RIO+20 & COMISSÃO DA VERDADE

Espetáculo e segredo, badalação e sigilo

Por Alberto Dines em 13/06/2012 na edição 698

 

O pêndulo brasileiro produz estranhos movimentos e incríveis surpresas. A humanidade corre velozmente em direção do abismo climático e, não obstante, preferimos enfrentar a legião de fantasmas com a nossa infinita capacidade festeira.

As preliminares do Rio+20 não parecem uma reunião de emergência para soar os alarmes e emitir um portentoso SOS global. Mais se assemelha a um convescote mundial para celebrar a celebração.

A Comissão da Verdade segue um caminho paralelo, porém em direção contrária: deveria acender as luzes e soltar as palavras, prefere a surdina, a meia-voz e a meia-luz. Uma sociedade motiva-se para buscar a verdade quando lhe mostram os benefícios das penosas investigações. Esperar dois anos para então produzir um relatório gigantesco, provavelmente maçante e ilegível, não é a melhor maneira para mobilizar uma sociedade que afinal despertou da sonolência enganosa.

As reticências

O matador Cláudio Guerra, ex-delegado do DOPS capixaba e agora pastor protestante, recebeu instruções taxativas para não dar outras entrevistas à imprensa enquanto não fossem concluídas as investigações da Comissão da Verdade. Não é o mais recomendável depois de quase duas décadas de entranhado silêncio.

O país precisa viver a verdade, conviver com ela, acompanhar o seu parto. É mais educativo, cívico, eficaz.

Com os crimes acontecidos há tantos anos não se compreende a pressão pelo sigilo. As revelações desse agente da linha dura serão melhor absorvidas, entendidas e talvez menos traumatizantes se oferecidas gradualmente, seguindo o método heurístico e a ideia maiêutica preconizada por Sócrates – devagar, por partes, progressivamente, para sempre.

É evidente que certos depoentes precisarão da proteção do anonimato, caso contrário poderão sofrer represálias. Algumas investigações não podem prescindir do imperioso sigilo. Mas o governo dispõe de centenas de funcionários treinados para emitir comunicados parciais sem comprometer dados essenciais. As reticências agora são desmotivadoras, anticlímax.

Fora de prumo

Tal como o Tribunal de Nuremberg, a Comissão da Verdade tem um caráter didático que não pode ser negligenciado, ainda que não seja um órgão judicial como aquele que os vencedores montaram para julgar os vencidos no fim da Segunda Guerra Mundial. Aqui não há vencidos nem vencedores, há apenas o compromisso histórico de buscar os fatos acontecidos.

Já a grande festa ecológica com a qual se pretende conscientizar a cidadania e suas lideranças em todo o mundo, esta pode funcionar ao revés e desativar a gravidade da situação ambiental.

A roupa branca, os abraços de “paz e amor” e os sanduíches orgânicos de 1992 não funcionaram. A Rio+20 não pode parecer uma Copa do Mundo onde se escolhe o campeão, nem uma Olimpíada para distribuir medalhas. É uma cerimônia solene, prova de maturidade, todos devem perder algo. Não é o caso de enlutar-se. Ainda.

Nosso pêndulo precisa ser urgentemente reajustado; os sinais estão trocados.

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 Wank Carmo
 Enviado em: 13/06/2012 14:47:37
Este país é formado por covardes que matam o próximo ou uma Castanheira como se mata uma mosca, porém, não tem coragem de se voltar contra um poder público e privado, corrupto e desrespeitador dos direitos globais. Basta ver a falta de interesse dos governos em criar ciclovias, porque esses mesmos governos tem suas campanhas financiadas pela industria automobilistica e petrolífera. O Brasil irá de mal a pior, não tem cura, e continuará preocupado exclusivamente com o próprio umbigo. Sobre a Comissão da Verdade, indago, por que nesta comissão, não tem um índio Waimiri Atroari, que represente dois mil índios assassinados na abertura da BR174/AM/RR, e que favoreceu uma empresa mineradora paulista, com o aval assassino da ditadura militar? Só tem brancos e gente do eixo Rio/São Paulo, quando negros são maioria neste país. Isto é um apartheid tupiniquim? Terá que ser resolvido com uma outra contra revolução? Fica aqui o alerta...
 Ibsen Marques
 Enviado em: 13/06/2012 15:43:20
Faz um tempão que não assino embaixo de um artigo do Dines, creio que chegou a hora. Esse artigo levanta alguns problemas essenciais. Sobre a Rio +20 essa mesma festança agora promovida pela imprensa já vem acontecendo nas divulgações da indústria. Pregam um equilíbrio entre produção e consumo, como se isso fosse ocasionar a necessária desaceleração da produção fútil e consumista, O que se precisa é pensar sobre um meio de inibir o consumismo desenfreado e sem sentido sem que se provoque a quebradeira das indústrias e o consequente desemprego. A mim parece uma tarefa impossível sob o modelo capitalista. Há quem defenda que não há aquecimento global provocado pelo desvario humano, mas na verdade, isso pouco importa; o que realmente interessa é que estamos acabando e ou destruindo os recursos naturais (poucos destroem e muitos são penalizados) sob o argumento da sobrevivência e é isso que precisa acabar. Com disse o comentarista Wank, a comissão é uma comissão da verdade branca e uma comissão branca da verdade. O massacre a negros e índios fica escondida sob o manto do país colorido e sem preconceitos em que uma Constituição branca garante "igualdade" a todos, mas ela é como a lei onde uns são mais iguais que outros.
 Dirceu Martins Pio
 Enviado em: 13/06/2012 17:02:21
Numa palestra, o jornalista Dirceu Brizola contou a seguinte história: "Certa vez, alguém disse a um chinês: - a China é um país atrasado !Como a China é um país atrasado. O chinês então replicou: a China não é um país atrasado, a China se atrasou nos últimos 250 anos". Registro essa história para lembrarmos o quanto é equilibrado e translúcido o pensamento das pessoas dessas culturas milenares ao olhar para o futuro. Elas têm sabedoria para imaginar que o desenvolvimento dos povos é lento, feito à base de movimentos que vão e voltam, de avanços e retrocessos. Nós, de paises novos, de culturas ainda florescentes, olhamos para o futuro com excesso de ansiedade. Queremos que as coisas aconteçam já ! Ninguém repara, por exemplo, na grande evolução do Brasil em meio-ambiente. Há menos de 30 anos, os militares definiam que a "pior poluição é a miséria". Não combateram a miséria e não fizeram nada pela preservação ambiental, muito ao contrário. E hoje acabamos de abolir as sacolas plásticas dos supermercados. Em direitos humanos, ainda não erradicamos a miséria e convivemos com estatísticas terríveis na violência contra mulheres, crianças e jovens. DEmoramos 30 anos para começar a arranhar a verdade da repressão do regime militar. Chegaremos lá ? O chinês diria que sim, mas recomendaria muita paciência.
 Bruno Marchetto
 Enviado em: 14/06/2012 09:33:03
Perfeito. É sempre um prazer ler os artigos de A. Dines: direto ao ponto, sintéticos, mas sem recair em superficialidades... Obrigado.
 PAULO NASCIMENTO
 Enviado em: 14/06/2012 09:45:14
Catarse absoluta é o que nos proporciona o mestre Dines, de tantas e memoráveis análises em situações em que a técnica jornalística embasada em sua poderosa máquina analítica tornam nossa visão mais clara.
 Ney José Pereira
 Enviado em: 15/06/2012 17:15:34
Em 2032 haverá a Rio+40 e será presidida pel tal Sarney!. O Sarney é a prova da sustentabilidade brasileira. É a prova que o Brasil preserva os seus dinossauros políticos!. PS. A Comissão da Verdade cassará o mandato do lider civil da ditadura civil-militar (1964-1985) José Sarney?.

Alberto Dines

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