CASO NEWS OF THE WORLD

Fazer jornais, e não baldes de plástico

Por Eric Pfanner em 01/08/2011 na edição 653

Reproduzido do International Herald Tribune, 25/7/2011; intertítulos do OI; tradução de Jô Amado

O autor da carta começa manifestando “um profundo sentimento de angústia em relação aos acontecimentos desagradáveis na empresa que, nós e gerações que nos antecederam, desenvolvemos com muito zelo e dedicação”. “É chocante que alguns dos membros da diretoria quisessem administrar uma instituição jornalística como uma companhia que produz baldes de plástico, com motivos comerciais e práticas aéticas se sobrepondo aos interesses e valores editoriais e, assim, prejudicando a credibilidade do jornal”, prossegue a carta. Essas condições, declara o autor, “tornaram minha permanência como editor insustentável.”

Seria uma nova demissão da News Corp., após as revelações de escutas clandestinas por um dos jornais do grupo?

Não. A carta foi escrita na primavera passada por N. Ravi, ex-editor do jornal indiano The Hindu, para anunciar sua demissão. Com o desdobramento do escândalo da News Corp., seu texto grandiloquente vem circulando na internet, na medida em que suas preocupações parecem amplamente relevantes para uma indústria jornalística, mesmo se a causa imediata – um feudo da diretoria – seja diferente. As práticas aéticas no jornal News of the World, da News Corp., são um exemplo extremo do que pode acontecer quando fazer jornais se assemelha à produção de baldes de plástico.

Tablóides lucrativos

Glenn Mulcaire, o detetive particular que interceptou mensagens telefônicas para o News of the World, disse que estava sob “pressão implacável” do jornal para entregar informações que valessem manchete. Há também cada vez mais suposições – embora ainda não existam provas – de que o News of the World não era o único jornal britânico a contratar piratas telefônicos como Mulcaire.

A concorrência entre jornais é quase sempre boa. Mas na Inglaterra talvez os jornais estejam sofrendo de uma coisa boa demais. Poucos jornais de Londres são lucrativos e os tempos estão particularmente difíceis no que se refere à boa qualidade dos impressos no mercado. O Times, que também pertence à News Corp., perde milhões de libras por ano; o Guardian, que liderou o trabalho investigativo que revelou as escutas clandestinas [phone-hacking scandal], divulgou um déficit operacional de 33 milhões de libras (cerca de R$ 86 milhões) para seu balanço financeiro anual mais recente. O Guardian sobrevive porque pertence a uma fundação de caridade forte. O Times, em grande parte sobrevive porque Rupert Murdoch, principal executivo da News Corp., adora jornais.

Numa empresa de capital aberto, como a News Corp., essas perdas têm que ser compensados com lucros obtidos em outras operações. Por isso, esperava-se que o News of the World arrecadasse lucros significativos – o que ele fazia. The Sun, outro tabloide da News Corp., também é altamente lucrativo. Com o súbito vazio provocado pelo desaparecimento de mais de 2,6 milhões de exemplares – a circulação do News of the World – do mercado britânico, nada tem de surpreendente o fato de que ninguém está falando em preencher essa lacuna com jornais standard não lucrativos.

Por enquanto, são convenientes

Ao invés disso, as expectativas são de que, quando a poeira baixar, a News Corp. passe a publicar The Sun diariamente. O grupo Associated Newspapers, que produz o Daily Mail e The Mail aos domingos – tabloides para classe média sem fotos de garotas exuberantes na página 3, mas com uma porção de matérias assustadoras sobre imigrantes –, poderá criar um tabloide mais popularesco para tentar atrair leitores com as sobras do News of the World.

No curto prazo, o maior beneficiário com o escândalo foi o Sunday Mirror, outro tabloide, que teria aumentado em 700 mil exemplares sua venda no primeiro domingo sem o News of the World. O desaparecimento do News of the World também deu uma carona ao The Mail, aos domingos, assim como a dois outros jornais cuja contribuição para o jornalismo é particularmente insignificante: o Sunday Express e o Daily Star Sunday. Em outras palavras, se alguém esperava que o desaparecimento do News of the World resultasse num novo compromisso de qualidade editorial acima de interesses comerciais, pode esquecê-lo.

Num prazo mais longo, se os tabloides britânicos tiverem que abandonar escutas clandestinas e outras práticas desagradáveis para conseguir furos, os tabloides poderão deixar de agradar. Por enquanto, os baldes de plástico poderão ser convenientes.

***

[Eric Pfanner é jornalista do International Herald Tribune]

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 Roberto Ribeiro
 Enviado em: 04/08/2011 16:12:25
Essa ideia que as escolas de administração divulgam de que tudo é igual, que se pode administrar uma escola como se fosse uma fábrica ou um hospital como se fosse uma banca de vender bananas, só pode dar em desastres colossais. Assim como jornais não são fábricas de baldes, escolas não são bem administradas por pessoas que visam o lucro, ou hospitais administrados para a maior eficiência financeira. Escolas e hospitais têm de dar prejuízo, jornais têm de se pagar na lâmina do equilíbrio financeiro. Jornal, escola ou hospital que deem lucro são desastres.

Eric Pfanner

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