Sexta-feira, 5 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1391

Da França, um novo capítulo no debate antirracista

(Foto: Polina/Pexels)

Gosto de pensar que apenas uma cena tem a capacidade de resumir o que vem ocorrendo na França em 2026. Na noite de 15 de março, Bally Bagayoko acabava de ser eleito prefeito de Saint-Denis no primeiro turno, com mais de 50% dos votos. Saint-Denis não é qualquer cidade: é a segunda maior da Île-de-France, depois de Paris. É a cidade da basílica onde estão sepultados os reis da França. Ao ser entrevistado ao vivo pela emissora LCI, o jornalista Darius Rochebin fez questão de lembrar esse detalhe. Bagayoko, então, completou a frase com uma expressão poética e espontânea: “a cidade dos reis e do povo vivo”.

A frase mal se ouvia no barulho do “ao vivo”. Não importou. Em poucas horas, canais ligados à extrema direita e redes sociais espalharam uma versão fabricada: o novo prefeito teria dito “a cidade dos negros”. Nas 48 horas seguintes, sem que nenhum grande veículo se desse ao trabalho de verificar o áudio original, a desinformação percorreu os estúdios da CNews, da RMC e do France 5. Só quando a jornalista Apolline de Malherbe perguntou diretamente a Bagayoko, ao vivo, o que ele havia dito – e ele respondeu, com calma e precisão – a mentira começou a desabar. O jornal Libération reconstituiu depois, passo a passo, como a extrema direita havia fabricado a fake news e como a imprensa mainstream a havia amplificado sem questionar.

Eu acompanho esse processo de perto. Além de jornalista, sou pesquisador brasileiro e realizo meu doutorado em cotutela entre a UERJ e a Université Paris 8, que fica, não por acaso, em Saint-Denis. Minha pesquisa acompanha as mobilizações antirracistas no Brasil e na França entre 2019 e 2026. E o que as eleições municipais de março deste ano revelaram vai muito além de um episódio de desinformação. Elas marcam uma virada de chave no debate público francês sobre raça, com consequências que, acredito, merecem ser acompanhadas de perto, inclusive do Brasil.

O que mudou em março de 2026

As eleições municipais francesas elegem prefeitos e vereadores. Em março deste ano, algo inédito aconteceu em cidades da chamada “ceinture rouge”, o cinturão operário ao redor de Paris, formado por cidades historicamente populares como Saint-Denis, La Courneuve, Mantes-la-Jolie e Le Blanc-Mesnil. Pela primeira vez, essas cidades passaram a ser governadas por prefeitos negros e por pessoas racializadas, que se tornaram chefes do executivo municipal.

O sociólogo Julien Talpin, que estuda há anos a politização das classes populares nos bairros de periferia, foi um dos primeiros a observar que esses eleitos têm trajetórias longas de enraizamento local, como a participação em associações de moradores, no esporte comunitário, no movimento estudantil e no trabalho de base. Bally Bagayoko, por exemplo, é vereador em Saint-Denis desde 2001. Foi adjunto em duas gestões comunistas. Foi treinador do time de basquete da cidade. Entrou para o LFI (La France Insoumise) em 2017 e perdeu as eleições de 2020 em terceiro lugar. Bagayoko levou seis anos para construir a maioria que o elegeu em 2026.

A liberação da fala racista

O que se percebe, segundo Julien Talpin, é a “liberação de uma fala racista”. O que se viu nos dias e semanas seguintes às eleições de março foi uma avalanche de ataques que incluíram comparações com “a família dos grandes primatas”, referências a “tribos primitivas” e a “machos dominantes”, expressões veiculadas não apenas em fóruns obscuros da internet, mas também nos estúdios da CNews, canal que ocupa, no debate público francês, um espaço aproximado ao da extrema direita. As vitórias da esquerda em cidades populares foram descritas, ao vivo em horário nobre, como “pequenas repúblicas etno-soviéticas” e como prova de que “a esquerda fabrica pobres para ganhar eleições”.

Esta não foi a primeira vez que lideranças negras francesas foram alvo de racismo público. No país, a ex-ministra da Justiça Christiane Taubira e a deputada Danièle Obono já passaram por isso. Mas há algo qualitativamente diferente em 2026. A intensidade é maior, a velocidade é maior e, o que talvez seja mais revelador, o constrangimento é menor. O racismo circula agora com menos mediação, menos eufemismo, menos necessidade de disfarce. Algo que antes exigia um subtexto passou a ser dito com todas as letras.

Para quem pesquisa esse campo nos dois lados do Atlântico, o fenômeno tem uma familiaridade perturbadora. No Brasil, foi entre 2018 e 2020 que esse mesmo processo de desinibição do discurso de ódio se consolidou institucionalmente. A diferença é que, na França, ele ocorre num contexto em que a tradição republicana sempre insistiu na ideia de que raça não existe como categoria política, o que tornava o racismo, ao mesmo tempo, mais difuso e mais difícil de nomear.

A República e o espelho que ela recusa

É preciso compreender que há, na França, um impasse conceitual que qualquer pesquisador estrangeiro do tema nota rapidamente: o universalismo republicano com a ideia de que todos os cidadãos são iguais perante a lei, independentemente de origem ou cor, foi historicamente usado para recusar a própria possibilidade de nomear o racismo como estrutura. Nesse sentido, falar em “eleitores negros”, em “prefeitos negros”, em “representação racial” é, para uma parte significativa da classe política e intelectual francesa, trair os princípios da República. É como se a raça não pudesse ser reconhecida, pois reconhecê-la seria instituí-la. O problema é que o racismo continuou existindo enquanto o debate sobre ele era proibido de usar as palavras certas.

O que as eleições municipais de 2026 fizeram foi forçar esse espelho na cara da República. E a República não gostou do que viu. A socióloga Solène Brun, pesquisadora do CNRS, escreveu no Le Monde, em abril deste ano, uma frase que resume esse paradoxo com precisão: o fato de alguns prefeitos se parecerem agora com seus administrados não diz nada sobre o estado do racismo na sociedade francesa. A representação simbólica não é o mesmo que a transformação estrutural, e celebrá-la como se fosse pode funcionar como anestesia, como se a eleição de Bagayoko em Saint-Denis resolvesse o problema do racismo na França da mesma forma que a eleição de Obama foi usada para tentar decretar o fim do racismo nos Estados Unidos.

Marie-Hélène Bacqué, urbanista e pesquisadora da vida nas periferias, foi direta ao ser entrevistada pela revista Alternatives Économiques: “uma parte da elite social e política simplesmente não suporta a presença de eleitos racializados”. Não é uma questão de programa político. Não é uma questão de competência. É uma questão de presença.

As ruas responderam

O que talvez seja mais significativo para quem olha esse processo com atenção é que a reação racista não ficou sem resposta. No início de abril, após semanas de ataques, milhares de pessoas foram às ruas de Saint-Denis num ato convocado por uma coalizão incomum: associações antirracistas, sindicatos, partidos de esquerda, organizações de moradores. Não era uma reunião partidária. Era um sinal de que algo diferente estava se organizando.

Ao mesmo tempo, três parlamentares, Danièle Obono, Carlos Martens Bilongo e o próprio Bagayoko, registraram queixa criminal após a descoberta de pichações racistas numa cidade do sudoeste da França, com seus nomes seguidos da palavra “Remigration”, termo utilizado pela extrema direita europeia para designar a expulsão em massa de imigrantes e seus descendentes. Os denunciantes também anunciaram a intenção de acionar o relator especial da ONU sobre racismo. O que poderia ser tratado como um fato policial local foi elevado a um problema de direitos humanos de escala internacional.

Há, nesse gesto, uma consciência política que merece atenção. Eleitos que poderiam se limitar a administrar suas cidades estão escolhendo fazer do mandato um instrumento de visibilidade para um problema sistêmico. Bagayoko declarou publicamente que pretende estar presente no “grande debate nacional” e que a campanha presidencial de 2027 “deve partir de Saint-Denis”. Isso não é a fala de um prefeito local. É a fala de alguém que entende que o que aconteceu em março de 2026 foi algo maior do que uma eleição municipal.

Por que isso importa para além da França

Observar esses fatos sob a perspectiva brasileira tem um valor particular. O Brasil viveu, entre 2018 e 2022, um experimento intensivo sobre o que acontece quando o discurso de ódio encontra proteção institucional. Sabemos o que vem a seguir quando ninguém freia no tempo. Mas o Brasil também viveu, nos últimos anos, a experiência de que esse processo não é irreversível e de que mobilizações consistentes, ancoragem territorial e construção de maioria são capazes de produzir viradas.

O que os bairros populares de Saint-Denis, La Courneuve e Mantes-la-Jolie fizeram em março de 2026 tem algo desse espírito. Não é uma revolução. É algo mais lento e, talvez por isso, mais duradouro: a construção paciente de um poder que, quando chega, não pede licença.

Não é pouca coisa. Em países onde o debate sobre raça esteve, durante décadas, sequestrado por um vocabulário que recusava nomear o problema, o simples fato de que ele agora acontece em público, com toda a sua violência, mas também com toda a sua força, é, em si mesmo, um movimento. Quem estuda esses processos sabe que os momentos de crise também são momentos de visibilidade.

LFI — La France Insoumise (A França Insubmissa): partido de esquerda radical fundado em 2016 por Jean-Luc Mélenchon. Defende a ruptura com as instituições da Quinta República e tem forte implantação nos bairros populares e nas periferias das grandes cidades. Bally Bagayoko e vários dos novos prefeitos racializados eleitos em 2026 são filiados ou aliados do LFI.

PCF — Parti Communiste Français (Partido Comunista Francês): um dos partidos mais antigos da esquerda francesa, com raízes históricas profundas na “ceinture rouge” — o cinturão operário ao redor de Paris. Governou Saint-Denis e outras cidades da região por décadas. Nas eleições de 2026, aliou-se ao LFI na lista vencedora em Saint-Denis.

PS — Parti Socialiste (Partido Socialista): equivalente aproximado ao PT em termos de posição no espectro político, embora com uma trajetória muito diferente. Governava Saint-Denis antes da vitória de Bagayoko. Integra o campo da esquerda, mas disputou com o LFI o controle das principais cidades populares em 2026.

CNews: canal de televisão a cabo francês de grande audiência, controlado pelo empresário Vincent Bolloré. É frequentemente comparado à Fox News americana pelo perfil editorial: plataforma privilegiada para vozes de extrema direita, comentaristas que normalizam o discurso anti-imigração e enquadramentos racistas do debate político. Foi um dos principais vetores de amplificação dos ataques contra os novos prefeitos em 2026.

LDH — Ligue des Droits de l’Homme (Liga dos Direitos Humanos): uma das organizações de defesa de direitos civis mais antigas da França, fundada em 1898 durante o caso Dreyfus. Equivalente aproximado à OAB em termos de prestígio institucional na defesa de direitos, embora seja uma organização da sociedade civil. Foi signatária do comunicado que convocou o ato de 4 de abril em Saint-Denis.

MRAP — Mouvement contre le Racisme et pour l’Amitié entre les Peuples (Movimento contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos): organização antirracista francesa fundada em 1949, uma das mais atuantes na denúncia de discriminações e crimes de ódio.

SOS Racisme: organização antirracista fundada em 1984, conhecida pelo slogan “Touche pas à mon pote” (“Não mexa no meu amigo”). Tem presença forte entre jovens e foi um dos primeiros movimentos a popularizar o debate sobre racismo cotidiano na França.

CNRS — Centre National de la Recherche Scientifique: o principal organismo público de pesquisa científica da França, equivalente ao CNPq no Brasil. Pesquisadores “chargés de recherche” do CNRS, como Solène Brun, têm vínculo permanente com a instituição e gozam de reconhecimento acadêmico consolidado.

Île-de-France: região administrativa que engloba Paris e os departamentos ao seu redor, incluindo o Seine-Saint-Denis — onde ficam Saint-Denis, La Courneuve e outras cidades citadas neste artigo. É a região mais populosa e economicamente mais relevante da França, e também a mais diversa do ponto de vista étnico-racial.

Seine-Saint-Denis: departamento situado ao norte de Paris, coloquialmente conhecido como “93” (seu número de código). É o departamento mais pobre da Île-de-France e um dos mais diversos da França, com forte presença de populações imigrantes e seus descendentes. Tem sido, historicamente, um laboratório tanto de políticas sociais progressistas quanto de disputas sobre identidade nacional e integração.

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Diego Francisco é jornalista e doutorando em Sociologia pela UERJ e pela Université Paris 8, onde pesquisa as mobilizações antirracistas no Brasil e na França entre 2019 e 2026.