
(Foto: Jimmy Elizarraras/Pexels)
Isabel Ayuso, figura de destaque da extrema-direita no Partido Popular espanhol e presidente da Comunidade de Madrid, tinha programado uma semana repleta de compromissos no México, de 3 a 12 de maio.
Para reforçar a sua amizade com os partidos PAN (Partido de Ação Nacional) e PRI (Partido da Revolução Institucional). Não partilha com eles sólidas convicções neoliberais em matéria de economia, uma repulsa comum pelos estatistas e outros socialistas ou afins, uma simpatia pela opositora venezuelana, Maria Corina Machado? O seu regresso precipitado ao ponto de partida, em Madrid, a 9 de maio, suscita interrogações. Merece reflexão sobre o estado das cooperação entre as extrema direitas ibero-americanas.
Os artigos, livros e ensaios sobre a extrema direita ibero-americana apresentam, de fato, esta família política como um bloco ideológico. Na maioria das vezes, as publicações destacam o conservadorismo social dos programas, os seus traços fascistas, o perfil carismático e populista dos líderes, todos do sexo masculino, Javier Milei, Nayib Bukele e, no caso feminino, Isabel Ayuso. O elemento probatório que atesta a evidência das suas semelhanças seriam as suas numerosas concertações. Em abril, num exemplo recente, Isabel Ayuso organizou uma operação espetacular na Plaza del Sol, em Madrid, com Maria Corina Machado. No mesmo dia, Pedro Sánchez, presidente do Governo espanhol, debatia em Barcelona com os seus homólogos brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, colombiano, Gustavo Petro, uruguaio, Yamandu Orsi e… Claudia Sheinbaum, presidente do México. Todas estas manifestações confirmam o ditado segundo o qual “quem se assemelha, da direita à esquerda, junta-se”.
Sabemos como estão as coisas no lado progressista. Mas por que razão a direita e a extrema direita não seriam também vítimas de divisões internas? A vontade dos cidadãos e dos ativistas de combater a extrema direita, aliada ao efeito polarizador das redes sociais, talvez conduza a acentuar a unidade das suas manifestações. A viagem “quixotesca” realizada no México pela presidente da região de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, figura proeminente do Partido Popular, no início de maio, não confirma essa realidade?
A viagem abreviada de Isabel Díaz Ayuso ao México
Isabel Díaz Ayuso é uma das figuras da extrema-direita ibero-americana mais mediáticas. Esta jovem espanhola é membro do Partido Popular, o PP, formação criada nos primeiros dias da transição democrática espanhola por Manuel Fraga, antigo ministro do Caudillo (Francisco Franco). Ela encarna a ala mais à direita deste partido. A sua radicalidade leva-a a opor-se sistematicamente ao presidente socialista, Pedro Sánchez. Em nome das liberdades, recusou-se a associar-se às campanhas de vacinação contra a Covid-19. Defende as escolas “livres”. É uma porta-voz convicta do anticastrismo e do antichavismo, que associa ao socialismo espanhol e ao Morena [1], no México. Considera positiva a ação colonial da Espanha que, dos séculos XVI ao XVIII, teria civilizado e cristianizado os povos “americanos”, criado um império, uma hispanidade que mudou “a história do Ocidente”.
Eram esses valores que ela pretendia celebrar com os seus homólogos mexicanos do PAN (Partido de Ação Nacional) algumas semanas após a visita da presidente mexicana Claudia Sheinbaum a Barcelona, visita que permitiu amenizar as tensões de um diferendo bilateral em matéria de memória. Em 2021, Andrés Manuel López Obrador, então presidente do país asteca, enviou uma carta ao rei de Espanha exigindo que este pedisse desculpa por ter colonizado os astecas e os maias. No início de maio, o diferendo estava em vias de ser resolvido. Isabel Ayuso, durante a sua visita, fez de tudo para o reativar. A sua primeira parada na capital mexicana, no domingo, 3 de maio, foi de caráter religioso. Ela assistiu, na basílica dedicada à Virgem de Guadalupe, a uma missa celebrada por Carlos Aguiar, cardeal arcebispo. Em seguida, prestou, no Frontón de México, uma homenagem vibrante ao “conquistador” de Tenochtitlán, Hernán Cortés, iniciador, juntamente com a sua intérprete, La Malinche, de uma família cultural e espiritual que reuniu as Espanhas transatlânticas, no decurso de uma “Celebração da Evangelização e do Mestiçagem no México”.
O papel positivo da colonização é universalmente valorizado pelas forças de extrema direita e, frequentemente, pelas forças de direita das antigas potências coloniais. Estas são, por vezes, acompanhadas por alguns intelectuais que lhes servem de apoio. O politólogo argentino Marcelo Gullo publicou um livro, que foi um sucesso de vendas na Espanha em 2021, Madre Patria (Pátria-Mãe), seguido de outras obras do mesmo tipo, Nada por lo que pedir perdón (Nenhuma razão para pedir perdão) e Lo que América le debe a España (O que a América deve à Espanha), documentando os “lados positivos” da colonização. A editora espanhola tinha suspendido a publicação do manuscrito na América Latina. A chegada de Javier Milei à Casa Rosada, a presidência argentina, “libertou” a obra. Esta foi apresentada publicamente no passado dia 7 de maio na Feira do Livro de Buenos Aires.
A condenação da colonização, onde quer que seja, é um denominador quase comum às forças de esquerda de Espanha, da Europa, da África, da Ásia e das Américas. As nostalgias imperiais estão no campo oposto. Mas é preciso saber apresentar as justificativas de acordo com os públicos. Prisioneira dos seus preconceitos, supostamente validados pela sua difusão massiva por meios de comunicação complacentes, encorajada por alguns « cipaios » ávidos de publicação, Isabel Ayuso ultrapassou a linha vermelha do nacionalismo mexicano.
As suas declarações ibero-imperiais foram proferidas em 5 de maio, data que não poderia ter sido mais mal escolhida. No dia 5 de maio o México celebra a vitória militar obtida em Puebla, em 1862, sobre os invasores franceses. Os seus amigos do PAN tinham, no entanto, assinalado num comunicado oficial do partido, datado de 5 de maio, que recebiam uma amiga que vinha “deixando a ideologia de lado”, para expor “o que é bom e pode ser copiado na Comunidade de Madrid”. Os governadores “panistas”, que a receberam em Aguascalientes, teriam posto ênfase, segundo Maru Campos, responsável pelo executivo de Chihuahua, na cooperação nas áreas da cultura, do turismo e do desporto.
No dia seguinte à saída precipitada de Isabel Ayuso, cujas declarações colonialistas suscitaram uma onda de repúdio, a tesoureira do PAN, Itzel Arellano, em resposta a um jornalista, fez questão de esclarecer a situação, afirmando que Isabel Ayuso não tinha sido convidada pelo PAN. O Partido Popular, na Espanha, também se distinguiu por uma tomada de distância, um silêncio total, quebrado por alguns jornalistas amigos que, no diário de direita El Mundo, destacaram a “Noche Triste” [2] de Isabel Ayuso.
O PAN, no México, e o PP, na Espanha, privilegiaram a consolidação de pontes libertárias em matéria de economia, antiestatalistas, ao estilo de Milei. A presidente madrilena foi convidada por uma das maiores fortunas do México, Ricardo Salinas Pliego. Ele desejava vê-la proferir um discurso “libertário” na universidade que lhe pertence, a “Universidade da Liberdade”. Efetivamente, nesse contexto, ela expressou todo o mal que pensa em relação aos “líderes do socialismo que procuram coletivizar-nos”. Mas a partitura não seguiu a tonalidade inicial. A página que Isabel Ayuso abriu a seguir exaltou o fusionismo imperial e católico hispânico, atribuiu a Hernán Cortés a criação do México e atacou frontalmente o narcoterrorismo e a narcoditadura do México de Claudia Sheinbaum.
Tudo isto terá, sem dúvida, entusiasmado os fãs mais fervorosos das redes sociais radicalmente de direita. Mas o PAN, no México, e o PP, em Espanha, partidos que aspiram a governar, manifestamente não apreciaram os discursos que desconstruíam as alianças transatlânticas, antissociais e economicamente libertárias. Conclusão: a extrema-direita, ela também, pratica a convergência como um oxímoro.
Notas
Texto originalmente publicado em francês, em 20 de maio de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “ Isabel Ayuso au Mexique, les ratés d’un « mano a mano » transatlantique d’extrême-droite”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/133585 . Tradução de Ricardo José Liani Filho e revisão de Andrei Cezar da Silva.
[1] Movimento de Regeneração Nacional, partido da presidente Claudia Sheinbaum.
[2] Nome dado à derrota sofrida por Hernán Cortés na noite de 30 de junho de 1520 perante as tropas do Império Asteca
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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris, e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014), e colabora frequentemente com o Observatório da Imprensa, em parceria com o LABOR – Laboratório de Estudos do Discurso e com o LIRE – Laboratório de Estudos da Leitura, ambos da UFSCar – Universidade Federal de São Carlos.
