Eis que de repente, não mais que de repente, a Rádio AM do Povo de Fortaleza (1010 KHz) modifica drasticamente sua programação, em pleno meio de semana. Na sexta-feira, 6 de maio, saiu de cena a parceria com a Rede Jovem Pan Sat. Entrou em cena a nova parceria, agora com a Central Brasileira de Notícias. Sigla: CBN. Ramificação das Organizações Globo.
Saiu de cena, porém, não somente a Rede Jovem Pan Sat, nem tampouco deixamos de ouvir simplesmente o Jornal da Manhã, os noticiários hora a hora da emissora paulista, as transmissões esportivas de Nilson César, com os comentários de Milton Neves, Flávio Prado e Cláudio Carsughi, além das reportagens de Wanderley Nogueira, Rodrigo Viga e outros igualmente competentes. Não, senhores, não é esse o grande prejuízo que sofremos. Com a mudança de parceria, foi diminuída a grade de programação local, para dar lugar à programação da rede CBN, originada dos grandes centros, Rio de Janeiro e São Paulo, além de Brasília.
Foram descartados da emissora diversos programas locais. Uma das vítimas foi o programa Noite e Companhia, apresentado por Ian Gomes, que trazia entrevistas, fatos curiosos e a participação de repórteres, além da interação com os ouvintes. Outra vítima foi o Pássaro da Madrugada, apresentado por Juarez Silveira, substituído pela transmissão em cadeia da programação noturna da CBN. Igualmente, um dos melhores programas de rádio da cidade, o Programa João Rufino, apresentado pelo radialista que dá nome ao programa, foi sacado, o que retirou, de uma só tacada, dois profissionais cearenses do mercado, já que Rufino trabalhava com um auxiliar.
Além disso, os horários de programação local foram sensivelmente modificados, para atender aos interesses da CBN. Veja-se o exemplo do Rádio Serviço, apresentado por Nonato Albuquerque. Antes da CBN, seu horário era de segunda a sábado, das 7h às 11h. Agora, de quatro horas de duração, passou para duas horas e meia, além de terem sido sacados dois dos personagens principais do programa, os repórteres Luís Paulo Machado e Lígia Matta. Foram modificados também os horários do Debates do Povo, mediado por Nazareno Albuquerque, e do Tarde do Povo, apresentado pelo ícone da comunicação cearense Narcélio Limaverde. Outro ícone da comunicação também sofreu modificação no horário de seu programa: o Superlativo – Programa do Alan, programa esportivo apresentado por Alan Neto, saiu do horário das 18h, no qual esteve vários anos, para o horário das 17h, para que depois possa dar lugar ao programa nacional da CBN.
O verdadeiro patrimônio
Ou seja, temos, na Rádio AM do Povo mais programação da Rede CBN do que programação local, numa desproporção que não se via quando a emissora era filiada à Rede Jovem Pan Sat. Um exemplo disso aconteceu no domingo, dia do jogo entre Fortaleza e São Caetano, pelo Campeonato Brasileiro. Nos tempos de Jovem Pan, as informações sobre o jogo, com início às 18h10, começariam a ir ao ar a partir das 14h, a despeito da programação nacional da emissora dos Machado de Carvalho. Pois bem, neste domingo, o primeiro após a entrada em vigor da nova parceria, só depois das 17h a programação da CBN foi interrompida, para a entrada das informações sobre a partida do Fortaleza e a conseqüente transmissão do jogo. Isso sem falar de que no sábado, véspera da partida, não foi ao ar outro programa local, As Frias do Sérgio, programa esportivo apresentado por Sérgio Ponte.
Os fatos narrados até aqui respondem a algumas perguntas feitas por Francisco Djacyr Silva de Souza, presidente da Associação dos Ouvintes das Emissoras de Rádio do Ceará, em texto publicado por este Observatório com o título ‘Filiação à CBN preocupa cearenses’ [ver remissão abaixo]. Vamos a elas:
1)
‘Perderemos a voz de nossos locutores e profissionais do rádio, que tanto fizeram para o desenvolvimento de nosso estado?’ Já perdemos, meu caro.2)
‘Qual o futuro dos técnicos de áudio?’ Isso, não sei ao certo. Mas é meio estranho para um técnico ter que ligar, permanentemente, sua mesa ao canal de freqüência da CBN, quando, nos programas veiculados no estúdio da AM do Povo, estava em pleno vapor, exercendo suas funções. Talvez fique uma sensação de ‘falta do que fazer’, semelhante ao que já acontece no intervalo de uma hora da Voz do Brasil ou durante o horário político gratuito.3)
‘Que efeitos a nova programação terá nos destinos do nosso povo, que quer cidadania, interatividade e respeito?’ Temos hoje, como se percebe, menos interatividade, já que foi diminuída a faixa de programação local. Com menor possibilidade de interação entre o ouvinte e a emissora, prejudica-se o exercício da cidadania. Com a imposição de nova programação sem a prévia anuência do ouvinte (não venham os diretores da AM do Povo dizer que apenas a vinheta, que passava constantemente nos dias anteriores à mudança de programação – ‘O Ceará vai ser notícia no Brasil. Aguarde!’ –, faria o ouvinte entender que se tratava de nova parceria com outra rede de rádio), faltou a emissora com o devido respeito a ele, verdadeiro patrimônio de uma emissora de rádio.******
Jornalista, amante do rádio e ouvinte (ainda) da Rádio AM do Povo
