Domingo, 5 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1382

A maneira do presidente dos Estados Unidos de fazer diplomacia

(Foto: Markus Spiske/Unsplash)

Na madrugada do último sábado aconteceu o que todos esperavam. Estados Unidos e Israel atacaram o Irã e mataram o dirigente máximo do país, o aiatolá Ali Khamenei, 86 anos. Havia pelo menos três semanas que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, vinha negociando com os iranianos o fim do programa nuclear do país. As negociações estavam sendo feitas ao estilo Trump: mandou uma frota de navios, com dois porta-aviões, ancorar na região e seguidamente ameaçava os líderes iranianos de usar a força caso as conversas sobre um tratado não avançassem. Dias antes do ataque, americanos e iranianos envolvidos se mostravam satisfeitos com os avanços nas negociações. Por que então Trump resolveu “virar a mesa” e se unir aos israelenses no ataque aéreo ao território iraniano? A resposta é simples: foi convencido que era o certo a fazer pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, 76 anos. Vamos conversar sobre o assunto.

Mas antes vamos contextualizar a nossa conversa como manda o manual do bom jornalismo. O programa nuclear do Irã foi implantado na década 1950 pelo governo americano, então empenhado em uma iniciativa chamada “Átomos para a Paz”, que visava estimular o uso da tecnologia nuclear para fins pacíficos, como na geração de energia e na medicina. Na época, o Irã era governado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi (1919 – 1980), que mantinha relações amigáveis com o Ocidente. Em 1979, o xã foi deposto pela Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini (1902 – 1989). Foi o rompimento das relações diplomáticas do Irã com americanos e israelenses. Os dirigentes iranianos são acusados de estarem usando o programa nuclear para beneficiar urânio para a fabricação da bomba atômica. Qual é a diferença entre a operação realizada no início no ano pelos Estados Unidos na Venezuela e a de agora no Irã? O roteiro foi o mesmo. Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro, 63 anos, foi acusado de estar envolvido com o narcotráfico. Navios de guerra americanos foram enviados para a costa da Venezuela, entre eles o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, movido a energia nuclear, com 75 aviões de combate, além de uma tropa de 15 mil soldados, marinheiros e pilotos. Na madrugada de 3 de janeiro, comandos entraram furtivamente no território venezuelano e prenderam Maduro e a sua esposa, Cilia Flores, 69 anos, e os levaram para Nova York, onde serão julgados por tráfico de drogas. A estrutura do cerco ao Irã é semelhante. Vamos às diferenças. Maduro governava uma ditadura e ocupava o cargo desde 2013. Trump apenas o substituiu pela vice-presidente, Delcy Rodriguez, 56 anos, e não mexeu na estrutura de poder do país. Ela ocupa o cargo de maneira provisória. Contei toda a história no post de 6 de janeiro Prisão de Maduro abre espaço para a luta pelo poder na Venezuela? O maior interesse dos americanos no território venezuelano são as jazidas petrolíferas. No Irã, os objetivos são outros. Primeiro, é substituir o regime político, que é uma república islâmica teocrática, onde quem dá as cartas são os religiosos – há matérias sobre o assunto disponíveis na internet. Mexer nesta estrutura é como consertar o pneu de um carro em movimento.

Em caso da vitória de Trump e Netanyahu no Irã, o que irão fazer para trocar o regime do país? Eles apostam que os líderes dos manifestantes que realizaram grandes protestos contra o governo dos aiatolás em janeiro passado possam se transformar nos futuros dirigentes? Mas quem são estas pessoas? Ninguém sabe, nem mesmo Trump e Netanyahu. Quero lembrar aqui um fato. O caso do Iraque, do ditador Saddam Hussein (1937 – 2006). Ele dirigiu o país de 1979 a 2003. O que aconteceu foi o seguinte. Em 11 de setembro de 2001, terroristas suicidas da Al-Qaeda, dirigida pelo saudita Osama bin Laden (1957 – 2011), sequestraram aviões comerciais e os jogaram contra o prédio do Pentágono, em Washington (DC), e contra as Torres Gêmeas, em Nova York. Na ocasião, espalhou-se o boato de que Saddam tinha armazenado armas de destruição em massa. E que protegia terroristas ligados à Al-Qaeda. Os americanos e seus aliados invadiram o Iraque em busca das armas de destruição em massa e de militantes da organização de Bin Laden. Não encontraram as tais armas. Mas destituíram Saddam, que fugiu e mais tarde foi capturado quando estava escondido dentro de um bunker cavado no solo. Em 2006, o Tribunal Supremo do Iraque condenou o antigo ditador à forca. Todas essas ações acabaram desestruturando o Iraque, que se transformou no berço de movimentos terroristas, como o Estado Islâmico, que deixou atrás de si um rastro de torturas e mortes. Conversei com um amigo e colega de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, que é especialista em movimentos terroristas. Ele disse que os grupos descritos como terroristas por Trump estão passando por um “momento de baixa” devido a vários fatores, entre eles a ausência de um inimigo comum. Perguntei se Trump poderia assumir a figura do inimigo comum. Ele respondeu que não tem como prever, acrescentando: “Essas coisas ninguém controla, elas acontecem. O presidente americano é cheio de narrativas sem pé nem cabeça”.

Para arrematar a nossa conversa. Trump tomou uma série de iniciativas com o objetivo de desestabilizar regimes que acredita serem seus inimigos. No caso do Irã, a aposta é que a população que vinha participando de movimentos contra o governo vai aproveitar a oportunidade e derrubar os aiatolás. As coisas não funcionam assim. O seu parceiro de guerra, o primeiro-ministro de Israel, sabe que as coisas não funcionam como Trump acredita. Mas não diz nada porque a atual situação lhe serve. Como vai terminar esta história, ninguém sabe. Nem Trump.

Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.