LÍNGUA & LINGUAGEM
Livro não incentiva o erro de português
Por Lídia Maria de Melo em 30/05/2011 na edição 644
O livro Por Uma Vida Melhor, de Heloísa Ramos, foi distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) em escolas públicas, após seleção efetuada por uma equipe da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Não conheço o livro entregue a 484.195 estudantes, mas, pelo trecho que vi reproduzido em jornais, não me surpreendo com o que a autora escreveu. Ela não incentiva o erro de português. Mostra as variações dos falares brasileiros e explica as regras que são exigidas pela norma culta ou linguagem formal. O “nóis vai” interiorano equivale ao “tu vai” do santista e do gaúcho. O emprego dessas formas coloquiais na presença de pessoas íntimas não é atestado de incapacidade verbal.
Certamente, quem domina a norma culta fará a concordância correta quando estiver em uma situação formal (falando ou escrevendo). Quem ainda não domina, precisará aprender, para poder usar o idioma como as regras gramaticais vigentes estabelecem. Do contrário, não saberá se colocar nos meios em que o padrão culto for dominante e correrá o risco de ser discriminado.
Esse livro não é o primeiro a enfocar o assunto. Na verdade, a maioria das publicações de língua portuguesa que conheço e utilizo apresenta as variantes dos falares brasileiros. Nem por isso deixo, ou deixei, de exigir de meus alunos ou de meus repórteres o emprego das regras gramaticais que regem o português culto. No entanto, quando estou diante de uma pessoa que não teve acesso à educação sistemática e que comete erros de concordância ou de pronúncia, não a discrimino, nem espero que ela tenha o mesmo domínio do idioma que eu esperaria de uma pessoa com escolaridade completa. Também não a considero menos capaz intelectualmente.
Imprensa precisa ler mais
O assunto merece um debate mais responsável do que o que vem sendo realizado pela imprensa. Do contrário, vai se repetir o festival de bobagens veiculado em 1990 (e nos anos imediatamente seguintes) depois que o então ministro Antônio Rogério Magri disse que o Plano Collor era “imexível”. Para que a polêmica arrefecesse, foi preciso que linguistas viessem a público em defesa da palavra inventada pelo então titular do Ministério do Trabalho. Na ocasião, até que gostei dos absurdos publicados sobre a criação daquela palavra. Foram úteis para mim. Pude enriquecer minha dissertação de mestrado, “Neologismos em Pauta - Os Jornais como Disseminadores e Criadores de Novas Palavras”, defendida em 2001 na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).
A imprensa precisaria abordar questões linguísticas com mais conhecimento de causa. Minha sugestão é que leiam os livros: Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno, publicado pelas Edições Loyola, e Preconceito e Intolerância na Linguagem, de Marli Quadros Leite, pela Editora Contexto. Vejam também a nota divulgada pela Associação Brasileira de Linguística(Abralin).
Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.
ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.
| Luciano Prado |
| Enviado em: 03/06/2011 17:00:18 |
| O que agrava ainda mais a falta de letramento dos jornalistas da velha e carcomida imprensa brasileira é que eles não entregam os pontos. Ou seja, apesar dos esclarecimentos e ensinamentos dos lingüistas, professores, educadores, mestres etc. sobre o livro de Heloísa Ramos, os soldadinhos da velha imprensa insistem na falta de letramento. Ainda hoje escutei na CBN o Merval Pereira – aquele que conseguiu se eleger para ABL e só Deus sabe como – vomitar uma porção de bobagens sobre o livro e o ensino da língua portuguesa. Quer dizer, a velha imprensa e seus soldadinhos querem alterar o rumo das coisas pelo cansaço, pelo repetição da versão. Afinal, essa gente quer editar novos conceitos sobre lingüística? Até onde estão dispostos a ir? |
| Teócrito Abritta |
| Enviado em: 05/06/2011 09:05:44 |
| No fundo ainda tentam justificar as inconpetências do "protegido" ministro da Educação. Não conseguem nen editar um livro de Matemática nem o ENEM. Este é o resultado do loteamento político de ministérios. |
| Joanne Mota |
| Enviado em: 05/06/2011 18:56:23 |
| Lídia Maria, Parabéns pelo texto objetivo e esclarecedor. Mas, no fundo sabemos o motivo de tanto tumulto nesta questão. O jogo de interesses perpassa o loteamento e a preocupação com a Educação. Gostaria de ver uma movimentação como esta sobre a privatização da Educação nos últimos anos, ou quem sabe sobre a indústria dos cursos preparatórios para o vestibular. Talvez estes SIM fossem pontos interessantes para levantar questionamentos ao atual ministro da Educação. |
| Boris Dunas |
| Enviado em: 05/06/2011 21:40:16 |
| É impressionante a importância que a lingüística subitamente adquiriu nezztepaízz! Mais um pouco e teremos milhões de especialistas em lingüística antes mesmo de aprenderem os rudimentos da... língua pátria! É como se houvesse um clamor dos alunos “diferenciados” (tá bom assim?) pelo pleno domínio das filigranas da “variante popular” para que só então pudessem se dedicar à tediosa tarefa de compreender aquela “elitice” insuportável que atende pelo pedantíssimo título de “norma culta”... No brasil do “nóis vai’, opressão é liberdade; cultura, ainda que mínima, é opressão. E Fernando Vaiddad passa por um George Orwell. |
| Victor Gadelha |
| Enviado em: 06/06/2011 12:10:48 |
| Isso é justificativa pra não ter serviço pra concertar os dentes da população car. Esta bom, concerta no filme da ficção brasileira nacional de tv. O rémedio do pré conceito é o conceito e resolveram extinguir, publicamente, o remédio. Daqui a pouco você é assaltado; chama o sujeito de ladrão, mas é você que vai ser acusado por ser preconceituoso. Aí patrão, tu quer arrumar uns militância, num é? Pode ficar transkilo patrão, aqui és tudo fidelis... |
| Victor Gadelha |
| Enviado em: 06/06/2011 12:28:33 |
| Corrigir erros pode ser considerado atos equivocados, se corrigidos por qualquer. Por isso é o professor que corrige as provas. Mas deve se propagar o bom uso da língua e da gramática, seja ou sejam elas quaisquer. O bom uso da língua da palavra pode salvar vidas. Pergunte ao controlador de tráfego aéreo. Tenha uma boa tarde! |
| Vinícius Moraes de Mattos |
| Enviado em: 06/06/2011 13:40:13 |
| Texto categórico, simples, honesto, direto. Tudo o que faltou na mídia. Por que os meios de comunicação não abriram espaço para quem entende do assunto? Por que jornalistas e políticos monopolizaram o debate sobre um tema que diz respeito a linguistas e estudiosos da lingua? Até os poucos especialistas consultados pela imprensa pareciam ter sido contratados para reafirmar o que já havia sido proclamado romanticamente pelos jornalistas: Sérgio Nogueira, como era de se esperar, corroborou a posição assumida pelo editorial do globo; o presidente da ABL [ ] comparou a língua à matemática e recebeu Merval em sua academia. Um fato linguístico se transformou em factóide político. Vozes sóbrias como a de Marcos Bagno emergiram por um instante, mas a verdade já estava estabelecida. E para tanto, ninguém precisou conhecer o livro, bastou ouvir falar, ler algumas linhas ou nenhuma. Enfim, o livro ensina a falar errado, como o Lula. |
| David da Silva Junior |
| Enviado em: 09/06/2011 17:33:59 |
| Um bom texto. Eu acrescentaria à bibliografia indicada livros de outros linguistas como Sirio Possenti. |






