Sexta-feira, 16 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1371

Ouvir para contar: Ruy Castro perfila Tom Jobim

(Imagem: Divulgação)

Repórter e biógrafo, o jornalista Ruy Castro, ao reunir em O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim (Companhia das Letras, 2025, 232p) o que escreveu sobre Jobim na Folha de S.Paulo traça um perfil do artista e mostra um exercício de escuta.

Mais do que uma coletânea, o livro se apresenta como um exercício contínuo do perfil. Não no sentido de uma biografia linear, mas como a construção de uma personalidade por meio de fragmentos, histórias, vozes e contextos.

Cada texto capta uma faceta de Jobim. Tem o músico, o letrista, o pensador do Brasil, o homem da natureza, o frequentador de bares, o cidadão do Rio de Janeiro. Faces que não se excluem, mas que, ao contrário, se complementam.

Os textos revelam também o método do autor que envolve investigação, escuta e atenção ao detalhe. Castro vasculha jornais e conversa com amigos do artista para iluminar aspectos pouco percebidos do personagem.

Um exemplo é a descoberta da habilidade de Tom em imitar o canto de pássaros. Um detalhe aparentemente menor se transforma em chave interpretativa: o músico que conversava “de igual para igual” com os pássaros é o mesmo que incorporou a natureza à sua música e à sua visão de mundo.

O livro também se apoia no rico anedotário sobre a Bossa Nova. Episódios célebres como a parceria Jobim/Sinatra são revisitados não para reforçar mitos, mas para esclarecê-los. Castro distingue lenda e fato, registrando ambos, sem abdicar da precisão.

Nesse processo, Castro também se insere na narrativa. Compra discos, recorda entrevistas e conversas com Tom, relembra shows e homenagens ao artista. O Castro perfilista não é invisível: sua presença reforça a dimensão testemunhal do texto, sem jamais se sobrepor.

Perfilar Jobim para Castro é também perfilar o Rio de Janeiro. Ipanema, Leblon, Jardim Botânico, os bares, as praias, os lugares surgem como extensões do personagem. Castro mostra como o espaço molda o artista e como o artista redefine o imaginário da cidade.

Castro demonstra assim que o perfil não é um texto definitivo, mas um processo. Cada texto acrescenta uma camada, um detalhe, uma nuance. O resultado é um retrato complexo, feito de escuta prolongada, pesquisa minuciosa e sensibilidade narrativa.

Tom Jobim emerge não como monumento, mas como homem múltiplo, uma síntese de música, cidade, natureza e pensamento. E o leitor compreende que, para Castro, perfilar é isso: ouvir longamente até que o personagem possa, enfim, falar por si.

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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br