
(Foto: Gonzalo 8a/Pexels)
Quando se fala de Donald Trump, o debate costuma concentrar-se em suas falas, seus gestos e suas decisões mais polêmicas. Pouco espaço é dedicado à compreensão da estratégia política que orienta essas ações. O noticiário acompanha cada movimento do presidente norte-americano, mas raramente oferece ao público uma leitura geopolítica capaz de explicar a lógica que articula esses acontecimentos.
É como uma partida de War em que apenas um dos jogadores conhece todas as regras para se movimentar no tabuleiro, inventando, inclusive, movimentos. A sucessão de declarações, tarifas, ameaças diplomáticas e mudanças de posição parece caótica, mas produz efeitos concretos na reorganização das relações internacionais. Talvez o aspecto mais difícil de compreender seja justamente este: para Trump, o tabuleiro não se restringe à diplomacia tradicional. Economia, tecnologia, organismos multilaterais, universidades, redes sociais e até o esporte podem tornar-se espaços de disputa política.
Um episódio ocorrido durante a Copa do Mundo de 2026 ajuda a ilustrar essa lógica. Trump telefonou ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, pedindo a revisão da suspensão do atacante norte-americano Folarin Balogun. Dias depois, a punição foi revertida, permitindo que o jogador atuasse na partida seguinte. Não há evidências de interferência sobre a arbitragem ou sobre o resultado da partida, mas o episódio evidencia uma característica recorrente de sua atuação: a disposição para tensionar instituições e testar os limites de sua autonomia quando interesses norte-americanos estão em jogo. Mesmo um evento esportivo passa a integrar uma estratégia mais ampla de projeção de poder.
Essa dinâmica torna-se ainda mais evidente quando observamos a relação dos Estados Unidos com o sistema internacional construído após a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, os EUA tiveram papel central na criação da Organização das Nações Unidas e na estruturação do Conselho de Segurança, do qual são um dos cinco membros permanentes com poder de veto. O paradoxo contemporâneo é que, em diferentes momentos, o próprio governo norte-americano passou a questionar ou enfraquecer instituições multilaterais quando estas são percebidas como obstáculos aos seus interesses estratégicos.
Outro aspecto revelador é a aparente contradição entre o ceticismo em relação às políticas climáticas e o crescente interesse por áreas cuja importância geopolítica aumenta justamente em razão das mudanças climáticas. O degelo do Ártico, por exemplo, abre novas rotas marítimas e desperta disputas por recursos naturais e posições estratégicas, como demonstra o interesse recorrente pela Groenlândia.
Nesse contexto, ganha relevância uma declaração do secretário de Estado Marco Rubio: “Somos chamados a criar um mundo livre a partir do caos.” A frase suscita perguntas inevitáveis: livre aos olhos de quem? Sob quais regras? E quem define esse conceito de liberdade?
As disputas comerciais, a pressão sobre organismos internacionais, as tensões em torno de regiões estratégicas e a competição com a China não podem ser compreendidas como episódios isolados. Elas fazem parte de uma reconfiguração mais ampla da ordem internacional. Diversos analistas alertam que esse cenário pode agravar crises humanitárias, ampliar conflitos armados e aumentar os fluxos de pessoas refugiadas –
fenômenos que dialogam diretamente com minha pesquisa.
Mais do que registrar declarações ou acompanhar a sucessão de acontecimentos, o jornalismo tem a responsabilidade de oferecer contexto. Seu papel não é apenas narrar os fatos, mas revelar as estratégias que os conectam. Sem essa perspectiva geopolítica, o público acompanha o movimento das peças, mas dificilmente compreende o jogo.
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Marina Lee Colbachini é Doutoranda do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Pesquisa relações entre geopolítica e refugiados. Professora de inglês e redação.
