ARRANCA-RABO NO STF

O que a imprensa deve fazer

Por Alberto Dines em 24/04/2012 na edição 691

Bate-boca, arranca-rabo, sururu, entrevero, rolo, xingação, desavença – qualquer que seja o nome que se adote para caracterizar a troca de asperezas entre os ministros Cezar Peluso e Joaquim Barbosa, do Supremo Tribuna Federal (STF), o que importa é o teor do que está vindo à baila e o canal utilizado pelos meritíssimos.

Ex-presidente da suprema corte, o ministro Peluso serviu-se do prestigiado portal Consultor Jurídico, já o atrevido Joaquim Barbosa, que não tem papas na língua, utilizou arma de grosso calibre – entrevista de uma página no jornalão O Globo (20/4).

Aleluia, a imprensa acordou! Parece disposta a reassumir o seu papel de agente do contraditório. Sem jornal não há debate, sem debate não há esclarecimento. A resignação que contamina as instâncias encarregadas de provocar arrufos, excitação e avanços é a grande responsável pela impunidade e a pasmaceira que grassam no país.

Natural que o novo presidente do STF, Carlos Ayres Brito, ministros aposentados e entidades ligadas à magistratura e ao Direito empenhem-se no “deixa disso!” e joguem panos quentes para arrefecer os beligerantes. Faz parte, alguém precisa ficar atento a eventuais excessos.

Joaquim Barbosa, relator do mensalão, precisa ser espicaçado, precisará duelar com muita gente nos próximos meses. Cezar Peluso precisava ouvir o que ouviu do seu par e ler o que leu nos editoriais dos grandes jornais: excedeu-se algumas vezes, sobretudo menosprezou a inteligência do cidadão brasileiro ao tomar atitudes descabidas não apenas no âmbito da corte (quando votou duas vezes para atrasar a aprovação da ficha limpa), mas também quando investiu contra a corregedora do CNJ, Eliana Calmon na sua brava cruzada contra a devassidão togada.

Nos eixos

Um pouco de estresse e algumas cargas de eletricidade sacodem a sociedade. Alguns atentados aos bons modos são preferíveis aos punhos de renda a serviço da impostura. Se em horário nobre assistimos a comerciais, telenovelas, seriados e reality shows com linguagem chula, por que temer que servidores públicos do mais alto escalão e tomados pela fúria sagrada se indignem ante a bandalheiras que ocorrem ao lado?

Se as elites estão perdendo a classe para fingir que pertencem à classe C, por que não aproveitar o intermezzo de avacalhação para iniciar algumas contendas saneadoras? Faxinas exigem casca dura, um pouco de maus bofes. Se o refinamento for autêntico, todos voltam a ser lordes depois de serenados os ânimos.

A mídia acostumou-se às entrevistas por e-mail (na verdade pseudoentrevistas, desligadas da dinâmica dialogal), já não sabe detectar numa determinada resposta o rastilho para a pergunta seguinte, capaz de acionar um incêndio saneador.

A inevitável judicialização do nosso processo político exigirá mais contundência e muito mais bravura do Onze encarregado de colocar o país nos eixos. É a chance de a imprensa deixar de ser descartável.

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 Madalena Andrade
 Enviado em: 24/04/2012 09:28:13
Importante ler.
 Celso Lungaretti
 Enviado em: 24/04/2012 12:26:09
Batendo na tecla do contraditário: mandei e-mails a dezenas de colegas da grande imprensa lembrando que houvera uma manipulação adicional -pior do que aquela denunciada pelo Joaquim Barbosa, do julgamento do ficha suja Jader Barbalho!- cometida pelo mesmo Peluso, o de manter Cesare Battisti sequestrado depois do seu caso já estar decidido, na esperança de induzir o colegiado a uma virada de mesa. Com palavras mais veementes, apenas repeti o que haviam afirmado Dalmo de Abreu Dallari e o ministro Marco Aurélio Mello: a prisão de Battisti deveria ter sido relaxada tão logo o Diário Oficial publicou a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tornando-se, a partir daquele instante, ILEGAL (termo usado por ambos). E a ilegalidade durou mais de cinco meses, ao cabo dos quais o próprio STF reconheceu que nada mais havia a se discutir, só lhe restando cumprir a decisão que delegara a Lula. Ninguém publicou uma linha. E cabia, sim, responsabilizar-se por privação injustificada da liberdade de um cidadão tanto o Peluso (como o presidente do Supremo que descumpriu a decisão do Lula durante as férias forenses) quanto o relator Gilmar Mendes (que, ao reassumir na volta, o manteve preso). Por que a grande imprensa deu tanto destaque a uma acusação difícil de se provar e nenhum a uma INDISCUTÍVEL e IRREFUTÁVEL? Gostaria de saber a opinião do mestre Dine
 Ana Lucia Amaral
 Enviado em: 24/04/2012 12:48:15
Seres humanos, comprtando-se como seres humanos.É bom que as "excelências" se dêem conta disso.
 Teócrito Abritta
 Enviado em: 24/04/2012 17:02:43
Finalmente uma crítica ao Supremo e a “certa” Imprensa que faz coro com os esforços para a blindagem de Dilma, apontando a corrupção apenas nos outros poderes. Comparar Joaquim Barbosa com Peluso é um despropósito, pois o primeiro tem mostrado um comportamento exemplar, talvez por isto sendo perseguido por outros membros desta corte com zombarias e até ameaças de agressão física. O ar “brega” e anedótico do novo presidente desta corte nem um pouco lembra a intenção de fazer Justiça. A sociedade brasileira não pode tolerar estas licenciosidades, devendo exigir, por exemplo, que o ministro Peluso seja investigado pela sua confissão de ter “rasgado” todos os processos prescritos, apagando possíveis pegadas da corrupção e de desídia, a par da destruição de documentos públicos ser um crime contra nossa História. E a entrevista desta figura a um jornalista (Carlos Costa), onde praticamente confessa prevaricação, negociando com acusados de desvios no TJ-SP investigados pela corregedoria deste tribunal?
 Marlos Pessoa
 Enviado em: 29/04/2012 22:20:39
Alberto Desde a semana em que você foi demitido do JC Recife, o jornal vem num pacote junto com a Veja. Aliou-se a essa suposta revista contra os críticos da mídia

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