Sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1377

Febre midiática

(Foto: Valery Tenevoy/Unsplash)

Em 𝗠𝗮𝗻𝘂𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗝𝗼𝗿𝗻𝗮𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼 𝗻𝗮 𝗜𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗲𝘁 (1997), os jornalistas e acadêmicos Marcos Silva Palacios e Elias Machado Gonçalves afirmam: “O jornalismo digital representa a adaptação de uma modalidade específica de conhecimento da realidade a um novo suporte comunicacional, a tecnologia de transmissão digital de informações”. Uma nova modalidade de jornalismo toma conta das telas dos computadores, transformando a forma como a informação é produzida, distribuída e consumida. Mais interativo, multimídia e conectado às redes sociais, o jornalismo digital não apenas ocupa espaço nas telas, mas redefine o papel do jornalista e inaugura uma era em que a velocidade e a interatividade são tão importantes quanto a credibilidade da informação. Convém, entretanto, destacar que os parâmetros fundamentais da comunicação social, sob a perspectiva do complexo midiático — tanto on-line quanto off-line —, têm suas raízes em tempos passados, com figuras como Machado de Assis (1839–1908): “O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções” (𝗢 𝗷𝗼𝗿𝗻𝗮𝗹 𝗲 𝗼 𝗹𝗶𝘃𝗿𝗼, 1859).

As relações sociais e os processos de produção simbólica encontram-se, cada vez mais, submetidos a uma lógica de midiatização intensa – isto é, sob a égide de mediações e interações que se estruturam a partir de dispositivos teleinformacionais e digitais. A chamada “febre midiática” não se apresenta apenas como fenômeno passageiro ou moda tecnológica; ela se configura como verdadeiro imperativo social, capaz de fixar hábitos, consolidar crenças e naturalizar visões de mundo. A liberdade de expressão, embora essencial à vida democrática, não isenta ninguém das consequências que podem se revelar destrutivas. Por isso, o princípio da liberdade deve ser sempre acompanhado pelo senso de responsabilidade — não como forma de autocensura, mas como consciência ética do impacto da palavra.

Autor do artigo 𝗔 𝗺𝗶́𝗱𝗶𝗮 𝗻𝗮̃𝗼 𝗴𝗼𝘀𝘁𝗮 𝗱𝗮 𝘃𝗲𝗿𝗱𝗮𝗱𝗲, o saudoso professor do curso de Comunicação da FACHA – RJ, Ivo Lucchesi (1949-2019) destacou com rigor intelectual a diferença entre jornalismo e mídia: “Inicialmente, cabe relembrar que mídia e jornalismo são e não são a mesma coisa. Para qualquer iniciante em conceitos a respeito do campo da comunicação, a afirmação não causa problema algum. O problema real está no fato de que, progressivamente, a atividade jornalística vem sendo contaminada (ou usurpada) pelo (d)efeito da voracidade simplificadora e deformadora de uma estética midiática. Esta é parceira fiel e submissa da exploração sensorial. Enquanto o jornalismo procura o equilíbrio entre fatos e verdade, a mídia explora as relações entre fatos e sensações. A conclusão, portanto, é simples: quando o jornalismo perde território para a invasão do esquema midiático, o que fica debilitado é a nobre missão de perseguir a verdade das coisas do mundo” (𝗢𝗯𝘀𝗲𝗿𝘃𝗮𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼 𝗱𝗮 𝗜𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮, edição 527, 3/3/2009, on-line).

Segundo Lucchesi, a chamada “grande imprensa” encontra-se aprisionada em uma espécie de camisa de força que limita sua atuação e compromete sua vocação primordial: o exercício do olhar crítico. Nesse processo, a história real, marcada por contradições e múltiplas vozes, é silenciada ou reduzida a fragmentos, enquanto a narrativa midiática se impõe como versão sedutora e aparentemente incontestável. Assim, a sociedade contemporânea enfrenta o desafio de distinguir entre o que é vivido e o que é narrado, entre o que é experiência e o que é espetáculo. O maior risco é que, ao nos habituarmos a consumir apenas narrativas sensacionalistas produzidas pelos meios de comunicação, acabemos por confundir simulacro com realidade, opinião com fato, crença com conhecimento.

A informação, enquanto bem cultural e social, está ligada à função pública da imprensa e ao papel de difusão do conhecimento. Quando tratada como mercadoria, submete-se às lógicas de produção, circulação e consumo do capitalismo simbólico. Nesse cenário complexo, convivem dois movimentos: de um lado, ganhos em acesso, velocidade e democratização; de outro, riscos de manipulação, superficialidade e instrumentalização. Não por acaso, a ética é o alicerce do jornalismo: garante credibilidade, responsabilidade e compromisso social, orienta a prática profissional e define limites entre liberdade de expressão e respeito à dignidade humana. Em tempos de rápida disseminação de conteúdos e risco de desinformação, funciona como guia para preservar a confiança do público, fortalecer a democracia e assegurar que a informação seja justa, crítica e responsável.

***

Marcos Fabrício Lopes da Silva é Membro da Academia Cruzeirense de Letras – ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, diplomado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), e autor do livro 𝗠𝗮𝗰𝗵𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗔𝘀𝘀𝗶𝘀, 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗱𝗮 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮 (Outubro Edições, 2023). Participante do Coletivo AVÁ e apresentador do Sarau Marcante.