Quinta-feira, 2 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1395

Abelardo de la Espriella, presidente da Colômbia, “Defensor da Pátria”, Tio Patinhas e Tio Sam

Colômbia (Foto: Daniel Vélez/Pexels)

Abelardo de la Espriella, um quase desconhecido, sem histórico político, fundador de um movimento de extrema direita, “Os Defensores da Pátria”, criado em 5 de agosto de 2024, que se candidatou em 17 de julho de 2025 e foi eleito presidente da Colômbia em 21 de junho de 2026. Como entender a irrupção vitoriosa de um desconhecido que ninguém havia previsto? Quem é ele? De onde ele surgiu?

No final das contas, uma certeza: depois de ter reunido todas as forças da direita – do uribismo aos conservadores e liberais –, ele superou a esquerda por uma diferença mínima, deixando fora da disputa Ivan Cepeda, representante do “Pacto Histórico”, embora a diferença tenha sido de menos de um ponto. O derrotado Ivan Cepeda Castro, deputado de 2010 a 2014 e senador de 2014 a 2025, obteve 12.708.712 votos e 48,7% dos votos válidos. O vencedor, Abelardo de la Espriella, conquistou 12.959.542 votos, ou 49,66% dos votos válidos.

O mais surpreendente é a dupla vitória conquistada por esse político improvisado em poucos meses. Ele conseguiu vencer, derrotando um adversário progressista que era dado como vencedor há um ano. E, ao mesmo tempo, obrigou as diversas facções da direita e do centro a se unirem à sua bandeira branca. O resultado é ainda mais desconcertante, pois Abelardo de la Espriella não tinha nenhum histórico político. O método teve grande influência: o dinheiro jorrou em abundância e não foi escondido, muito pelo contrário. O candidato fez campanha em seu jato particular. Argumentos simplistas e insultos demonizadores proliferaram. Ele garantiu o espetáculo, transformando a eleição presidencial em uma final de futebol. Tanto a direita quanto a esquerda foram pegos de surpresa. A direita lhe deu carta branca. A esquerda foi surpreendida pelo uso massivo da emoção típica da torcida, da agressividade e da propaganda.

Em onze meses de campanha frenética, ele impôs uma política de espetáculo, com um tom machista, militar e esportivo, refletindo uma postura totalmente voltada para a ordem, a segurança e a pátria. O estilo foi ostentoso e seu eco digital, no TikTok, com Abelardo com o dedo na costura da calça, Abelardo com uma mão ora no coração, ao estilo Trump, ora em pose marcial na testa, saudando a bandeira. Sorriso forçado, em qualquer ocasião e diante de qualquer público, com camisa de jogador de futebol nas costas, definido como um “Tigre” de discurso rugidor, em fluxo volúvel, como o povo da costa (os costeños), ele inundou as telas com declarações que demonizavam seu adversário e o presidente em exercício. Deus esteve presente. Renegando suas declarações de ateu militante, ele multiplicou os sinais da cruz, as genuflexões e a defesa de um código moral conservador e tradicionalista. Tudo isso enquanto evitava o confronto direto, debate argumento contra-argumento, programa contra programa.

Segundo o La Silla Vacia, um veículo de imprensa digital, sua campanha presidencial foi elaborada pela consultoria Estrategia & Poder, cuja linha de trabalho teria sido a seguinte fórmula cínica: “quem ganha não é quem diz a verdade, mas quem conta a melhor história” [1].

Em sua campanha eleitoral, marcada por conversas de bar, ele enumerou as propostas que serão colocadas em prática nos 90 dias seguintes à sua eleição: o início da construção de dez prisões no estilo Bukele, a suspensão de qualquer diálogo com grupos armados ilegais, o bombardeio de rebeldes e narcotraficantes e a retomada das pulverizações químicas nas plantações de drogas. No dia seguinte à sua vitória, ele admitiu que não resolveria as questões de insegurança em 90 dias, mas que muito seria feito. E esclareceu que as pulverizações nos campos de coca serão feitas com pesticidas orgânico. É verdade também que ele não conta com uma maioria clara no Congresso colombiano, eleito no último dia 8 de março.

Em torno desse discurso voltado para a segurança, que tinha como alvo Petro e sua suposta cumplicidade com os agitadores, ele lançou algumas propostas de política econômica e externa extraídas do repertório de Javier Milei, Nayib Bukele, Donald Trump e Benyamin Netanyahou. “Se eu for eleito”, disse ele, “a Colômbia terá um aliado preferencial: os Estados Unidos. O país restabelecerá as relações com Israel, suspensas desde a crise de Gaza. A Colômbia sairá da ONU, da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da Corte Interamericana de Direitos Humanos”. O investimento diplomático do país nessas instâncias, explicou ele, é pouco rentável, mas custa caro. Petro endividou a Colômbia; é preciso corrigir o rumo, como fazem Milei na Argentina e Kast no Chile. A redução do papel do Estado está, portanto, na ordem do dia. Os impostos serão reduzidos. A corrupção que teria sido praticada pelo presidente anterior, Gustavo Petro, será combatida, o que permitirá a entrada de recursos. Os bancos concederão empréstimos a 2%. A gestão das prisões a serem construídas será confiada a empresas privadas. Será dada prioridade novamente às energias fósseis.

Com recursos financeiros incomparáveis aos de Ivan Cepeda e confiante em poder impor sua retórica demagógica e sua agenda de segurança, Abelardo de la Espriella conseguiu ofuscar as conquistas econômicas e sociais do mandato de Petro: 3% de crescimento e redução da pobreza, graças, em particular, a um aumento de 23% no salário-mínimo. Ele conseguiu limitar a base de seus apoiadores: seus eleitores estão nas cidades, com exceção de Bogotá, onde a insegurança é relativamente baixa. Enquanto isso, Ivan Cepeda venceu nas zonas rurais, nas periferias do país, em territórios indígenas, afro-colombianos e camponeses – exatamente onde os grupos criminosos estão mais presentes. No entanto, é justamente nessas áreas que, segundo o anunciado por Abelardo de la Espriella, serão lançadas as bombas que supostamente “resolverão” a insegurança.

O paradoxo não para por aí. O Defensor da Pátria Abelardo de la Espriella possui, além do passaporte colombiano, os da Itália, desde 2023 e dos Estados Unidos, desde 2024. Ele reside alternadamente em Florença, onde tem negócios no setor agroalimentar, e em Miami, onde fica seu escritório de advocacia. Como observaram alguns juristas, como se pode alegar defender a Colômbia tendo jurado fidelidade à Constituição dos Estados Unidos? O novo cidadão norte-americano deve, de fato, renunciar “absoluta e inteiramente”, segundo a fórmula consagrada que deve pronunciar solenemente, “e abjurar toda lealdade e fidelidade a qualquer outro Estado ou soberania estrangeira”. O Conselho Nacional Eleitoral, ao qual o caso foi encaminhado, arquivou o processo sem dar seguimento, uma vez que a Constituição colombiana não se pronuncia sobre o assunto.

Além disso, sua campanha foi abertamente apoiada pelo partido no exterior. Já em seu primeiro comício, em 4 de novembro de 2005, marcaram presença o deputado espanhol de extrema direita Alvise Pérez [2] e Agustín Laje, intelectual da nova extrema direita e assessor intelectual de Javier Milei. Antes do primeiro turno, Daniel Noboa, presidente do Equador, prometeu a ele uma redução das tarifas alfandegárias sobre os produtos colombianos importados. Keiko Fujimori, provável presidente do Peru, enviou-lhe uma mensagem calorosa. Marco Rubio, o secretário de Estado americano, havia sinalizado que as relações com as autoridades de Bogotá não eram boas. Donald Trump se deu ao luxo de enviar um telegrama de parabéns e incentivo após o primeiro turno. Boris Johnson, figura do conservadorismo britânico e ex-primeiro-ministro, Georgia Meloni, presidente do Conselho de Ministros da Itália, o presidente argentino Javier Milei e o presidente chileno José Antonio Kast juntaram-se ao coro de elogios. Abelardo, muito provavelmente, passará a integrar o Escudo das Américas, coalizão criada por Donald Trump para os governantes latino-americanos que aceitam a servidão voluntária.

Os paradoxos não param por aí. Muitos dos clientes do escritório Abelardo de la Espriella, De la Espriella Lawyers Enterprise, têm um perfil que “não combina” com sua ambição de bancar o “manipula-pura”. Alguns dos clientes que consolidaram sua notoriedade estiveram envolvidos com o paramilitarismo de extrema direita. Para o bem ou para o mal, ele criou, em 2005, uma Fundação de Iniciativas pela Paz, aberta às vozes do paramilitarismo. Ele defendeu Alex Saab, testa-de-ferro do regime venezuelano de Nicolás Maduro, recentemente extraditado para os Estados Unidos por lavagem de dinheiro. Foi o advogado de David Murcia Guzmán, autor de um esquema fraudulento que prejudicou mais de 200 mil poupadores.

Mais um paradoxo para concluir: esse perfil de Tio Patinhas, que lhe rendeu o apelido de “ladrão dos ladrões”, acabou jogando a seu favor. Só se empresta aos ricos, dizem, àqueles que sabem fazer dinheiro com dinheiro e, segundo uma fórmula consagrada e nunca comprovada, um dinheiro que transborda para toda a população. Mas o tempo das brincadeiras de circo já acabou. O pão prometido estará à altura das expectativas? Os futuros prejudicados pela purga dos cofres públicos anunciada por Abelardo de la Espriella poderão cantar como a cigarra da fábula. O presidente gosta de música, ópera e programas de variedades. Seus “seguidores e amigos” vibraram durante a campanha ao ritmo do sonal “Pongale la raya al tigre” (Acrescente uma listra na pele do tigre). Não dá para ter certeza se vai dar certo. Então, restará a eles cantarolar por quatro anos “La vie en rose”, uma das faixas de seu último álbum, “Navegante”, lançado em 2022.

Notas

Texto publicado originalmente em francês, em 23 de junho de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Abelardo de la Espriella, président de Colombie ‘Défenseur de la Patrie’, Oncle Picsou et Uncle Sam”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/134385 . Tradução de Joseli Machado da Silva e revisão de Andrei Cezar da Silva. 

1- Juanita Leon, Jerson Ortiz, Ever Mejia, “Abelardo de la Espriella, una marca importada para la época”, La Silla Vacia, 29 de maio de 2026.

2- Deputado do partido SALF (Se Acabo la Fiesta – A Festa Acabou).

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Jean-Jacques Kourliandsky é  Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).