COPA E OLIMPÍADAS

Imagem do Brasil é ‘piada’ no exterior

Por Antonio Brasil em 16/07/2013 na edição 755

Em meio à crise política e protestos de ruas persistentes, milhões continuam sendo gastos na construção de grandes estádios em nosso país. O principal objetivo desse investimento é garantir a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos para o Brasil. Mas um efeito colateral igualmente importante e desejável é melhorar a nossa imagem no exterior.

Quando esses megaeventos foram anunciados pelo governo brasileiro, a ideia parecia muito boa, lucrativa e popular. Na História, outros governos – como a Alemanha nazista – também apostaram muito na paixão do povo pelos esportes e na possível mudança da imagem internacional.

Depois de derrota humilhante em uma guerra mundial e em crise econômica profunda, o então novo governo alemão tentou convencer o mundo de que o país tinha mudado. Foram investidos milhões na promoção de uma grande celebração internacional, os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim.

O tiro saiu pela culatra.

A Alemanha teve que amargar a humilhação de grandes derrotas e o herói da competição foi o atleta negro norte-americano Jesse Owens. Ele contradisse todas as teorias políticas e raciais da Alemanha de Hitler. O grande investimento alemão não rendeu os lucros políticos desejados. Hitler e sua Olimpíada tornaram-se motivo de piada internacional. Dentre muitas, a melhor deve ser esta e creio que dispensa tradução:

­– What was Hitler’s reaction when Jesse Owens won 4 gold medals?

– He was fuhrer-ious! [Ver aqui]

Preconceitos

Hoje, o Brasil também investe milhões em uma Olimpíada e na mudança de sua imagem no exterior. Estamos diante de um novo projeto político, social e econômico do governo brasileiro. Mas pensamos sempre grande e ainda maior do que outros tempos e países. Ao invés de se limitar a realizar jogos olímpicos, o Brasil decidiu sediar a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas.

Poucas vezes na História um país sequer imaginou ou tentou realizar esses dois megaeventos internacionais quase ao mesmo tempo. O risco do fracasso é enorme. E a possibilidade do Brasil se tornar motivo de piada, como no caso da Alemanha de Hitler em 1936, também é considerável.

E talvez essa ameaça já esteja se concretizando na mídia internacional.

Nos últimos dias, em meio a notícias de ainda mais violentos protestos de rua, duas matérias sobre o Brasil parecem confirmar as piores previsões sobre a nossa imagem no exterior.

A primeira foi a reportagem produzida pelo Colbert Report, um programa de sátiras muito popular da emissora de TV norte-americana Comedy Central, sobre as manifestações no Brasil [ver aqui]. De forma debochada, tendenciosa e humilhante, o apresentador do telejornal cômico, Stephen Colbert, ridiculariza os nossos megainvestimentos em estádios de futebol. Mas temos que reconhecer que a matéria é hilária e talvez até pertinente.

A imagem do Brasil no exterior, aquela coisa não muito clara, definível ou identificável que governos gastam milhões para manipular ou pelo menos influenciar, continua confirmando os piores estereótipos. Talvez seja inevitável ou talvez nós brasileiros façamos o possível e o impossível para confirmar essas imagens preconceituosas.

Expulsar correspondente

A segunda piada foi publicada no prestigioso The New York Times. O autor é o jornalista Larry Rohter. Lembram? Larry Rohter foi o correspondente estrangeiro que o governo do presidente Lula tentou expulsar do Brasil por uma matéria publicada no NYT, em 2009. Na época, ele foi oficialmente acusado de “denegrir a imagem do Brasil no exterior” nos termos do artigo 26 da Lei nº 6.815, de 18 de agosto de 1980. Esta lei que trata das condições para entrada e permanência de estrangeiros no Brasil, e que foi citada pelo governo Lula para justificar a expulsão do então correspondente, por mais incrível que pareça é da época da ditadura. No mínimo, irônico. [Ver aqui relato de pesquisa]

Naquela época, eu residia no exterior e pude testemunhar muitas críticas contundentes ao Brasil na imprensa internacional e o surgimento de inúmeras piadas igualmente debochadas e humilhantes sobre os hábitos etílicos do então presidente Lula.

Para a mídia internacional, não “pega bem” expulsar correspondentes que falam mal de governos e, ainda mais, correspondentes que se limitam a transcrever o noticiário nacional sobre a vida pessoal de presidentes. Isso é pedir para ser ridicularizado, debochado e virar piada internacional.

Pensamento-imagem

No último fim de semana, Larry Rohter retornou ao noticiário com um artigo sobre o governo brasileiro para o NYT. Ele destrincha as últimas iniciativas da presidente Dilma Rousseff para diminuir ou diluir os protestos de ruas no Brasil [ver aqui].

O jornalista americano cita a fracassada tentativa de convencer o Congresso brasileiro a apoiar um plebiscito popular, a reunião com milhares de prefeitos em Brasília que rendeu vaias humilhantes e a recente viagem de Dilma a São Paulo para consultar o ex-presidente Lula sobre os protestos.

Para um ex-correspondente estrangeiro no Brasil, a matéria é boa. Mas, para bom entendedor, a piada é ainda melhor. Tem sabor de ironia e vingança.

No artigo para o NYT, Larry Rohter não perde a oportunidade de selecionar algumas situações políticas recentes e embaraçosas que confirmam tudo aquilo que o estrangeiro espera do Brasil. Ele faz questão de mostrar que, apesar de longe, não esqueceu as nossas mazelas políticas, o lado engraçado de governar o Brasil.

Nos dois casos, tanto na reportagem cômica da TV norte-americana quanto no artigo “sério” do NYT, fica evidente de que, apesar de gastar milhões, o governo brasileiro ainda não conseguiu reverter as expectativas da cobertura internacional sobre o nosso país. Muito pelo contrário.

A imprensa internacional continua reafirmando os piores estereótipos brasileiros. Assim como estamos ansiosos para mudar o país, talvez esta seja a hora de parar de se importar tanto com a nossa imagem. Ela não é tão importante. Não passa de um pensamento-imagem. Assim como uma piada, ela pode ser boa ou ruim. Tanto faz.

O que realmente importa é o que acreditamos sobre nós mesmos.

***

Antonio Brasil é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisador do Grupo Interinstitucional de Pesquisas em Telejornalismo (GIPTELE) e autor do livro Telejornalismo Imaginário (Editora Insular).

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 Dante Caleffi
 Enviado em: 16/07/2013 11:26:43
Titulo e teor da matéria ,fazem justiça o sobrenome do autor.
 Frederico Peter Strube
 Enviado em: 16/07/2013 12:14:15
E tome-te complexo. De viralata, claro.
 Mauro Vilela
 Enviado em: 17/07/2013 10:21:55
A comparação do Brasil com a Alemanha nazista é ridícula por si só. Já transpira o viés raivoso. Sem comentários. Quanto a "pegar mal" responsabilizar correspondentes internacionais, acho irônico isso. Tente ridicularizar os EUA ou falar mal, o Assange e o Snowden são símbolos dessa falsa liberdade de expressão do primeiro mundo. Amigo, os ricos falidos do norte nunca vão perdoar o Brasil (subnutrido) pela petulância de fazer o que eles não conseguem. E os ricos do mundo não estão nem aí para nossa mobilidade urbana, só querem nos ver em "nosso lugar". Fato.
 Sérgio Kempers
 Enviado em: 17/07/2013 12:38:29
Piada por piada a melhor é esta: há alguns anos fui tirar visto para viagem turística aos EUA. Tive que preencher extenso formulário sobre minhas pretensões. Duas perguntas me intrigaram. Uma indagava se eu era membro de alguma organização terrorista. A outra, se eu planejava levar alguma bomba para o território americano...
 Alexandre Aguiar
 Enviado em: 17/07/2013 13:47:55
Olhando de forma bem abrangente, "se importar" com o que dizem a nosso respeito é complexo de inferioridade, que Nelson Rodrigues carimbou como de vira-latas. Seja importância pessoal ou instituicional. Cheira a insegurança. Por outro lado, grande corporações fazem pesquisas de satisfação para saber se serviços variados estão a contento, o que pode ser uma amenizada da inferioridade. Agora, de uma coisa tenho certeza: só nos importamos com alguma coisa quando ela está em evidência. Se o Brasil causa esta comoção estabanada dos articulistas e comentaristas diversos, com piadas ou até com preconceitos, é porque estamos aparecendo, incomodamos a alguém, temos a nossa grandeza. Ninguém faria piadas com Burkina Faso e nem com o Nepal.
 alice franca leite
 Enviado em: 17/07/2013 15:57:35
Gostei de seu comentário mas recomendo o do Prof.Mauro Santayana no wwwcartamaior.com.br "Punição para a Hitlerlândia",bem como o do jurista Luiz Flávio Tozzi "EUA invadem a privacidade do mundo inteiro! são excelentes textos para esta ocasião,de 'espiões" e "ex-agentes" do Império. São pontos de vista que também vale a pena ler...
 Tiago Am
 Enviado em: 18/07/2013 20:31:59
O articulista não entendeu o video do Colbert Show. Sinopse: Colbert é uma sátira aos talk-shows de rádio e TV de extrema direita dos EUA. O personagem é constantemente colocado em situações em que se mostra preconceituoso ou ignorante. Sinopse do video: - Colbert pergunta, "o que acontece no Brasil? Por que as pessoas não estão transando felizes e andando sem roupa?" - O comentarista latino dançando salsa, "colberto" diz não conseguir dar uma explicação porque é mexicano, e fala espanhol, e não português. - Colbert convida Larry Rother ao palco. Rother diz que os manifestantes protestam contra corrupção e por melhores serviços do governo, de saúde e educação. - Mais governo? Colbert diz que isso é "Obama versão América Latina". - Rother e Colbert falam da origem dos protestos, os R$0,20 e fazem piada com a reação dos governos de reverter os aumentos. - Rother diz que a diferença entre estes protestos e os da Turquia e Oriente Médio é que eles ocorrem em um regime democrático, e que o governo disse querer dialogar e entender os protestos. - Fim da entrevista.
 Zé da Silva
 Enviado em: 19/07/2013 11:37:08
O eminente jornalista, professor e pesquisador comete um equívoco de informação. Na verdade a Alemanha foi a vencedora das Olímpiadas de 1936. Esse fato em nada obscurece o papel do negro norte-americano Jesse Owens que, diga-se de passagem, não precisou viajar para a Alemanha para conhecer o racismo. Os Estados Unidos à época não ficavam devendo muito à Alemanha em termos de racismo. O próprio Brasil também não teria uma boa figuração nesse item, embora o racismo aqui desde aquela época tenha se revestido de uma certa "cordialidade". Se o eminente Antonio Brasil fosse apenas um jornalista eu não faria esse reparo, visto que os jornalistas brasileiros não são conhecidos pelo cuidado com as informações que divulgam, entretanto sendo ele também um professor e pesquisador conceituado, entendo que ele ficou devendo essa informação ao público.

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