
(Foto: BoliviaInteligente/ Unsplash)
A maioria de nós, jornalistas, ainda não se deu conta de que, nesta era digital, a nossa profissão está entrando em mais um ciclo de rupturas com o modelo tradicional vigente há quase dois séculos. Agora é a vez da inteligência artificial colocar o jornalismo dentro de uma nova modalidade da economia da atenção, um ambiente ainda totalmente desconhecido até mesmo para os profissionais já acostumados com as plataformas digitais, algoritmos, protagonismo do público e interações em tempo real.
A economia da atenção, usando jargão do economês, é um sistema onde a atenção humana é tratada como um recurso escasso, essencial no desenvolvimento das interações em ambiente digital e commodity obrigatória na busca de sustentabilidade de projetos online. Noutras palavras, como a inteligência artificial intensificará a avalanche informativa, a sobrevivência de qualquer iniciativa na internet vai depender da capacidade de prender a atenção do público, já que a oferta de bens, serviços e ideias será imensa.
A economia da atenção é um fenômeno já antigo no jornalismo. Ela surgiu em meados do século XIX quando o dono do jornal New York Sun (1) resolveu transformar os leitores em consumidores em produto, dando origem à revolucionária fórmula dos Penny Papers, (denominação genérica para jornais super baratos). Até então só a elite comprava jornais, pois eles eram muito caros dada a necessidade de as vendas cobrirem todo o custo de produção. Benjamin Day, o dono do Sun resolveu reduzir o preço de cada exemplar para aumentar a vendagem, usando a atenção dos leitores como isca para atrair anúncios pagos que passaram a custear 80% da redação, impressão e distribuição do jornal.
O mercado de audiências
As inovações tecnológicas provocadas pela digitalização, além de mudarem drasticamente os processos de produção e distribuição de notícias, criaram um novo papel para a atenção do público no exercício e sustentabilidade financeira do jornalismo. Em vez de vender a atenção de leitores, ouvintes e telespectadores para anunciantes, o produto comercializado passou a ser as próprias audiências. É o que está acontecendo com plataformas digitais (2) como Facebook, Instagram e TikTok que remuneram influenciadores populares para monetizar audiências. O mesmo ocorre atualmente com grandes conglomerados jornalísticos online que compram as audiências de formadores de opinião para disputar anunciantes, como já virou rotina nos Estados Unidos, na era Trump.
A economia da atenção criou também um novo contexto para a prática do jornalismo independente na era digital. A principal diferença em relação ao modelo tradicional está no fato de que agora o profissional autônomo que publica um site, blog ou tem um espaço em rede social precisa fidelizar usuários para obter notícias e sustentabilidade, sem dependência obrigatória de anunciantes. A fidelização de audiências torna necessária uma nova forma de relacionamento entre o profissional e seu público, baseada na reciprocidade de responsabilidades.
O jornalista assume a responsabilidade de atender às necessidades informativas do público enquanto este precisa garantir a sustentabilidade do fornecimento de notícias para a comunidade. O jornalismo está deixando de ser uma função assalariada para se tornar um agente social. A notícia está perdendo valor como commodity usada para atrair anunciantes e se transformando num componente da produção de conhecimento socialmente relevante, responsável pela formação do capital social de uma comunidade (3).
O curador de notícias
Já se sabe que na era digital o jornalismo perde espaços na produção de notícias duras (4) para se tornar um curador de dados, um tutor no manejo da informação, um investigador de fatos (5). O desafio agora é saber como estas funções serão exercidas no contexto da economia da atenção, levando em conta duas situações profissionais muito específicas: o trabalho autônomo ou independente, e o exercício do jornalismo em plataformas digitais, como Facebook, TikTok, Instagram ou YouTube.
O gradual e inevitável avanço da economia da atenção no exercício do jornalismo impõe obstáculos consideráveis aos profissionais e influenciadores preocupados com a produção de notícias. À medida que o curador, tutor ou investigador, com base na qualidade dos serviços prestados, consegue formar uma comunidade de usuários, as políticas de monetização das plataformas digitais tendem a transformá-los em produtos. A venda de audiências torna a atenção uma commodity, como aconteceu com a notícia, na era analógica no jornalismo.
- Mais detalhes sobre a história do The New York Sun aqui
- O marketing das Big Techs criou uma confusão de conceitos entre redes e plataformas. Redes sociais são projetos de interação entre pessoas, sem finalidades de lucro, enquanto as plataformas digitais são sistemas onde a os dados, fatos e ideias publicados por usuários são capturados e monetizados por corporações lucrativas.
- O Banco Mundial define o capital social como o conjunto de conhecimentos acumulados por instituições, redes e indivíduos que influenciam a qualidade e a intensidade das relações interpessoais responsáveis pelo desenvolvimento econômico, social, político e cultural de uma comunidade.
- Notícia dura é um jargão jornalístico traduzido literalmente do inglês hard news e que se refere a acontecimentos marcados pelo imediatismo, ineditismo e impacto social.
- O curador orienta seus seguidores sobre quais são as notícias mais relevantes, pertinentes e confiáveis no contexto social, econômico, politico e cultural destes mesmos seguidores. Um tutor ensina as pessoas a identificar notícias falsas, evitar a disseminação de boatos, rumores e a desinformação, enquanto o investigador busca descobrir a origem de notícias falsas, desinformação bem como esclarecer fatos, dados e eventos complexos.
***
Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
