvendo grupos de narcotraficantes contra o
governo, que se intensificaram em Ciudad Juarez.


O prêmio para a melhor edição ficou com Viviane Kulczynski, Vitor Hugo
Brandalise, Keiny Andrade e Rodrigo Burgarelli pelo caderno A Alma da Metrópole,
em comemoração aos 456 anos de São Paulo. O material retrata o cotidiano de
moradores anônimos da capital.


A série de imagens que mostram um ladrão atirando em um policial, sendo preso
sem ferimentos e chegando morto ao hospital ficou em primeiro lugar na categoria
fotografia. De autoria de Wilton de Souza Junior, as fotos foram tiradas na
Avenida Rio Branco, centro do Rio.


Regina Elisabeth, Daniel Bramatti, Nisa Melo, Gabriela Allegro, Alberto Souza
e Alexandro Botelho venceram na categoria artes/gráficos. Eduardo Asta e
Tcha-Tcho foram os premiados em diagramação. O guia Divirta-se no Shopping, de
Rafael Barion, Leandro Quintanilha e equipe foi o vencedor na categoria serviço.


Reportagem Especial


1º Lugar


Caderno Especial México em Guerra


Fausto Macedo


2º Lugar


Cobertura Dilma


Vera Rosa


3º Lugar


A Alma da Metrópole


Viviane Kulczinski, Vitor Hugo Brandalise, Keiny Andrade e Rodrigo
Burgarelli


Serviço


1º Lugar


Guia Edição Especial – Divirta-se


Shopping


Rafael Barion, Leandro Quintanilha e Equipe


2º Lugar


A Maior Mentira da Internet


Carla Peralva


3º Lugar


Rota da Balada


Fabiana de Nadai Caso e Camila Anauate


Edição


1º Lugar


SP 456 Anos – A Alma da Metrópole


Viviane Kulczynski, Vitor Hugo Brandalise, Keiny Andrade e Rodrigo
Burgarelli


2º Lugar


Copa 2010 – Retrato de uma Derrota


Equipe Esportes


3º Lugar


Caos em São Paulo


Ana Sacoman e Equipe


Infográfico


1º Lugar


Mapas das Eleições


Regina Elisabeth, Daniel Bramatti, Nisa Melo, Gabriela Allegro, Alberto Souza
e Alexandro Botelho (TI)


2º Lugar


Dinossauros do Brasil


Glauco Costa Lara, Rubens Paiva, William Mariotto, Eduardo Asta, Edmilson
Nonato, Gisele Oliveira, Farrell (Marcos Ferreira), Leandro Sanches e Regina
Elisabeth (coordenação geral)


3º Lugar


Baleia Jubarte


Glauco Costa Lara, Farrell (Marcos Ferreira), Alexandre Gonçalves
(colaboração texto) e Edmundo Pereira (tratamento de imagem)


Diagramação


1º Lugar


Cronologia Visual da Copa 2010


Eduardo Asta e Tcha-Tcho (Eduardo Malpeli)


2º Lugar


O Y da questão


Jairo Rodrigues e Flavia Marinho


3º Lugar


Pelé Imortal


Carlos Leandro Martins


Fotografia


1º Lugar


Tiros e Mortes no Centro do Rio


Wilton de Souza Junior


2º Lugar


Brasil de Dunga é Eliminado


Jonne Roriz


3º Lugar


Verdadeiro Check-out – Ca’d’Oro, 1953-2009: Fim de um símbolo


Thiago Queiroz


2º Prêmio estadão.com.br


Blogs


1º Lugar


Radar Econômico


Silvio Crespo


2º Lugar


Eduardo Reina – Cidades, pessoas e decisões


Eduardo Reina


3º Lugar


Luiz Américo Camargo – Eu só queria jantar


Luiz Américo Camargo


Integração


1º Lugar (empate)


Edição/Cobertura


Sônia Racy e Rui Nogueira


3º Lugar


Julia Duailibi


Edição/ Cobertura


1º Lugar


Cobertura das Eleições 2010


André Mascarenhas, Rodrigo Alvarez, Jair Stangler, Bruno Siffredi, Ricardo
Chapola, José Orenstein, Carol Pires, Felipe Machado, Adriana Plut, Gabriel
Valente, Otávio Medeiros, Bruno Salvagno, Anderson Bellini, Daniel Martins e
Letícia Bragaglia


2º Lugar


Cobertura do Julgamento do Caso Nardoni


Gabriel Pinheiro, Gabriel Vituri e Fabiana Marchezi


3º Lugar


Cobertura do Terremoto no Haiti


Luiz Raatz, Gustavo Chacra, João Vitor Carioca, Edmundo Leite, Arícia
Martins, Rodrigo Martins, Bruno Lupion e Tatiana de Mello Dias


Infografia/Especiais


1º Lugar


Geografia do voto


Alberto Souza, Alexandre Botelho, Ricardo Periago, José Roberto Toledo,
Carlos Lemos e Daniel Lima


2º Lugar


Especial – Onde atuam os jogadores da Copa


Carlos Lemos e Daniel Lima


3º Lugar


Especial – Repórteres Fotográficos


Renata Aguiar, Camila Matos e Bia Rodrigues


 


TECNOLOGIA
Década digital


Ubiratan Brasil


Em dezembro de 2000, uma sofisticada opção de presente de Natal era um
aparelho ainda pouco conhecido, chamado MP3 Player, que armazenava digitalmente
até meia hora de música gravada. Uma revolução, mas para poucos, pois o preço
era salgado. Mais prático era apostar no velho CD, cujo sucesso continuava de
vento em popa – além do surgimento de aparelhos que gravavam nos disquinhos o
conteúdo do velho bolachão, coleções resgatavam clássicos, como a caixa com 7
CDs que traziam praticamente toda a obra de Dorival Caymmi, o melhor lançamento
do momento.


Dez anos depois, uma revolução tecnológica praticamente varreu a forma
tradicional de se produzir e escutar música. Surgiram o download ilegal, o
comércio virtual, o iTunes, o iPod, o YouTube, o MySpace, o Spotify, o estúdio
doméstico dentro de um laptop, democratizando a oferta para o ouvinte e levando
a indústria a um questionamento sobre a própria sobrevivência.


A música foi a que mais sofreu mudanças com os avanços da tecnologia na
primeira década do século 20 que agora termina, mas outras áreas da cultura
sentiram abalos semelhantes. O cinema, por exemplo – em 2000, um dos hits de
dezembro foi a estreia da animação A Fuga das Galinhas, que utilizava técnicas
tradicionais de desenhos, ou seja, a história foi filmada, fotograma por
fotograma, acompanhando passo a passo os bonecos. Os computadores só entraram
para dar o toque final envolvendo iluminação e cenários.


No início da segunda década do século 21, filmes (e não apenas animações) são
produzidos visando exibição em 3D, em salas de cinema equipadas com moderno
sistema de som digital. Uma alternativa para tentar frear a ação da pirataria
que, de tão intensa, chegou a antecipar (e quase ofuscar) o lançamento oficial
do primeiro Tropa de Elite, em 2007.


Já na literatura, as mudanças aconteceram mas ainda não se consolidaram. No
início da década, surgiram os primeiros formatos de e-book, ainda rudimentares e
com capacidade de armazenamento reduzida. O avanço tecnológico, porém, que
permitiu o surgimento de modelos como o Kindle, fez acender o sinal amarelo no
mercado editorial do planeta, imprensado pela dúvida: estaria o tradicional
formato em papel condenado?


Uma pesquisa realizada na Feira de Frankfurt, a mais tradicional do setor, em
2008, apontava 2018 como o ano em que os livros eletrônicos superariam em volume
de negócios os existentes hoje, em papel. Em julho passado, a Amazon, uma das
maiores livrarias virtuais do mundo, anunciou que já vendia mais livros digitais
que impressos, colocando sob suspeita, portanto, qualquer prognóstico.


Nessa edição especial, o Caderno 2 Domingo traz um balanço das grandes
mudanças que marcaram a música, cinema, literatura, artes visuais, teatro,
arquitetura e televisão, na surpreendente primeira década do século 21.


 


Alexandre Matias


O digital inevitável. Cultura enquanto serviço


Você lembra como fazia, há dez anos, para ouvir um determinado artista que
alguém tinha comentado? Era preciso esperar que o disco fosse lançado por alguma
gravadora e, caso o artista fosse estrangeiro, torcer para que o álbum saísse no
Brasil. Se a obra em questão fosse audiovisual – filme ou programa de TV – o
processo era mais complexo, pois os lançamentos eram ainda mais escassos.


Dez anos dentro do século 21 e como é que um cidadão online descobre sobre
determinado artista ou filme? O método mais simples e popular é o YouTube. O
site de vídeos do Google tornou-se um imenso repositório de cultura que abriga
trechos de shows, programas de TV, trailers de filmes, vídeos de gente filmando
discos raros em vinil sendo tocados, artistas que se lançam primeiro em clipes e
músicas que outros usuários sobem no site sem autorização dos autores.


Desde que o Google comprou o YouTube há a promessa de limpar o site de
conteúdo autoral indevido. Filtros foram criados para detectar vídeos colocados
à revelia de seus donos, parcerias foram feitas com estúdios de Hollywood e
gravadoras multinacionais, mas o YouTube ainda segue uma imensa terra-sem-lei no
que diz respeito a direitos autorais.


(A culpa dessa rixa entre a internet e os velhos produtores de conteúdo pode
ser posta nas gravadoras majors que decidiram ‘resolver’ o ‘problema’ da música
digital processando quem baixava MP3 sem autorização. Caso fizessem uma
associação com o Napster, o primeiro software que permitiu o download digital em
escala massiva, talvez hoje estivéssemos felizes por pagar por MP3 legais e de
excelente qualidade musical. Mas divago.)


Além do YouTube, no entanto, há outras formas de se consumir conteúdo digital
sem que isso necessariamente esteja associado a downloads ilegais. Mesmo porque
boa parte dessas alternativas, como o YouTube, nem cogita a possibilidade de
download. São serviços pagos por assinatura em que é possível se ouvir qualquer
tipo de música, em qualquer computador, a qualquer hora.


São nomes estabelecidos na última década (como as redes da Apple, Sony,
Microsoft e Nintendo) e novatos que já fazem muito barulho (como a locadora
online Netflix ou os serviços de assinatura musical como Spotify e Grooveshark).
Nenhum deles está disponível no Brasil, mas já são uma tendência sem volta: o
conteúdo cultural em vez de ser estocado em lojas e prateleiras agora é reunido
em HDs e servidores. Cultura, aos poucos, deixa de ser um produto para se tornar
um serviço. E se isso já começou a mudar a forma esse consumo, vamos começar a
ver como isso afeta a produção cultural. O digital inevitável irá,
necessariamente, mudar conceitos como ‘disco’, ‘livro’ e ‘filme’ – novos
artistas já estão fazendo isso. Os anos 10 estão só começando. Feliz 2011!


 


Gabriel Priolli


Avanço e recuo


Uma avaliação da televisão brasileira na primeira década do século 21, pelo
ângulo da tecnologia, traz resultados contrastantes e oferece um interessante
balanço de perdas e ganhos. Nunca houve tantas e tão rápidas mudanças
tecnológicas nesse mercado, que completou em 2010 os seus 60 anos de existência
no País. Nunca esteve também tão ameaçada a sua hegemonia, no conjunto das
mídias oferecidas aos brasileiros. É possível dizer que, nesta década,
paradoxalmente, a TV avança e recua ao mesmo tempo, pressionada por diferentes
vetores do desenvolvimento tecnológico.


Os anos 2000 começaram com as emissoras brasileiras transmitindo imagens em
sistema analógico, para televisores de tubo (tecnologia CRT, Cathode Ray Tube).
Encerram-se com transmissões simultâneas em sistema analógico e digital, e com
os televisores de tubo perdendo espaço rapidamente para os aparelhos de plasma,
LCD e LED, enquanto o 3D esquenta os transistores. As imagens são captadas tanto
em telas gigantescas, que já atingem 100 polegadas, como nos displays minúsculos
dos telefones celulares, dos GPs ou dos televisores móveis. O sinal de TV é
onipresente no espaço privado ou público, tal a quantidade de tecnologias que
podem oferecê-lo.


No entanto, a despeito dessa oferta abundante, os índices de audiência são
declinantes no Brasil – como, de resto, no mundo todo. Na Grande São Paulo, em
2005, os televisores ligados durante o horário nobre atingiam 63% do total de
aparelhos instalados. Hoje, flutuam em torno de 55% e os números seguem caindo.
Aproxima-se o momento em que teremos mais televisores apagados do que acesos, a
qualquer hora do dia.


A principal responsável por isso é outra tecnologia, mais completa e avançada
do que a TV conseguiu lograr até agora: a internet em banda larga. Ela cresce
nestes anos 2000 com a velocidade da luz e já oferece conexões domésticas
ultrarrápidas, permitindo ao usuário a assistir vídeos ou programas de TV via
computador com qualidade quase equivalente à encontrável nos televisores. Com
uma vantagem adicional – a plena interatividade -, que viabiliza até mesmo o
tráfego de conteúdos gerados pelo próprio usuário, em suas câmeras de vídeo ou
celulares. E que faz dela um meio de comunicação muito mais interessante do que
qualquer outro.


Um emblema da situação paradoxal da televisão são os reality-shows, surgidos
por aqui em julho de 2000, com a estreia de No Limite na TV Globo, e consagrados
com Casa dos Artistas (SBT, 2001) e Big Brother Brasil (Globo, 2002). Eles se
baseiam na participação ativa do público, seja como protagonista dos programas,
seja como votante na eliminação de participantes. Mas, embora a TV digital
esteja em operação no País desde dezembro de 2007 e a tecnologia permita a
interatividade do usuário, nenhum telespectador pode fazer uso dessa
funcionalidade, pelo simples fato de que as emissoras ainda não se interessaram
em implementá-la. Assim, quem vota nos reality-shows tem de fazê-lo pela
internet ou pelo telefone, em vez de simplesmente usar o controle remoto do
televisor. É TV interativa com a mídia dos outros, sem refresco para
ninguém.


Outra funcionalidade da TV digital que afetaria o mercado, pela multiplicação
do número de canais disponíveis, seria a multiprogramação. Mas, novamente, o
telespectador não se beneficia. A multiprogramação só está autorizada pelo
Ministério das Comunicações para emissoras educativas e apenas a TV Cultura de
São Paulo faz uso dela, veiculando os canais TV Univesp e Multicultura, além do
seu próprio sinal. O argumento para vetar-se o uso da funcionalidade à TV
comercial é de que não há mercado publicitário capaz de financiar os novos
canais, que surgiriam do desdobramento dos canais existentes.


Ainda assim, o advento da TV digital é a notícia mais importante da televisão
nos anos 2000. A nova tecnologia produzirá mais efeitos sobre o mercado nas
décadas vindouras, mas já permite à televisão encarar com algum otimismo a
concorrência seriíssima da internet. Se ainda não é interativa e multicanal, já
transmite em alta definição de som e imagem, e é perfeitamente sintonizada em
dispositivos móveis. Está em plena disputa pela atenção do consumidor, sobretudo
o jovem, o telespectador mais infiel nos tempos que correm.


Nos anos 2000, o surgimento de uma nova linha de humor, com produtos como
Pânico (RedeTV!, setembro de 2003) e CQC (Band, março de 2008) levou à
obsolescência de um programa tradicional como Casseta & Planeta (Globo), que
sairá do ar este mês, depois de 19 anos de sucesso. Da mesma forma, o
esgotamento temático e formal das telenovelas determinou a perda progressiva de
audiência do gênero, a despeito de êxitos como O Clone (Globo, 2002) e Senhora
do Destino (Globo, 2004-2005), e de experiências exóticas como Metamorphoses
(Record, 2004) ou Os Mutantes – Caminhos do Coração (Record, 2008).


A internet, portanto, é ameaçadora. Mas não é apenas ela que explica a
trajetória da TV nesta década, que se vai sem nada de extraordinário a
celebrar.


GABRIEL PRIOLLI É JORNALISTA E PRODUTOR


 


Luiz Carlos Merten


O digital é o limite


Cannes foi a vitrine que anunciou/consolidou as mudanças que haveriam de
marcar o cinema da década. Em 2000, o maior evento planetário de cinema promoveu
um grande seminário para discutir as novas tecnologias.


Elas já vinham se impondo há pelo menos 20 anos, desde que, no começo dos
anos 1980, Francis Ford Coppola e Jean-Luc Godard incorporaram o vídeo e fizeram
O Fundo do Coração e Número 1. Nos anos seguintes, Peter Greenaway ligou-se a
técnicos japoneses de ponta para fazer pesquisas de alta definição. Há dez anos,
o aporte dessas novas tecnologias já era tão grande que o Festival de Cannes
reuniu artistas e técnicos para uma ampla discussão sobre o assunto.


Surgiu a questão – e se o suporte do cinema deixasse de ser a película, o
celuloide, ainda assim seria cinema? Cannes não ficou só na discussão e o júri
presidido por Luc Besson deu a Palma de Ouro a Dançando no Escuro, de Lars Von
Trier. De repente, o digital passou a ser o assunto dominante. Uma interrogação
recorrente era se o digital teria um impacto estético tão forte quanto tiveram
as câmeras portáteis e os equipamentos de gravação de som direto nos anos 1960,
pedra de toque da afirmação de movimentos como a nouvelle vague.


Dez anos depois de Dançando no Escuro, as novas tecnologias mudaram tudo.
Filmes podem ser feitos hoje com o mínimo de dinheiro, embora os efeitos de
ponta de blockbusters como Avatar, de James Cameron, ou A Origem, de Christopher
Nolan, tenham inflacionado os custos de produção. E o problema básico não mudou.
Filmes podem ter-se tornado baratos, em termos, democratizando a produção, mas o
imenso problema continua sendo mostrar essas imagens.


Continua a ditadura da exibição. Existem hoje telas alternativas, mas o
cinema, como negócio, continua, e agora mais até, em mãos das grandes empresas
produtoras e distribuidoras de Hollywood. Mas, no Brasil, o diretor José
Padilha, associado a Marcos Prado e Marco Aurélio Marcondes, conseguiu montar um
sistema próprio para a distribuição de Tropa de Elite 2 e o resultado é que o
filme fez história neste ano como o maior sucesso de público do cinema
brasileiro de todos os tempos, alcançando a marca de 11 milhões de
espectadores.


No primeiro semestre, em visita a São Paulo para promover o DVD de Avatar,
James Cameron fez uma afirmação ousada. Disse que, hoje, o limite dos cineastas
é a imaginação. Existem tecnologias para fazer não importa o quê. Prova disso é
o desenvolvimento da animação, que, com a tecnologia digital, se tornou tão
apurada que está saindo do gueto. Por mais brilhantes e até vanguardistas que
tenham sido algumas animações, ao longo do tempo – Branca de Neve e os Sete
Anões e Fantasia, na Disney; o Submarino Amarelo, de George Dunning, nos anos
1960, elas sempre foram consideradas um gênero em si, a oitava arte. Hoje, Toy
Story 3, de Lee Unkrich, e Ratatouille, de Brad Bird e Jan Pinkava, são
experiências radicais que competem com o mais forte cinema de autor, ou o mais
realista dos dramas.


As novas tecnologias terminaram, sim, por criar um impacto estético.
Perfeccionando um sistema chamado de motion capture, que captura os movimentos
humanos no computador, o neozelandês Peter Jackson iniciou a década fazendo a
trilogia O Senhor dos Anéis. Baseado na saga erudita de J. R. R. Tolkien, não
foi só um evento técnico. O filme antecipou uma das tendências da década – o
cinema como veículo de massificação da cultura erudita. Um pouco na mesma
vertente, Christopher Nolan recorreu aos labirintos de M.C. Escher tanto quanto
a Freud (à psicanálise) para investigar os sonhos em A Origem.


O digital serviu a todos os gêneros e estilos. O australiano Baz Luhrmann
usou-o para equalizar a cor de Moulin Rouge e o musical com Nicole Kidman
anunciou o retorno triunfante do gênero a Hollywood. Um diretor que sempre
trabalhou com efeitos, Steven Spielberg, concebeu uma trilogia informal, formada
por O Terminal, Guerra dos Mundos e Munique, para refletir sobre o 11 de
Setembro, sem que uma palavra seja dita, em nenhum dos filmes, sobre o atraque
às torres gêmeas.


Cinematografias periféricas abriram novas janelas para a contemplação do
mundo. O tailandês Apichatpong Weerasethakul colocou o cinema de seu país no
mapa com Mal dos Trópicos. Periférico numa cinematografia importante como a
francesa, Abdellatif Kechiche usou o digital em O Segredo do Grão, mas o que faz
de seu filme especial é a investigação da linguagem oral – o que falam e como
falam os islâmicos integrados, melhor seria dizer discriminados, na sociedade
francesa.


Manipulação. O 11 de Setembro foi o grande fantasma da primeira década do
terceiro milênio. Os anos 90 foram marcados pela queda do Muro de Berlim e pela
derrocada do império soviético. Os 2000 por aquelas imagens que o mundo viu pela
TV. Por mais discutido que seja, Michael Moore, com frequência acusado de
manipulação, fez de Fahrenheit 11 de Setembro não só uma crítica da era George
W. Bush mas também da manipulação das imagens pela mídia a serviço do poder.


Falamos só de novas técnicas. Não se pode esquecer que um adepto do
celuloide, Pedro Almodóvar, tem feito avançar outra discussão – sobre
comportamentos e novas organizações familiares. Difícil é selecionar o melhor
Almodóvar. Tudo Sobre Minha Mãe? Fale com Ela?, Mas a maturidade artística do
autor espanhol foi um dos destaques da década.


 


Luciana Villas-Boas


Tempos generosos na indústria editorial


Um espectro assombra a criação e o consumo literários ao final da primeira
década do século 21. As inovações tecnológicas que permitem a difusão eletrônica
da palavra escrita com uma amplitude e rapidez jamais imaginadas marcaram mais
do que qualquer outra tendência cultural, fato político, ou movimento social, os
debates entre criadores e consumidores de literatura, ou de qualquer texto
longo, que tome o formato de livro. Com todas as promessas e ameaças inerentes
ao livro eletrônico, entramos na segunda década do século sem saber se o sistema
literário existente conseguirá conviver com a novidade e sobreviver como relação
social e como negócio; e, em caso negativo, qual será o impacto sobre a criação
ficcional. Será o fim do romance como o entendemos hoje? Espero e creio que não,
mas é essa a pergunta que caberá ao meio literário e editorial responder nos
próximos anos.


Como, apesar da globalização, a história das regiões caminha em ritmo
desigual, o debate pegou firme também no Brasil, um país ainda de poucos
leitores relativamente à população, quase desprovido de bibliotecas e livrarias.
Mas aqui a década foi mais generosa com a indústria editorial do que nos países
centrais. Se o público leitor ainda está longe de cumprir seu potencial, a
distribuição da renda ampliou significativamente o mercado do livro. Por
continuarem sem acesso a uma boa educação formal, as classes B e C mudaram o
perfil da indústria brasileira. A indústria editorial, que no século 20 se
caracterizava por abastecer a elite, agora é evidentemente mais popular: as
livrarias foram inundadas por romances de consumo fácil, livros de autoajuda e
todo tipo de texto que reflita acriticamente os modismos da produção cultural de
massa.


Quanto à grande literatura, houve, nos países centrais, um retorno
espetacular da narrativa, a valorização, evidente nas premiações e na recepção
crítica, para não falar de vendas, do enredo inteligente e bem armado para dizer
algo relevante sobre a condição humana ou a História, por meio de personagens
densos e multifacetados e um trabalho de linguagem de quem domina seu idioma e
consegue construir uma voz autoral original e inconfundível. No Brasil,
engatinhamos, ainda esmagados pelas desconstruções joycianas do século passado,
na maioria das vezes sem a devida bagagem literária e controle do idioma. Mas
surgiram prêmios literários de repercussão e a condição de escritor é hoje muito
mais apreciada do que no século passado. Não é fácil, mas é possível ser
otimista e acreditar que nos próximos 10 ou 15 anos começaremos a construir uma
grande literatura nacional, com presença e visibilidade até mesmo na Europa e
nos Estados Unidos.


LUCIANA VILLAS-BOAS É DIRETORA DO GRUPO EDITORIAL RECORD


 


Renato Cruz


Notebooks já vendem mais que desktops


Este ano, pela primeira vez, a venda de computadores portáteis ultrapassou a
de modelos de mesa no País. Isso tem trazido mudanças ao mercado. Segundo a
Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), devem ser
vendidos 7,15 milhões de notebooks este ano, comparados a 6,85 milhões de
desktops.


‘O mercado de desktops não vai acabar, mas não tem tendência alguma de
crescimento’, disse Ivair Rodrigues, diretor de Estudos de Mercado da IT Data e
responsável pelos dados da Abinee. Em 2009, haviam sido comercializados 5,15
milhões de PCs portáteis e 6,85 milhões de computadores de mesa.


Um efeito claro dessa mudança de perfil do mercado brasileiro foi o
fortalecimento dos grandes fabricantes, principalmente das empresas
internacionais. ‘Os fabricantes menores ficaram numa situação complicada’,
afirmou Rodrigues.


Isso porque, no caso dos portáteis, as empresas normalmente importam kits, no
lugar de trazer as peças em separado. Eles precisam ser comprados em quantidade
maior, com pagamento à vista. ‘A empresa precisa de fluxo de caixa’, explicou o
diretor da IT Data. No caso dos desktops, normalmente as peças são compradas no
Brasil, sendo algumas delas, como placas, gabinetes e discos rígidos, de
fabricantes locais.


A nova configuração acabou concentrando o mercado, com os pequenos
fabricantes praticamente restritos aos desktops. Ela também colocou pressão na
Positivo Informática, maior fabricante brasileira de computadores, que se viu
obrigada a competir com os gigantes mundiais num mercado de margens cada vez
mais apertadas.


No terceiro trimestre, a Positivo registrou queda de 74,1% em seu lucro
líquido, que somou R$ 15,3 milhões. A margem líquida da companhia diminuiu 6,7
pontos porcentuais, para 2,5%. As vendas da companhia caíram 1,3%, para 521,8
mil unidades.


Novos mercados. A Digitron, maior fabricante brasileira de placas-mãe para
computadores, resolveu diversificar diante do novo cenário. A placa-mãe é a
principal placa do PC, em que são conectados os outros componentes.


Em outubro, a empresa anunciou um acordo com a americana Western Digital para
fabricar discos rígidos no Brasil, em sua fábrica de Manaus. O objetivo da
Digitron é produzir 4 milhões de unidades em 12 meses.


A necessidade de diversificar vem da diferença da participação da empresa nos
mercados de desktops e de notebooks. A Digitron fornece cerca de 40% das
placas-mãe dos computadores de mesa produzidos no Brasil, segundo Sung un Song,
presidente da empresa. Nos portáteis, a participação está abaixo de 10%. ‘As
placas-mãe dos notebooks são diferentes para cada modelo’, explicou Song.


Outra iniciativa para se tornar menos dependente do mercado de placas-mãe
para desktops foi o início da produção do computador Cape7 230, sob a marca
PCWare. Trata-se de um computador de baixo custo para o mercado corporativo, que
mede somente 17 por 14 centímetros e pode ser encaixado atrás de um monitor de
LCD. ‘Em janeiro ou fevereiro, vamos lançar um tablet’, disse Song. O
equipamento, que concorrerá com o iPad da Apple, usará o sistema operacional
Android, do Google.


Alternativas. Para Luiz Mascarenhas, diretor de produtos de consumo da HP, o
mercado de computadores de mesa continua ‘extremamente saudável’, apesar do
crescimento dos portáteis. ‘Existe espaço para as duas decisões de compra’,
disse Mascarenhas. ‘A venda maior de notebooks era algo que já estávamos
esperando acontecer. É uma tendência natural.’


O executivo contou que, por ter dois filhos pequenos, acabou comprando
recentemente para a sua casa um modelo All-In-One (tudo em um), desktop em que o
computador é integrado à tela. ‘Esse modelo de PC pode ser usado como o centro
de entretenimento da casa’, afirmou o executivo.


Muitos pais, além disso, preferem comprar um desktop para deixá-lo em lugar
visível, e poder monitorar como os filhos menores usam o computador. Existem
outros perfis de usuários que também preferem o desktop, como profissionais de
arquitetura e editoração e aficionados por jogos.


 


INTERNET
Sérgio Augusto


Mr. WikiLeaks


As notícias sobre a morte da mídia impressa foram um tanto ou quanto
exageradas. Os abutres já voavam baixo na blogosfera, coveiros e carpideiras se
agitavam ao redor do moribundo, mas a mídia impressa, salva e revigorada pelo
WikiLeaks, deu mostras de que seu fim iminente são fábulas, não favas, contadas.
The New York Times, The Guardian, El País, Le Monde e Der Spiegel, os cinco
grandes veículos escolhidos pelo WikiLeaks para cúmplices e avalistas do
Cablegate, não circulam apenas na internet, ainda saem de uma gráfica, no
formato em que consolidaram sua respeitabilidade.


Para os jornalistas, os historiadores e a opinião pública, o WikiLeaks foi um
maná. Festejemos.


Quanto aos diplomatas, xeretar, segredar, fofocar e mentir são músculos do
ofício, e eles não se saíram de todo mal dos vazamentos; ao contrário,
mostraram-se, no geral, competentes, para orgulho de muitos americanos, que nem
por isso aplacaram sua irracional fúria contra o WikiLeaks e sua exclusiva
preocupação com o futuro da confiabilidade diplomática. Como jornalista e
cidadão, meu maior (mas não exclusivo) compromisso é com a confiabilidade da
imprensa, com o futuro da livre circulação de informações e da transparência e
responsabilidade de governos e entidades públicas e privadas.


Até prova em contrário, é esse o apito que o WikiLeaks toca. É um consolo
saber que a estrutura montada por Julian Assange, fundador e guia espiritual do
WikiLeaks, permite ao site sobreviver sem lideranças, hierarquias e até ao
boicote orquestrado de antigos parceiros como a Amazon, Visa, Mastercard, etc.
Alguém o definiu como ‘um vasto Deep Throat da Era Napster’. Sim, o Napster
deixou de existir, mas sua insurgência afetou para sempre a indústria de discos
e a difusão da música. O WikiLeaks representa um novo tipo de luta, de ativismo
político apartidário. Sua ciberguerrilha já mudou as regras do jogo jornalístico
ao criar o que até recentemente parecia impensável: empresas competidoras
compartilhando os mesmos furos diariamente.


Detido na cadeia de Wandsworth, no sul de Londres – uma das cinco em que
Oscar Wilde, também acusado de ofensas de natureza sexual, viu o sol nascer
quadrado em 1895 –, Assange ficou sem acesso à internet, como se algum crime
online tivesse motivado sua prisão. Houve quem visse nessa proibição mais uma
evidência de que as nebulosas acusações de ‘estupro’ e ‘sexo forçado’ por duas
ex-tietes de Assange fazem parte, mesmo, de um complô para puni-lo por supostos
‘delitos’ cometidos com os préstimos de um modem. Libertado sob fiança no dia
15, somente em 11 de janeiro decidirão seu destino.


O WikiLeaks não divulgou mentiras nem algo sequer remotamente perigoso como
seria, por exemplo, vazar os planos de desembarque das forças aliadas na
Normandia, para citar uma das mais hiperbólicas comparações assacadas contra o
site e sem pudor repetida ad nauseam por políticos conservadores e colunistas de
direita. Ao que se sabe, não há documentos top secret no acervo de 250 mil
documentos sigilosos do WikiLeaks, que, ao contrário do que seus desafetos vivem
a martelar, vem liberando somente uma ínfima parcela dos arquivos, que antes de
chegar às primeiras páginas e à internet passam pelo filtro dos cinco mais
respeitados veículos de informação do Ocidente, aos quais astuciosamente se
associou.


Quando vão prender os editores do Times, do Guardian, do El País, do Le Monde
e da Der Spiegel? E, firmada a jurisprudência, quando vão prender Bob Woodward
pelos vazamentos contidos em seus best-sellers?


Assange se autodefine como ‘jornalista, publisher e inventor’. Acredita ter
inventado um sistema seguro para acabar com a censura à informação e aos
denunciantes de malfeitorias governamentais e corporativas. Herói e mártir, para
uns; vilão e terrorista, para outros, já o insultaram de irresponsável,
paranoico, narcisista, dominador, criminoso: ‘Assange, o Bin Laden da web’. Para
gozar quem o acusa de espionagem, escolheu um parâmetro assaz conveniente, o
agente 007: Assange, ‘o James Bond do jornalismo’. Um articulista da revista The
New Yorker comparou-o a Klaatu, o extraterreno do filme O Dia em que a Terra
Parou, recebido a tiros em Washington por nos ter trazido uma mensagem
inconveniente. Procede.


Tecnicamente, Assange é um traficante internacional de informações que
governos e instituições tentam esconder, não raro por razões escusas. Com a
ajuda de centenas de voluntários, ativistas, nerds, criptógrafos, recolhe
documentos secretos como se fossem donativos e os repassa sem ônus à mídia. O
procedimento é igual ao de um jornal investigativo, ou melhor, ao de uma agência
de notícias investigativa. Se por algum motivo Assange ficar para sempre
impedido de exercer suas funções, o WikiLeaks seguirá em frente, com o mesmo
empenho e na mesma cadência. E se um poder superior conseguir desativar o site,
outros surgirão. É um processo irreversível.


Seu sobrenome é uma corruptela de Ah Sang, imigrante chinês que se
estabeleceu numa ilha da costa australiana, no começo do século 19. Seus
ancestrais maternos foram para a Austrália várias décadas depois, procedentes da
Irlanda e Escócia. Sua tendência à errância, ao nomadismo, talvez seja genética.
Sua mãe, Christine, mal completara 17 anos quando fez uma fogueira de seus
livros, montou numa moto e sumiu no mapa.


Filho de um diretor de teatro itinerante, Julian Paul Assange nasceu no mesmo
dia (3 de julho de 1971) em que Jim Morrison foi encontrado morto numa banheira,
vitimado por uma overdose de heroína. Aos 8 anos conheceu seu único padrasto: um
músico dado a ataques de fúria de quem sua mãe passaria cinco anos fugindo.
Sempre na estrada, teve uma infância de Tom Sawyer e, por força das
circunstâncias e de um arraigado preconceito de Christine contra escolas e
professores, uma educação informal. ‘Não queria que meu filho desenvolvesse um
respeito não saudável pela autoridade e desinteresse pelo ensino’, justificou-se
Christine a um jornalista interessado em descobrir como o filho dela se
transformara num prodígio digital.


Aos 14 anos, Assange já mudara de endereço 37 vezes. Estudando por
correspondência e tomando aulas particulares, superou aos poucos suas
deficiências. Anos depois, estudaria física na Universidade de Melbourne.
Pilotando um Commodore 64 presenteado pela mãe, precisou de alguns meses apenas
para transformar-se, ainda adolescente, num sofisticado programador de
informática. Com o codinome de Mendax (tirado de uma Ode de Horácio),
associou-se a dois hackers, formou o grupo International Subversives e invadiu
uma infinidade de computadores corporativos na Europa e na América, deixando
sempre o mesmo recado: ‘Foi um prazer brincar com seu sistema. Não lhe causamos
dano algum e até o livramos de alguns bugs. Por favor, não nos delate à polícia
federal australiana’.


Apesar das precauções que tomava (seus disquetes eram guardados num apiário),
acabou em cana e correu o risco de pegar 10 anos de cadeia. Inocentado em 6 das
31 ações penais que contra ele moveram, afinal caiu nas mãos de um juiz
camarada, que o indultou do resto por entender que ‘o réu havia apenas
bisbilhotado’, movido por sentimentos altruístas. Àquela altura, Assange já
tinha um filho (Daniel), por cuja custódia lutou tenazmente anos a fio, com a
ajuda de Christine, esta sim, pelo visto, a única mulher confiável de sua vida.
Enquanto aguardava o julgamento, leu três vezes O Primeiro Círculo, de
Soljenitsin, releu Kafka e O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, em cujas
páginas, dizem, encontra-se a chave para entender sua cruzada contra informações
secretas, hierarquias institucionais e sociedades repressoras.


Tão logo ganhou a liberdade, isolou-se numa casa em Melbourne para
aperfeiçoar sua bisbilhotice eletrônica. Através de um site que, por questão de
segurança, hospedara num servidor sueco, inaugurou os serviços do WikiLeaks em
dezembro de 2006, tornando pública uma decisão secreta do xeque Hassan Dahir
Aweys, líder rebelde da Somália, ordenando a execução de autoridades do governo
por um bando de sicários. Nove meses atrás, alugou uma casa em Reykjavik, na
Islândia, onde montou um bunker eletrônico, com meia dúzia de computadores, e
editou aquele vídeo do massacre de 18 pessoas por soldados americanos, no
Iraque, gravado a bordo de um helicóptero Apache em 2007, que seria o cartão de
visitas do WikiLeaks.


O resto da história vocês conhecem. E continuarão acompanhando por muito
tempo.


Sérgio Augusto é colunista do Estado, foi da equipe de O Pasquim e é autor de
As Penas do Ofício (Agir)


 


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