
(Foto: Adiardi Zulfansyah/Pexels)
A icônica Rádio Eldorado FM retorna dia 7 de outubro na frequência 107,9 MHz. Enfim, uma excelente informação para o Brasil que empilha péssimas notícias dia após dia, ininterruptamente.
A emissora encerrou as atividades na frequência 107,3 MHz FM no dia 14 de maio de 2026, às 23h59, após 68 anos de história.
Era para sempre, mas, como na música de Cássia Eller, o pra sempre sempre acaba.
Por um momento, pensei em acompanhar o último dia de transmissão. Recusei participar do velório e sepultamento da Eldorado FM. Guardei o luto em silêncio.
Na paulistana Eldorado FM ouvi pela primeira vez a Billie Holiday cantar.
Certas coisas mudam a vida das pessoas. Começava a década de 90.
Acompanhava, todo domingo, às onze da noite, o programa de música new age apresentado pela jornalista, escritora e radialista Mirna Grzich, responsável pela difusão deste estilo musical no Brasil.
Jô Soares apresentava jazz e blues. O maestro Diogo Pacheco um programa de música clássica.
De Ella Fitzgerald a Tchaikovsky, Jô Soares e Diogo Pacheco, sem a inconveniência do didatismo, falavam sobre a vida dos compositores, dos músicos e contextualizavam na história o momento que a canção ou obra havia sido feita.
A FM que nasceu com DNA jornalístico divulgava artistas brasileiros internacionalmente reconhecidos e tocava os que praticamente estavam condenados ao esquecimento.
Da mesma forma, jovens artistas encontravam na Eldorado FM o espaço para divulgar seu trabalho.
Durante a programação o ouvinte era informado sobre estreias de filmes, teatro, apresentações musicais, exposições em museus, bienais, festivais, concertos, entre tantas variedades que somente a capital paulista dispõe. E mais importante, o que podia ser acessado de graça ou a preços populares.
Na Eldorado FM acompanhei entrevistas históricas concedidas aos jornalistas Marco Antonio Sabino e Roseli Tardelli, que lembro até hoje, mais de 30 anos depois. Ambos compartilhavam a bancada do Jornal Eldorado.
Entre elas a de Roseli Tardelli com Lima Duarte. A certa altura, entre risadas, Roseli pergunta: “Lima, onde fica o botão que te desliga?”.
Ao vivo, o ator lembrou os momentos mais marcantes da vida e terminou declamando “A Flauta-Vértebra” do escritor russo Vladimir Maiakovski: Memória! / Convoca aos salões do cérebro / um renque inumerável de amadas. / Verte o riso de pupila em pupila, / veste a noite de núpcias passadas. / De corpo a corpo verta a alegria / esta noite ficará na História. / Hoje executarei meus versos / na flauta de minhas próprias vértebras.
Como uma rádio, com este nível de qualidade, encerra as atividades?
Elegante, Roseli Tardelli demonstrava como entrevistas ao vivo deveriam ser conduzidas. Perguntas pontuais, a escuta na medida certa e não se colocar como protagonista acima do entrevistado, prática que se tornou corriqueira anos depois.
Para variar, ninguém se entendia na política brasileira no início dos anos 90, período que precedeu o impeachment do presidente Fernando Collor, no final de 1992.
No mesmo período, o Brasil vivia o auge da epidemia de Aids. Neste contexto a Rádio Eldorado FM refletia e se apresentava para além da notícia. Colunistas do Estadão participavam da programação comentando política e economia.
Quando ainda não era moda falar sobre meio ambiente, a emissora abria os microfones para ambientalistas e organizações, como a SOS Mata Atlântica, que lutavam para que a natureza não desse espaço à especulação imobiliária.
No início dos anos 90, a Rádio Eldorado FM levou ao ar e liderou a histórica campanha para exigir a despoluição do Rio Tietê, em São Paulo.
Por conta desse movimento, conheci a nascente do Rio Tietê, em Salesópolis, e percorri de barco, com o Corpo de Bombeiros, o trecho entre Mogi das Cruzes e Suzano.
Sob o primeiro viaduto, ainda em Mogi, sofás, pneus, sacos de lixo, animais mortos, esgoto e cheiro insuportável de excremento somado a resíduos industriais lançados sem tratamento no rio.
Estudante de jornalismo, escrevia para o Diário de Mogi. Meio Ambiente, destaque na Eldorado FM, era uma das pautas que mais gostava. Quando não havia, dava um jeito de sugerir para a chefia de redação.
Admirava Washington Novaes, referência em jornalismo ambiental e cultura indígena, que trabalhou no Estadão.
Reconhecido como um dos pioneiros no jornalismo ambiental, também do Grupo Estado, conheci pessoalmente o jornalista Randau Marques no mesmo período.
Marques era responsável pela comunicação da Secretaria Estadual de Meio Ambiente de São Paulo, que tinha como secretário o advogado e especialista na área, Édis Milaré.
Na época escrevi uma série de reportagens sobre os lixões do Alto Tietê, onze municípios ao todo. As cidades pagavam para despejar o lixo em um aterro em Itaquaquecetuba. Uma denúncia sobre lixo hospitalar fez com que eu trocasse os sapatos por botina e chegasse à noite na faculdade na condição de aluno mais insalubre da instituição.
O secretário Édis Milaré aceitou meu convite para conhecer o lixão de Itaquaquecetuba. Embora a visita não fosse oficial, a notícia correu e todos os prefeitos do Alto Tietê compareceram. Minutos antes do secretário chegar, um deles se aproximou e provocou, rindo: “Parece que seu amigo não vem”.
Quando a comitiva apareceu, a vontade que tive foi de pular de felicidade, pelo meu trabalho e a possibilidade de que dezenas de crianças que passavam o dia revirando e comendo sobras de comida naquele lugar fossem tiradas dali e levadas para a escola.
O lixo dos caminhões era disputado palmo a palmo por crianças e mulheres, como o Bolo do Bixiga, oferecido de graça no aniversário de São Paulo.
Após um descarregamento, um menino com aproximadamente sete anos se aproxima de mim com copinho de iogurte e oferece: “Qué tio? ainda tá bom!”
Desde então entendi perfeitamente o que a corrupção é capaz de fazer.
Trinta e seis anos depois entendo que a Rádio Eldorado FM foi um curso a distância de jornalismo que fiz paralelo ao presencial na universidade, com a mesma importância das redações do Diário de Mogi, Diário do Grande ABC e Gazeta Mercantil, onde trabalhei como repórter depois de formado.
No Brasil, as emissoras de rádio e televisão operam por meio de outorgas de serviços públicos concedidas, permitidas ou autorizadas pela União.
A Eldorado FM poderia servir como modelo de qualidade para outras emissoras. Deveria haver regramento mais rigoroso que permitisse que todo brasileiro fizesse parte do clube dos melhores ouvintes.
Cultura e educação transformam o ser humano para melhor e o país por consequência.
Anos depois, entrei descalço em uma barbearia para cortar o cabelo na Praia do Forte, na Bahia. Duas cadeiras puídas e antigas em estilo italiano. À frente, espelhos enferrujados pela maresia. A Eldorado FM estava sintonizada.
O carnavalesco Joãosinho Trinta nos ensinou que quem gosta de miséria é intelectual. O povo gosta de luxo e a Eldorado FM é puro luxo.
Seja bem-vinda de volta.
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Paulo Renato Coelho Netto é jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas Piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O Globo, CLAUDIA/Abril, Observatório da Imprensa e VICE Brasil. Foi repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Diário do Grande ABC. É autor de nove livros, entre os quais biografias e “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”.
