
(Foto: Pavel Danilyuk/Pexels)
Nunca foi tão fácil fazer uma pesquisa, produzir um texto ou, até mesmo, criar uma imagem. Paradoxalmente, nunca estivemos tão sem tempo para ler o que tão facilmente foi feito. Em uma busca que levou menos de 30 segundos, a IA já me trouxe um panorama das pesquisas sobre o seu uso no jornalismo. Inclusive, percebi algo interessante, segunda as informações levantadas a partir do Google Scholar, podemos dividir as pesquisas em quatro grandes momentos:
- 2014 – 2016: início das pesquisas sobre geração automática de textos, com foco em esportes e finanças, em que os artigos discutem se a automação poderia substituir ou apenas complementar jornalistas humanos.
- 2017 – 2019: ferramentas de automação começam a ser testadas em redações internacionais e surgem os debates éticos sobre autoria, credibilidade e transparência.
- 2020 – 2022: pesquisas se concentram em como a IA pode ajudar a detectar fake news, uso de algoritmos para verificar dados em tempo real e aceleração da adoção de IA para lidar com sobrecarga informativa.
- 2023 – 2024: estudos analisam como ferramentas generativas estão sendo incorporadas às rotinas jornalísticas e estudos sobre o papel da IA para fortalecer o jornalismo regional.
- 2025 – 2026: trabalhos discutem políticas de transparência e responsabilidade no uso da IA, inclusive com a redefinição de funções jornalísticas.
Notadamente, os debates avançaram e já superamos a fase do vislumbre da resolução de problemas como um passe de mágica, do pessimismo que os jornais iam acabar e agora já aceitamos essa realidade e estão discutindo as fronteiras éticas do seu uso. O impressionante é que levei menos de dois minutos para receber essa informação.
O ponto é que a facilidade de obter respostas somada à enxurrada de informações que recebemos todos os dias pode tornar o conhecimento algo raso e fugaz, uma releitura de uma cópia. Acredito que se Walter Benjamin ainda estivesse vivo talvez teria atualizado seu ensaio sobre como a tecnologia tem transformado a autenticidade e unicidade das obras de arte humanas.
Estou me apropriando da licença poética para tratar a pesquisa como uma obra de arte, assim como uma notícia, frutos do trabalho humano. Quem está habituado a ler ou a pesquisar provavelmente consegue identificar o escritor pelo estilo do conteúdo, seja na forma como constrói as ideias ou parágrafos, pela escolha de palavras. E nesse ponto veja a função como arte, resultado das experiências que o autor viveu, das leituras que fez e, até mesmo, das próprias crenças. Ele se mostra no texto, mas e a IA?
No geral, é possível percebê-la porque apresentam expressões padronizadas que causam um certo estranhamento pela ausência de variação e emoção. Não expressam sentimentos, eles não são construídos de vivências, mas de fatos lógicos e ordenações que alguém determinou para que fossem gerados os resultados.
É essa “reprodutibilidade” mecânica e desprovida de aura, como diria Walter Benjamin, que notamos nos textos gerados artificialmente. Pegando o exemplo da minha rápida pesquisa acima, reescrevi boa parte das frases, buscando inserir nuances e ritmo, elementos que a IA ainda não domina. E talvez esse seja o papel que vem sendo assumido pelos jornalistas: o de humanização.
O jornalismo é uma forma de conhecimento ancorada no tempo e no espaço, em que os jornalistas materializam crenças, saberes e códigos sociais por meio de modus operandi específico, para ser reconhecido como tal a partir de uma série de lógicas legitimadas que resultam na notícia.
A IA pode reproduzir uma notícia, com certeza. Mas, ela ainda não consegue atribuir valor ou significado àquilo que constrói, falta o elemento humano, um olhar crítico e sensível que transforma dados em narrativas que conectam, o ponto fundamental para que se tenha a autenticidade e unicidade.
Nesse sentido, vivemos uma nova onda de transformação do jornalismo marcada pela necessidade de reafirmar o papel humano na produção de sentido. Já superamos a fase industrial que consolidou a imprensa de massa, passando pela do imediatismo do rádio e da televisão, pela digital da ampliação da participação do público, e agora vivemos aquela que é apoiada pela IA. Nela, a tecnologia assume tarefas mecânicas enquanto o jornalista assume o papel de curador de sentido e mediador ético.
Diante desse cenário, o jornalismo se encontra em um ponto de inflexão histórico. A inteligência artificial não representa o fim da prática jornalística, mas a sua reinvenção. Cabe ao jornalista compreender os limites e as potencialidades dessas novas tecnologias, preservando o olhar humano que confere sentido, ética e empatia à informação. Se a IA é capaz de reproduzir o mundo em dados, o jornalista é quem o traduz em significado. Estamos diante do reforço de algo que já sabemos: o jornalismo é um campo em constante transformação, que se apropria da tecnologia para se conectar de forma ainda mais intensa àquilo que o torna indispensável: a sua essência profundamente humana.
Publicado orginalmente em objETHOS.
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Mariane Nava é Doutora em Jornalismo pela UFSC e pesquisadora associada ao objETHOS.
