FACEBOOK

O mundo que o Facebook criou?

Por Renato Janine Ribeiro em 12/02/2013 na edição 733

Reproduzido do suplemento “Eu & Fim de Semana” do Valor Econômico, 8/2/2013; intertítulos do OI

O Mundo que os Escravos Criaram e O Mundo que os Senhores de Escravos Criaram foram dois livros seminais na historiografia dos Estados Unidos; neles me inspiro para este título. O Facebook criou um novo mundo? Comecemos por uma das principais discussões dos últimos cem anos: rupturas tecnológicas causam mudanças sociais? Pensemos na invenção da imprensa, da pólvora, na descoberta das vacinas e da penicilina, na invenção da pílula anticoncepcional, da internet e do Facebook. Em todos os casos houve consequências sociais relevantes. Imprensa e internet mudaram o tamanho das relações humanas. A pólvora revolucionou a guerra. A vacina e a penicilina salvaram numerosas vidas. A pílula ajudou a libertação sexual. Mas essas invenções causaram as mudanças, ou “apenas” amplificaram seu impacto? Uma invenção basta para mudar o mundo, ou só emplaca quando a sociedade está pronta? Há exemplos para o sim e para o não.

Não: a pólvora. Os chineses a usaram por milhares de anos, mas em fogos de artifício – para beleza e diversão, não para a morte e a guerra. Somente se torna arma na Europa quase moderna. Sim: vários progressos da medicina, como a penicilina. E uma posição intermediária, sim, mas não sozinha: a saúde pública. A queda fantástica da mortalidade infantil no século 20 e a forte redução na letalidade das doenças devem muito ao saneamento básico, que por sua vez foi mais determinado por movimentos sociais e pela ascensão das classes pobres, do que por invenções de laboratório. Aparentemente, não há uma resposta única para a pergunta. Mas há uma tendência do pensamento conservador a depreciar as causas sociais e a enfatizar as invenções técnicas. Estou convicto de que é preciso analisar caso a caso, o que leva a uma resposta matizada, mas com maior acento nos determinantes sociais. Estes não são “causas”, mas oportunidades e caixas de ressonância.

Invenção técnica ou demanda social?

Como fica o Facebook nesse quadro? O mundo das redes sociais é muito diferente de tudo o que houve antes. Realiza os 15 minutos de fama que Andy Warhol predizia para todos nós. Pessoalmente, desde que eclodiu a internet, sonhei que ela criasse uma nova ágora, a maior da história. A ágora era a praça em que se juntavam os cidadãos, na Atenas antiga, para decidir sobre assuntos públicos. Sir Moses Finley diz que essa assembleia de todos se reunia 40 vezes por ano, o que deve ser um recorde inigualado de interesse popular pelos assuntos políticos. Mas há algo parecido no Facebook? Em dois anos de frequentação constante, só notei a degradação do debate. Li há poucas semanas que o FB teria aperfeiçoado (sic) o algoritmo que escolhe o que você vê no seu “feed de notícias”: a rede destacaria, na sua página, posts de quem tem gostos ou valores parecidos. Deve ser por isso que nunca vejo posts de homófobos ou de fascistas; mas, pela mesma razão, recebo poucos posts de quem discorda de mim na política ou na sociedade. Isso é lamentável: o contato com a diferença se reduz a pouco.

Pode ser então que a tecnologia até refreie o debate. Ela abriu um grande espaço de discussão com o Facebook, mas o fechou ao só juntar os parecidos. Mas isso resulta de uma invenção técnica, ou de uma demanda social? Porque nosso tempo é marcado por um forte narcisismo (“Faces, estou na praia!”), a vontade de encontrar almas gêmeas ou mesmo clones, em suma, a indisposição à diferença, ao diálogo, ao debate. Em particular no Brasil, onde a convicção democrática do respeito a quem pensa diferente de nós quase não existe.

Deficiência democrática

Porque, e este é o segundo ponto, mesmo ali onde a tecnologia não bloqueia o diálogo, este não acontece. Parte significativa dos comentários que leio são redundantes em relação ao que está dito no post. O pensamento complexo encontra tão pouco espaço no FB quanto em qualquer outro lugar – e menos que na imprensa, que no Brasil já não é exemplar pela disposição a mostrar o outro lado, a promover o diálogo. No caso dos jornais, não falo do “outro lado” no sentido banal, como telefonar a alguém para saber sua versão de um fato. Penso, sim, na possibilidade de introduzir, dentro do próprio pensamento, o seu contrário. O que temos no Brasil é, na imprensa, um discurso dominante de oposição ao governo e à esquerda, e nos blogs de esquerda o contrário exato disso. Há um enfrentamento externo de opiniões, mas não a compreensão de que o pensamento deve ser, em seu próprio interior, marcado pela dúvida e o autoquestionamento. Este é um traço da cultura política brasileira, ou da ausência de tal cultura; nosso déficit democrático, para o qual não vejo chance de mudança a curto prazo.

O virtual será então uma lupa sobre o real, uma ampliação do que acontece na realidade, no mundo da presença? Não é só isso; ele retira gente da solidão; para os perseguidos ou os isolados, é um bálsamo, porque multiplica seus amigos e associados. Mas ele evidencia também nossa deficiência democrática, que é difícil de sanar, justamente porque a solução não depende da tecnologia, mas da sociedade.

Leia também

Até quando vamos curtir? – João Luiz Rosa, Guilherme Bryan e Wendel Martins

***

[Renato Janine Ribeiro é colunista do Valor e professor de Filosofia na Universidade de São Paulo (USP)]

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 Marcos Lima ARATU
 Enviado em: 12/02/2013 12:25:26
Texto muito lúcido. Tenho dificuldade de encontrar espaços de debate, principalmente entre os educandos. Vejo um medo ao contrário. Discutimos ideias e não pessoas.
 Vinícius de Menezes Moraes
 Enviado em: 13/02/2013 20:25:04
O Facebook e a internet se tornaram um novo mundo por vezes idêntico ao real onde podemos observar a segregação e a alienação.
 Ibsen Marques
 Enviado em: 13/02/2013 21:18:23
O Facebook é uma versão mais atualizada e moderna do Orkut. O acesso às redes sociais provavelmente não funcione apenas como uma lupa do real, ele aprofunda a aversão às diferenças. Lembro-me dos simpósios filosóficos que participei durante o período acadêmico e, mesmo entre alguns de nossos famosos filósofos, a diferença de ideias não era muito tolerada. Alguns mal conseguiam esconder o desconforto ao serem questionados, gostavam mesmo é de ser enaltecidos,isso só para dar um exemplo de como a cultura brasileira realmente abdica do debate e cultua a bipolarização das ideias. Não há diálogo transformador. Um fala e o outro já se arma em oposição às suas ideias. Não há abertura, dúvida, questionamento. Mas será que isso só ocorre no Brasil ou tem sido parte da cultura ocidental pós-moderna. Esse narcisismo não se fundaria na prioridade absoluta do indivíduo sobre a coletividade?
 Claudio Cardoso de Paiva
 Enviado em: 15/02/2013 20:26:57
Poxa , eu deveria ter lido este paper do mestre Renato antes de escrever sobre a "dialógica" do narcisismo no Facebook; mas , em tempo, compartilho o paper apresentado no congresso Intercom 2012 O Espírito de Narciso nas Águas do Facebook. As Redes Sociais como Extensões do Ego e da Sociabilidade Contemporânea http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2012/resumos/R7-0953-1.pdf
 Ramsés Albertoni
 Enviado em: 17/02/2013 09:10:29
Caramba, nem acredito no que estou lendo! Há algum tempo já venho formulando algumas hipóteses a respeito das tecnologias e o social, sem me esquecer que Marx já assinalava que as mudanças sociais são mais complexas e mais difíceis de ocorrerem do que as mudanças tecnológicas. A qualidade do artigo do Renato Janine Ribeiro é conseguir colocar lenha numa discussão meio-morna em torno das “redes sociais”, pois me incomoda muito certa atitude de deslumbramento, por parte de alguns “críticos”. Considero também pertinente o comentário do Ibsen Marques quando diz que “o acesso às redes sociais provavelmente não funcione apenas como uma lupa do real, ele aprofunda a aversão às diferenças”. Abaixo publico, em razão do pouco espaço, um outro comentário já feito neste Observatório da Sociedade, com o intuito de incendiarmos a discussão, ao contrário do que ocorre no fez-o-bookstore.
 Ramsés Albertoni
 Enviado em: 17/02/2013 09:11:59
Gostaria de fazer, neste espaço de discussão, uma reflexão muito pessoal a respeito da "construção da informação". Ao longo de alguns anos orientei vários alunos com os seus TCCs, e a minha preocupação, e maior dificuldade, foi fazê-los entender como se dá a construção do saber. Costumava brincar que ao pesquisar, por exemplo, sobre "anemia falciforme", começava a pesquisa pelo verbete "borboleta". É claro que isto é um "artifício de representação" usado para exemplificar o que chamo de "pesquisa em diagonal", ou seja, um corte no pensamento linear e causativo, próximo do "fato social total" de Mauss. O que percebia, nestes alunos, era uma dificuldade em entender uma dada situação como múltipla, contraditória e repleta de entropias. Mais recentemente, comecei a interpretar as "redes sociais", como por exemplo, o "facebook", e as redes de comunicação social, não como um entrelaçado de fios, de espessura e materiais diversos, mas como um grupo de emissões que transmitem, no todo ou em parte, a mesma programação e as mesmas notícias e interpretações em formato de cadeia. O que percebo é, não o formato de rede, mas de listras separadas entre si, cujos conhecimentos não se cruzam e não se problematizam, por isso, a definição de "listras sociais" cujas informações e saberes se esgarçam continuamente, sem constituírem um "tecido social".
 Ibsen Marques
 Enviado em: 18/02/2013 22:42:23
aro Ramsés, essa sua proposição de substituição do desenho em rede pelas listras dá a clara visão de como também percebo as "listras sociais". Os caminhos são mesmo paralelos; pouquíssimos os casos em que encontramos qualquer tipo de entrelaçamento.

Renato Janine Ribeiro

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