Terça-feira, 16 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1392

Irã: a imprensa está sabendo retratar o país?

(Foto: Mehdi Salehi/pexels)

O que é o Irã? Qual é a relação entre a sociedade do país e o regime que governa a nação desde 1979? A percepção que parte da opinião pública tem sobre o Irã corresponde à realidade? Como o Brasil tem se posicionado diante da guerra?

Essas são algumas perguntas sobre as quais o professor e pesquisador Vitor Stuart de Pieri comentou na entrevista que inaugura o site Saber Entrevistas, plataforma que propõe publicar entrevistas com especialistas a respeito de temas que mobilizam a opinião pública e o meio acadêmico.

Doutor em Geografia Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pieri, entre outras funções, é professor do Departamento de Geografia Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e tem Livre-Docência pela Universidade de São Paulo (USP). Ele também tem atuação importante na imprensa, publicando artigos de opinião e concedendo entrevistas para influentes veículos de comunicação, com o objetivo de esclarecer sobre temas em destaque no noticiário

Confira abaixo a entrevista de Vitor Stuart de Pieri para o site Saber Entrevistas. O texto é fruto de uma conversa feita por videochamada, com duração de quase uma hora, na manhã do dia 18 de abril, entre Brasília e o Rio Janeiro.

É comum imaginarmos o Irã como um país bélico e fundamentalista religioso. O que é, de fato, o Irã para além do que a gente vê na imprensa?

O Irã é quase sempre apresentado de forma, relativamente, simplificada no Ocidente, como se fosse apenas um regime religioso, fechado e o homogêneo.

Isso pra mim é um equívoco porque o Irã é uma sociedade complexa, prioritariamente urbana, historicamente sofisticada, etnicamente diversa, milenar. São milhares de anos que essa sociedade existe. Mais de 3/4 da população vive em áreas urbanas. A população do Irá hoje é de 91 milhões de pessoas. É um país, relativamente, importante do ponto de vista demográfico. O país carrega uma longa continuidade civilizacional. É muito anterior à República Islâmica criada em 1979.

O Estado iraniano precisa ser entendido, basicamente, a partir de duas camadas. A primeira é a do Estado nacional moderno, com as suas instituições, com a sua burocracia, as forças armadas, a presença internacional, com uma diplomacia sofisticada que defende a multipolaridade e com desenvolvimento industrial.

As sanções que o país sofreu nos últimos anos ajudou a implementar um modelo de desenvolvimento que contribuiu para a sofisticação da indústria nacional, com o aumento dos quadros de engenheiros e outros de profissionais bastante qualificados.

Outra leitura importante é que o país tem uma percepção estratégica muito sofisticada sobre o seu próprio lugar regional. O Irã fica numa localização historicamente importante, onde há, por exemplo, rota aquecida de comércio. É um território muito particular.

Outra forma de analisar o Irã é sob a ótica do surgimento da República Islâmica. A partir daí, a gente tem que pensar como o país se organiza politicamente, a partir da combinação de soberania popular e da questão da tutela religiosa. Essa fusão entre Estado moderno e legitimidade revolucionária religiosa é o que torna hoje o Irã bastante singular.

Também é importante frisar que a sociedade iraniana e o regime político não são a mesma coisa. Há no Irã classes médias urbanas bastante diversificadas, uma juventude bem escolarizada, uma vida cultural intensa. A gente observa também várias tensões sociais, um país bastante dinâmico nesse sentido. São tensões políticas, disputas entre conservadores e reformistas, e uma diversidade regional muito grande.

Portanto, reduzir o país a questões de religiosas é uma leitura equivocada e preguiçosa, o que, de certa forma, apaga um pouco a questão da densidade histórica da sociedade e a racionalidade geopolítica do Estado iraniano.

 A Revolução Islâmica de 1979 foi uma imposição que contrariou os interesses e a vontade da sociedade, ou havia uma sintonia de diretrizes e princípios culturais, políticos e teológicos entre o regime dos aiatolás e a sociedade civil?

A revolução de 79 foi o evento fundador do Irã contemporâneo. O movimento foi muito importante para o país porque derrubou a monarquia, instituindo o que a gente chama de república islâmica.

Então, é um erro considerar a revolução apenas como uma revolução religiosa. Ela foi, ao mesmo tempo, antiautoritária, anti-imperialista, antimonárquica, mas foi com esse viés islâmico. O episódio reuniu grupos sociais muito diferentes contra a monarquia. Havia clero, comerciantes, setores populares, intelectuais e as mais diversas correntes políticas.

A revolução significou uma ruptura profunda com a monarquia. Para a grande maioria da população mobilizada naquele momento, foi uma conquista de soberania, de justiça social, de rejeição ao autoritarismo, de resistência à ocidentalização imposta de cima pra baixo.

Ao mesmo tempo, o processo revolucionário terminou produzindo uma nova estrutura de poder centralizada, religiosa e disciplinadora. As principais características da revolução foram, portanto, o que a gente pode chamar de ampla base social, o fortalecimento do clero xiita, o conteúdo anti-imperialista que estava por trás de toda essa revolução, a substituição da monarquia por uma república islâmica e a fusão entre legitimidade religiosa e o aparato estatal.

Eu acho que a revolução 1979 não foi apenas uma troca de governo. Foi a refundação do Estado iraniano e no que ele é hoje. Apesar das questões ideológicas e religiosas, é um Estado muito mais moderno, que conservou a sua cultura e alcançou níveis importantes de desenvolvimento.  

A visão que nós, em geral, temos sobre o Irã é fruto de um alinhamento ideológico com a ideia de ocidentalização ou tem a ver com a relativa e histórica falta de interesse dos meios de comunicação brasileiros sobre esse tema?

A minha leitura é a de que parte da imprensa nacional, que ainda cobre o Irã por meio de um repertório muito depende de fontes ocidentais, costuma ter enquadramentos morais muito simplificados.

Por isso, o país costuma aparecer apenas como uma ameaça, como uma teocracia, como um agente desestabilizador da ordem, sem que questões mais amplas sejam colocadas, explicando de forma suficiente a lógica, a histórica, os aspectos territoriais e estratégicos que organizam as decisões do país.

A imprensa tem mudado, mas parte dessa cobertura ainda trata o conflito como se fosse apenas um embate ideológico e militar imediato, quando, verdade, envolve quatro dimensões, pelo menos: a disputa regional de poder; a contenção de uma autonomia estratégica iraniana; o controle dos fluxos energéticos; e a luta pela reorganização da ordem no Oriente Médio. Dentro dessa lógica, o Estreito de Ormuz continua sendo uma peça central.

Então, o fato de o cessar-fogo estar condicionado à disputa sobre a navegação e o bloqueio, mostra que nós não estamos diante de uma guerra qualquer, mas de uma crise que acaba tocando toda a infraestrutura energética no sistema internacional.

Quando a gente contextua amplamente o Irã, a gente acaba reforçando dois equívocos. Primeiro é o de que o país age de forma irracional, e não é isso. Eles estão se protegendo de um ataque. O segundo é o de que ele está isolado por fraqueza civilizatória.

Nem uma nem outra coisa está correta. O Irã tem cálculo estratégico, tem capacidade estatal e tem instrumentos regionais de influência. De certa forma, isso faz com que o país resista a toda essa pressão internacional e consiga manter as estratégias de impactar a economia, como uma forma de defesa dos ataques que ele tem sofrido.  

Qual é a sua análise a respeito da qualidade da cobertura da imprensa sobre esse conflito?

A imprensa brasileira, falando especificamente, tem conseguido mostrar os dois lados questão, ainda mais porque a gente está vivendo um contexto de guerra cultural internacional.

O Trump é muito imprevisível. Existem várias teorias que são discutidas sobre a incapacidade dele em governar os Estados Unidos. A gente tem vivido ultimamente uma fase da decadência do mundo ocidental hegemônico.

Então, é uma ruptura de ordem internacional que tem ocorrido. E o Irã tem os impactos por estar numa posição geográfica estratégica. É uma região que fica entre o Golfo Pérsico, o Mar Cáspio, o Cáucaso, a Ásia Central e o Oriente Médio. Isso faz com que o país esteja num espaço muito disputado, um espaço de transição e num momento de alternância da ordem internacional, mais multipolar. É uma ordem em que o Sul Global passa a ter mais presença no cenário internacional.  

Você publicou um artigo na Folha de São Paulo em que fala sobre como o espaço geográfico é, inclusive, um fator de poder do Irã. Esse é o principal elemento que dá ao Irã uma vantagem competitiva nesse cenário de disputas políticas e militares?

A geografia do Irã é, ao mesmo tempo, um escudo e um problema. É um escudo porque o país tem grande profundidade territorial, um relevo montanhoso importante, tem áreas áridas extensas, é etnicamente diverso, ou seja, há condições que dificultam soluções militares rápidas com potências externas. Isso ajuda a explicar o Irã.  Mesmo sob forte pressão, o país continua resistindo.

Mas, a geografia também é um desafio para o Irã, que ocupa uma posição muito sensível, como falei há pouco. Está entre o Golfo Pérsico, o Mar Cáspio, o Cáucaso, a Ásia Central e o Oriente Médio. Isso significa que o Irã está entre uma vizinhança complexa, com múltiplas frentes de pressão e custos permanentes com segurança. Isso é histórico, desde a época do Império Persa.

Além disso, tem a questão das minorias étnicas, concentradas em faixas de fronteira, o que dá à questão territorial uma dimensão interna e externa ao mesmo tempo.

Mas, o ponto central é um Estreito de Ormuz. O Irã está sentado diante de um dos maiores gargalos geoeconômicos do planeta. A gente tem reparado aí a importância que tem aquele estreito. Nas últimas semanas, essa centralidade ficou bastante evidente.

A questão das tensões e das condições de passagem mostraram que a geografia iraniana projeta poder muito além das suas fronteiras. O país pode não dominar a economia mundial, mas ocupa uma posição capaz de afetar a economia como um todo. 

Enfim, o território iraniano é, sim, um aliado defensivo e um desafio político permanente. Ele protege, mas também expõe o país a uma pressão geopolítica contínua.  

A grandes potências internacionais e o mundo como um todo tinham a consciência da importância do Estreito de Ormuz para a vitalidade e o equilíbrio da questão energética ou só agora se atentaram para a real dimensão do valor estratégico daquele espaço?

Por que o Estreito de Ormuz é mais importante do que parecia? Bom, primeiro é um lugar por onde passam 20% do petróleo do mundo. Mas, também percebemos que o Estreito permite mostrar questões regionais muito além da economia. Pode servir como uma estratégia que impede um ataque ao Irã. Permite mostrar que a guerra não é apenas sobre, por exemplo, o Irã e Israel. A partir do Estreito, é possível manipular a questão da energia, do comércio dos seguros marítimos, a inflação e a economia mundial.

O próprio Reino Unido, a Itália, a Espanha, a União Europeia como um todo, voltaram a defender a retomada da navegação internacional. Isso ajuda a mostrar a importância daquela região para o mundo.

O Irã, de fato, está isolado do ponto de vista do suporte político, diplomático e militar? Se sim, podemos considerar que esse suposto isolamento poderia ser um ativo, no sentido de evitar a escalada de um conflito capaz de se transformar numa eventual guerra internacional?

Do meu ponto de vista, o Irã não está isolado. Está amparado em algumas alianças clássicas. Não existe um pacto militar formal, mas o país não está sozinho, está apoiado, principalmente, por alguns países.

Ainda conta com um capital diplomático e político da China e da Rússia, que, logicamente, não entraram em guerra, até porque haveria consequências gravíssimas para o mundo e a humanidade. Mas, assumiram posições diplomáticas no que diz respeito ao enquadramento ocidental mais duro, chegando a vetar algumas questões do Conselho de Segurança da ONU sobre a Resolução da Proteção da Navegação de Ormuz, cuja proposta previa a intervenção da ONU na região.

Mas, ao mesmo tempo, a China, tem buscado um papel mais cauteloso e indireto, defendendo o cessar-fogo e a negociação, sem se comprometer militarmente. A China tem observado muito. Eles têm a questão de Taiwan, que é um assunto bastante delicado.

Mas, quando a gente traz o debate mais para a dimensão regional, que a gente chama de “eixo de resistência”, o Irã tem uma rede de aliados que atuam na região, como no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iêmen. São eixos que estão fragilizados, mas eles ainda não deixam o Irã, de certa forma, isolado.

Então, o Irã não está sozinho, mas está relativamente mais exposto.  Tem parceiros, simpatizantes e instrumentos indiretos de apoio. Só que não dispõe de uma coalizão militar robusta, capaz de equilibrar diretamente o conflito contra os Estados Unidos e Israel.

O Irã faz parte de fóruns, como o BRICS, por exemplo. Enfim, não vejo o país isolado no mundo. É, inclusive, um dos atores que respondem por essa nova ordem do Sul Global.

A maior preocupação dos Estados Unidos é a questão do fim do padrão dólar, moeda do comércio internacional, o fim do petrodólar, do controle dos oceanos. Isso dialoga muito com o fim da geopolítica clássica. Para a gente entender qual é a posição dos Estados Unidos no mundo hoje, a gente tem que entender alguns clássicos da geopolítica, desde (Alfred) Mahan, o (Halford) Mackinder e o (Nicholas) Spykman, para ver quais estratégias eles utilizam.  O Irã, dentro dessas estratégias, ocupa posição importante.

Na visão dos Estados Unidos, o Irã tem o potencial de fomentar esse movimento que defende a mudança do padrão do comércio internacional, hoje baseado no dólar?

Sim, ajuda. Por exemplo, eu li em alguns veículos que, antes da intervenção dos Estados Unidos no estreito de Ormuz, o Irã fechou o Estreito e passou a cobrar pedágio com moedas nacionais. Os navios chineses pagavam yuan, o que fragiliza o padrão dólar.

Por que o Irã tem conseguido resistir aos Estados Unidos? Por uma série de combinação de fatores. Não por superioridade militar convencional, mas, como a gente já falou, pela geografia, pela profundidade territorial, por sua capacidade estatal acumulada ao longo de décadas de sanções.

O Irã desenvolveu uma indústria importante, investindo em modelo desenvolvimentista que contribuiu muito com a industrialização e a produção diversificada. Aplicou uma doutrina de dissuasão assimétrica, o que inclui mísseis hipersônicos, a produção de drones, a questão das redes regionais e a capacidade de organizar fluxos estratégicos, principalmente em torno de Ormuz.

Tem essa questão também de enfrentar o padrão dólar. O próprio (Donald) Trump comentou uma vez que o fim do padrão dólar é uma bomba nuclear contra os Estados Unidos.

Qual é a vantagem que os Estados Unidos têm em manter o dólar como moeda global? O país pode rodar moeda à vontade porque existe uma demanda muito grande de dólar no mundo. Todos os países do mundo compram dólar dentro desse padrão.

No momento em que passa a não ser mais uma moeda global, se eles rodarem dólar, vai existir muita moeda num cenário de redução da demanda. O processo inflacionário interno explode.

Com essa vantagem estratégica de imprimir dólar, os Estados Unidos podem se endividar, pode investir internamente com muito mais facilidade, sem tanta preocupação da espiral inflacionária.

A sociedade do Irã é persa, é descendente dos persas? Quem são os iranianos?

Essa questão ajuda a desfazer um clichê. O Irã não é um sinônimo simples de persa. Etnicamente, os persas são maioria. Têm enorme peso histórico, cultural e linguístico, especialmente porque o persa moderno, o farsi, é uma língua oficial, é tradição estatal iraniana. E essa tradição foi profundamente moldada por essa herança.

Mas, os iranianos são mais amplos do que os persas. O país é multiétnico, tem a presença de curdos, árabes, turcomenos, vários grupos étnicos. A sociedade iraniana continua profundamente marcada pela matriz persa, mas não é exclusivamente persa. O persa é uma identidade etnolinguística, uma identidade civilizacional central do Irã.

Já o iraniano é uma identidade nacional e estatal mais abrangente, que incorpora os vários povos sobre uma mesma moldura política.

O Irã combina uma forte narrativa nacional histórica com uma composição interna plural. Essa pluralidade não elimina a unidade do Estado, mas torna o Estado muito mais amplo do ponto de vista identitário. 

Quais tipos de proximidades existem entre o Brasil e o Irã?

Existe bastante proximidade. Mas, não podem ser romantizadas.  Brasil e Irã são países com diferentes culturas, histórias políticas, formas de Estado, inserção regional.

Mas, existem convergências importantes. Eu diria que a primeira é a convergência diplomática. Ambos os países valorizam, em graus e sentidos diferentes, a ideia de autonomia frente às grandes potências. Defendem a margem de manobra no sistema internacional, ou seja, um mundo muito mais, multipolar.

Uma segunda proximidade é uma convergência do ponto de vista econômico. O comércio bilateral é importante. O intercâmbio comercial em 2025 ficou bastante significativo. O Irã foi um destino importante para as exportações brasileiras. Isso mostra que, apesar das sanções de turbulência geopolítica, existe complementariedade material entre os dois países.

A terceira proximidade é mais do ponto de vista geopolítico do que comercial. Tanto o Brasil quanto Irã, cada um ao seu modo, rejeitam a ideia de um mundo totalmente subordinado a uma única potência.

Claro que isso não apaga as diferenças entre os países. O Brasil atua por via diplomática multilateral e regional. Já o Irã, na região, atua num território muito mais complexo e militarizado, tendo outras preocupações, por vezes sobre a lógica da dissuasão e do confronto.

Eu diria que há pontos de contato entre os dois países no que tange à autonomia, ao comércio e à crítica à hierarquia internacional, ao mundo unipolar.

Israel costuma declarar que o Irã é uma ameaça à própria existência do Estado israelense. O Irã sofre algum risco nesse sentido, de eliminação da Guarda Revolucionária ou do próprio Estado iraniano?

Primeiro, eu não vejo dessa forma. O Irã não é uma ameaça a nenhum país da região. Sempre houve esse discurso de que o Irã estava desenvolvendo tecnologia nuclear. Mesmo que desenvolvesse, seria para fins dissuasórios, em defesa do país, não para atacar outro Estado. 

Não tem cabimento o Irã jogar uma bomba nuclear em Israel, sendo que os vizinhos de Israel muito próximos são aliados estratégicos do Irã. Há, por exemplo, aliados no Líbano, no Iêmen, na Síria, no Iraque. Lançar uma bomba nuclear naquela região seria uma tragédia humanitária generalizada.

Essa questão nuclear é mais uma questão de debate político para sustentar um conflito. Até porque, do meu ponto de vista, esse governo do (Benjamin) Netanyahu tem infringido várias regras do direito internacional. É um governo que se sustenta a partir dos conflitos. Se o conflito termina, ele corre o risco de cair. 

Então, eu acho impossível que esse conflito seja o fim de uma civilização, de uma sociedade iraniana, pautada em milênios de uma civilização acostumada com conflitos. 

Quando o Trump disse que poderia ser o fim de uma civilização, foi uma das frases mais fortes que eu já ouvi como especialista.  Realmente, só se elimina uma civilização através de ataques nucleares, que seriam catastróficos para o mundo. A gente teria, realmente, o início de uma guerra mundial.

A guerra atual entre Estados Unidos e Israel contra o Irã era inevitável, tendo em vista o processo histórico entre os países naquela região, ou existe um fator de “pessoalidade”, por conta da personalidade do Trump, que conduziu a situação para o conflito?

Tem muito da personalidade dele e do contexto que a gente vive, de um mundo em transição, de um Ocidente em decadência, dentro de um cenário de guerra cultural, onde a extrema direita mundial busca atuar de forma que a gente, às vezes, fica incrédulo, por agir sem muita estratégia pautada no que está previsto nas regras do sistema internacional.

O apoio do Trump a Israel é automático. Mas, existem outras questões culturais e até mesmo internas. O Trump está numa situação bem difícil, de acusações complicadas que podem resultar na prisão dele. Muitas vezes, ele utiliza essas estratégias para tentar trazer um debate para uma escala mais ampla.

Então, essa parceria reúne alguns elementos, como o da parceria estratégica, que já existe, mas também as questões da guerra cultural, da presença da extrema direita no mundo, da mudança da ordem internacional, em que há uma transição para uma ordem mais multipolar pautada, principalmente, em questões de perda de poder geoeconômico, geoestratégico e geopolíticos dos Estados Unidos no mundo. E também as questões que Trump e Netanyahu respondem internamente em seus países. 

Existe um tópico fundamental para este tema que você gostaria de abordar, mas eu não cheguei a perguntar? O que seria?

Acho que é importante frisar que o Irã não pode ser lido apenas como um regime e nem só como uma ameaça global. O país é composto por uma civilização histórica, com um Estado estratégico, um território muito importante para a geopolítica mundial.

Quem ignora isso, não entende o país, a guerra e nem o destino geoeconômico e geopolítico mundial. O erro mais comum é achar que o Irã é composto só por problemas ideológicos. Na verdade, ele é uma peça territorial e histórica central no tabuleiro eurasiático e energético do século XXI.

Qual é a sua análise do posicionamento do Brasil diante da guerra?

O Brasil está sofrendo os impactos diretos, não só em função da questão internacional, mas também do que foi feito nos últimos anos, na gestão passada, como em relação à venda das distribuidoras de petróleo.

Há, inclusive, um debate sobre a nacionalização novamente dessas distribuidoras, para o país ter mais autonomia sobre o preço da gasolina, o que é decisivo para o controle inflacionário.

Mas o Brasil também enfrenta questões bastante complexas, que envolvem um debate bastante polarizado sobre o nosso destino político. Estão aí dois modelos de país.

A meu ver, um modelo de um projeto mais autônomo, pautado numa perspectiva mais desenvolvimentista da economia, com a geração de emprego e a independência em relação a diversos pontos críticos que o mundo vive.

O outro modelo se enquadra numa perspectiva mais subserviente para um ator que tem perdido poder no sistema internacional.

Nas relações internacionais, a gente costuma falar sobre os paradigmas da política externa. Um deles é chamado de universalista ou globalista, que é a presença no mundo pautada na diversificação de parcerias. É o que o Brasil vive hoje. O Brasil é um global player, uma potência regional.

Um outro paradigma é o do americanista ideológico. Aqui, a subserviência aos interesses dos atores externos é mais importante do que os interesses nacionais.

A gente está nesse dilema. Vamos ver o que vai acontecer nos próximos meses. Eu espero que o Brasil continue sendo um ator importante no cenário internacional e consiga alcançar a autonomia e manter a soberania, principalmente sobre os recursos naturais e a indústria.

A gente desenvolveu e está colhendo os frutos do que foi realizado há mais dez anos, como em relação à produção do Gripen como um caça nacional, em parceria com a Suécia. Tem também o submarino nuclear, que é importante para o controle do Atlântico Sul.

E agora a gente tem a questão das terras raras. O que a gente vai fazer com isso? As terras raras são o petróleo do século XXI. É o que sustenta a indústria de ponta, é o que dá base para a produção de eletrocondutores, tão importantes para as indústrias mais desenvolvidas, desde baterias até os satélites, equipamentos militares, energia solar, enfim.

A gente tem vários desafios domésticos pela frente. Espero que consigamos manter essa postura mais soberana de país.

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Bruno Lara é Jornalista, pós-doutor em Ciência da Informação (UnB), escritor, brincador de poesia, articulista do Jornal de Brasília, autor dos livros “Presente em Poesia”, “Manhã de Domingo”, “Leve amor profundo” e “Gabi e Bacana: amor, família e diálogo”.