Quarta-feira, 12 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1400

Esqueçam as BETs na Copa. O verdadeiro cassino é a cobertura da Casa Branca

(Imagem gerada pelo ChatGPT através de prompt do autor)

Donald Trump governa pelo Twitter. Ou melhor: pela sua plataforma The Truth Social. O padrão normal de qualquer Chefe de Estado é planejar, discutir, negociar, implementar e anunciar. Mas a gestão atual da Casa Branca não é normal. Primeiro anuncia e depois espera que o universo conspire a seu favor.

Durante a guerra com o Irã, nossa imprensa publicou todas as declarações de Trump como se fossem fatos. “Trump diz que guerra será curta”, “Trump diz que vai reabrir Hormuz”, “Trump diz que acordo de paz é irreversível”, “Trump diz que Israel terá que cumprir o acordo de paz”, Trump diz que vai cobrar pedágio em Hormuz” e por aí vai.

Muito pouco do que ele falou realmente se tornou realidade. Mas entre a bravata e o método de campanha permanente, nossos jornais têm feito pouco uma pergunta básica: alguém lucrou com isso? A resposta é “sim”. E não só na guerra.

Comecemos pelas tarifas. Depois de anunciar taxas completamente arbitrárias contra diversos países, Trump parecia estar de bom humor na manhã de 9 de abril de 2025 e postou em sua conta: “THIS IS A GREAT TIME TO BUY!!!”

Então, por volta das 13h, anunciou uma pausa de 90 dias em boa parte do que havia imposto. Coincidentemente, pouco antes do anúncio, houve uma concentração incomum de compras no mercado financeiro. Ao fim do dia, os ativos negociados haviam aumentado em dez vezes seu valor, gerando lucros estratosféricos para quem bancou a aposta.

No dia 23 de março de 2026, a profusão de declarações aparentemente desencontradas sobre o conflito no Irã também virou dinheiro no bolso. A Casa Branca anunciou logo cedo que tratativas poderiam levar a “uma resolução completa e total” das hostilidades no Oriente Médio. Como se sabe, nada mudou. Quer dizer, quase nada. Minutos antes do “tuíte”, o mercado futuro de petróleo se movimentou de forma feroz, gerando uma bolada para quem “previu” o provável cessar-fogo.

Com tanta gente embolsando uma fortuna no mercado de previsões, os peixes pequenos também parecem reivindicar sua parte. Acredite, um operador de teleprompter da Casa Branca foi acusado de apostar em uma plataforma com as palavras que Trump usaria em seus discursos.

Mas o caso mais bizarro e distópico aconteceu em 7 de janeiro de 2026. A secretária de imprensa Karoline Leavitt terminou de forma abrupta e inexplicável uma coletiva faltando 30 segundos para completar uma hora e cinco minutos de entrevista.

Até aí, sabemos que a equipe trumpista gosta de simplesmente hostilizar jornalistas e interromper conversas de forma violenta. O problema é que havia apostas em um site dando conta de que a conferência não ultrapassaria 65 minutos. E como o evento se estendeu até os últimos segundos deste prazo, quem bancou a aposta lucrou de forma absurda.

Como todo mundo parece lucrar com inside information, Trump tomou a única decisão que se esperaria dele: oficializar a venda destas informações. Como se negociasse um mero plano de celular, o Agente Laranja disse que faria pacotes de assinatura em sua rede social. Afinal, se sua palavra vale dinheiro, nada melhor do que comercializar.

Já vimos presidências se tornando balcões de negócios. Donald transformou a sua em uma mesa de cassino.

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Rafael Simi é jornalista com passagem pelas redações do Grupo Globo.