terça, 18 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

>>Lições de Zilda Arns
>>A multiplicação das consciências

Lições de Zilda Arns


A morte trágica da médica Zilda Arns, criadora da Comissão Pastoral da Criança, chama atenção da imprensa para o papel que o Brasil vem desempenhando no Haiti desde 2004.


A estratégia de combinar os confrontos armados contra as gangues que dominavam o país, com o atendimento de necessidades básicas da população, criou uma empatia entre os haitianos e os soldados e voluntários brasileiros.


A presença de Zilda Arns, que indica a estruturação de uma organização humanitária cujo modelo tem sido bem sucedido no Brasil, aponta para uma nova etapa da missão brasileira.


O Brasil entrou no Haiti quando forças militares de grandes potências haviam falhado. Substituiu o policiamento violento e os confrontos pela busca da compreensão sobre como funciona o país, que nunca viveu um período de democracia com estabilidade: dos 42 presidentes que já teve em sua história política, o Haiti viu 30 serem depostos ou assassinados, segundo relatam os jornais.


A “diplomacia do futebol”, com a partida amistosa da seleção brasileira contra a seleção haitiana, demonstrou o potencial de aglutinação das ações baseadas no esporte e na aproximação.


Quando o governo brasileiro fala em “adotar” o Haiti, está apontando para uma relação muito diversa das ocupações colonialistas que marcaram o mundo até o século passado.


Trata-se de uma extensão da diplomacia que já vigora nas fronteiras com nossos vizinhos mais pobres da América do Sul, onde instituições não governamentais financiadas pelo Brasil atuam preventivamente no combate à pobreza e na prevenção de doenças.


Por outro lado, a tragédia aponta para a possibilidade de um novo papel das forças armadas, exatamente quando o Programa Nacional de Direitos Humanos provoca grandes controvérsias com relação à história recente de atrocidades cometidas internamente por representantes do poder militar.


O Brasil que se apresenta ao mundo como um dos líderes do socorro ao Haiti ainda tem muitos problemas a resolver em seu próprio território.


Mas mostrou que possui uma receita de eficiência comprovada na ação pastoral liderada por Zilda Arns: ensinar aos desprovidos que eles mesmos podem tomar posse de seus destinos. 


A multiplicação das consciências


Alberto Dines:


– “Pense no Haiti, reze pelo Haiti” dizia a velha canção de protesto da dupla Caetano-Gil. Agora o mundo inteiro está pensando no Haiti, rezando pelo Haiti, solidário com o Haiti. Ainda não se conhecem os números, as vítimas do terremoto podem ser 100 mil ou 50 mil. Ontem, foram enterrados os primeiros sete mil em covas comuns.


“O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui” continuava o refrão. O Brasil deixou de ser o Haiti há muito tempo. O Brasil está no Haiti para ajudar o seu povo a criar um Estado. Os 15 soldados mortos e outros quatro desaparecidos nos remetem a 2004, quando nosso país decidiu participar da Missão da ONU para a Estabilização do Haiti e nossos xiitas foram às ruas para denunciar a adesão à “conspiração imperialista”.


A morte da doutora Zilda Arns Neumann em Porto Príncipe, quando dava uma aula a um grupo de religiosos sobre a Pastoral da Criança, nos obriga a repensar nosso conceito de políticas públicas, adicionando a imperiosa noção de solidariedade.


Esta é uma tarefa para a mídia. Não se trata apenas da multiplicação dos pães, trata-se da multiplicação das consciências – ou das almas, como queiram. A nova tragédia haitiana comove o mundo e pode ajudar a despolitizar nossos melhores impulsos. Inclusive certos impulsos religiosos.


Um pouco mais de humanidade produzirá milagres. Um mínimo de convergência pode maximalizar nossa convivência. Graças à belíssima figura de Zilda Arns, a mídia encontrou outro tipo de unanimidade e está conseguindo singularizar uma catástrofe sem perder de vista suas proporções apocalípticas.


Ontem não apareceu ninguém chorando nas reportagens do Jornal Nacional, porém milhões de brasileiros ficaram arrasados.