
(Foto: Acervo Pessoal)
Qualquer coisa que eu escreva sobre o jornalista Francisco Alfredo Dias Camargo, o Pancho, é pouco diante de tudo que ele me ensinou e do tanto que me ajudou. Para simplificar, antes de lembrar algumas passagens do cara mais brilhante, irônico, íntegro e mal-humorado que conheci, digo apenas que, para mim, o jornalismo se divide em dois tempos: a.C. e d.C. (antes do Camargo e depois do Camargo).
Camargo não era santo. “Perco o amigo, mas não perco a piada” era seu lema. Quando trabalhamos juntos, Camargo fazia da primeira página da Tribuna do Paraná uma obra de arte diária. Como tinha o duplo talento de escrever e desenhar, passava a tarde inteira criando a notícia do dia com uma diagramação especial, com foto recortada e tipologia especial no próprio past-up.
Camargo era maior do que a Tribuna. O jornal era o “vespertino” de O Estado do Paraná, assim como o Jornal da Tarde era o “vespertino” do Estadão. O foco do jornal eram as notícias policiais e o futebol. As cores eram vermelho e preto, como de seu adorado Atlético (sem o “h” dos tempos atuais). “Se espremer, sai sangue”, diziam. Só que não. Se espremessem, saía filosofia, saía democracia, saía arte e uma incrível paixão pela notícia.
Antes de ser diretor de redação da Tribuna, Camargo foi secretário de redação do Estadinho (nome carinhoso em contraponto ao Estadão). Foi lá que cometeu a sua manchete mais brilhante, que vou contar só no final. Quando Camargo se tornou diretor, não quis um “aquário” – que era um direito do diretor. Mussa José Assis, outro jornalista brilhante, gostava de ter um aquário, ou seja, uma sala de vidro; Camargo gostava da sua mesa no meio de todo mundo.
Suas manchetes eram sempre brilhantes, sempre com duplo sentido. Quando Indira Gandhi, primeira-ministra da Índia, foi assassinada com um tiro à queima-roupa, em 1984, quase todos os jornais noticiaram da forma clássica. Camargo, não. Na primeira página da Tribuna havia uma manchete forte, que não falava em morte: “INDIRA, COMO GANDHI”.
Camargo era extremamente culto. Vivia mergulhado na cultura. Sua primeira esposa, Lucia Camargo, sempre ocupou cargos importantes na área cultural. Dina Sfat se hospedava na casa dos Camargo. Tizuka Yamazaki colocou a filha do casal, Adriana, menininha ainda, para atuar em um de seus filmes. Camargo tinha muito orgulho de seus filhos. Teve ainda dois meninos, Fabiano e Guilherme, e uma menina, Clara – esta no segundo casamento, com a jornalista Fatima Bortot.
Quando Tancredo Neves morreu, mais uma vez, enquanto todo mundo fazia manchetes convencionais e falava em morte, Camargo tascou uma frase de Brecht na capa da Tribuna: “POBRE DO PAÍS QUE PRECISA DE HERÓIS”. Ele era assim. Não importava se o jornal era popular. Para ele, a manchete de um fato importante não era para ser dada para o leitor do dia, pois todo mundo de alguma forma ficaria sabendo, para “o leitor do futuro”.
– “Pensa em como a pessoa vai ler a sua manchete quando folhear o jornal daqui a 30 anos”, dizia.
Camargo respirava jornalismo e só uma vez na vida o vi saindo como um azougue da redação, deixando tudo para trás, inclusive a bolsa preta enorme e a primeira página sem terminar, quando recebeu a notícia de que seu filho Fabiano havia levado uma facada de um bandido em frente à sua casa. Por sorte, ficou tudo bem. Fazer um bom jornalismo era sua vida.
“Você pode ser o melhor jornalista do mundo no pior jornal do mundo”, me disse uma vez, quando eu estava meio desanimado com a carreira. Quando eu sorri, animado, ele completou: “Mas você também pode ser o pior jornalista do mundo no melhor jornal do mundo”.
Camargo era terrivelmente desapegado. Muitas vezes deixava achatar o salário da redação porque não se importava em ele mesmo ganhar mais. Estava feliz com seu carro Brasília 1976, que ficou com ele uns 20 anos. Seu carro tinha nome: “Toleman”. Usava o nome do primeiro carro de Ayrton Senna na Fórmula 1 para cortar qualquer insistência para que ele comprasse um carro mais novo.
Era também o responsável pela seção Triboladas, que assinava como Pancho, e criava apelidos incríveis (muitos politicamente incorretos). Ele também colocava uma foto de uma mulher de topless na primeira página e outra na Triboladas – sim, houve um tempo em que era comum esse tipo de apelo em jornais populares.
Numa época em que a revista Playboy mostrava as celebridades brasileiras nuas e essas revistas entravam nas casas das famílias sem nenhum pudor, Camargo preferia ser minimamente recatado e sempre colocava uma estrelinha cobrindo os seios das modelos.
– “Camargo, por que você coloca essas estrelinhas nos peitos das mulheres?”
– “Você já viu quanto custa esse jornal? Ninguém merece ver nada pagando essa merreca”, respondeu.
Foi Camargo quem me deu a melhor de todas as dicas sobre cinema. Como saíamos muito depois do fechamento do jornal, sempre havia todo tipo de conversa. Numa ocasião, eu estava me gabando dos filmes que já tinha assistido, entre eles o clássico Cidadão Kane, quando ele falou:
– “Você já viu Casablanca?”
– “Não.”
– “Então você não sabe nada sobre cinema.”
Curto e grosso. Quase uma ordem. E ele tinha razão. Depois vi Casablanca umas 40 vezes e talvez o tenha feito tantas vezes porque também lembro do Camargo e de suas lembranças. Acho que espelhava um pouco em Rick Blayne (Humphrey Bogart) e sonhava com a doçura de Ilsa Lund (Ingrid Bergman, que era considerava uma “mulher eterna”).
Politicamente, Camargo era da esquerda radical, mas não era petista, e tirava sarro de Roberto Requião quando posava de moderado: “Você é marxista-leninista, Requião”. Camargo foi filiado ao “Partidão” (PCB) quando ainda se sonhava com uma revolução comunista no Brasil.
Mas ele sabia separar as coisas e jamais fez campanha pró comunismo nos jornais que dirigiu. Não suportava erros de português nem que fosse no espaço em que o repórter colocava o nome na lauda (folha de papel onde as matérias eram datilografadas). Uma vez um repórter apressado entregou para ele uma matéria na qual dedilhou sem querer uma vírgula no meio do próprio nome: “Fulano, de Tal”.
Camargo ficou tão irritado que já leu a matéria com má vontade e passou anos chamando o cara de “Fulano Vírgula de Tal”. Era cruel nesse ponto. Mas montou uma redação de jovens talentos e não tão jovens quando Paulo Pimentel o chamou para reorganizar O Estado do Paraná. Eu tive a honra de ser escolhido para ser o secretário da redação, que era o cargo equivalente a editor chefe. Minha função, na prática, era fazer a primeira página. Porque mandar, mesmo, quem mandava era ele.
– Camargo, eu não tenho condições de fazer a primeira de um jornal.
– Tem sim, é só você pegar as cópias das matérias, fazer algumas chamadas, colocar algumas fotos e dar destaque para a melhor.
– Mas são muitas chamadas, não dá tempo de fazer.
– Dá sim, eu te ajudo – ele disse.
Ao contrário da Tribuna do Paraná, que só tinha títulos e fotos, O Estado do Paraná era aquele jornalão clássico, com muito texto na primeira página. Cada chamada era um resumo da matéria. E o jornal fechava o “primeiro clichê” às 7 da noite porque tinha que pegar o ônibus para todas as cidades do interior do Paraná. Nenhuma editoria fechava antes das 6 da tarde.
No primeiro dia, já era umas três da tarde e eu não tinha a menor ideia do que fazer. Estava acostumado a fazer reportagens e fechar uma página de editoria com notícias que chegavam ao longo do dia pelo teletipo. Então Camargo chegou na minha mesa e me chamou para a sala do telex.
– Veja aí quais notícias internacionais são boas.
Escolhemos umas duas ou três. Passamos pela editoria de artes e de economia, que fechavam cedo. Pegamos mais umas duas ou três cópias.
– Agora vamos fazer umas chamadas com essas matérias e depois o editor vai publicá-las.
Em menos de 10 minutos me entregou cinco laudas dobradinhas com cinco chamadas e cinco resumos.
– Pronto. Você já tem a base para sua primeira página. Faça isso todo dia para se garantir. Depois, na hora do fechamento, você pode substituir algumas pelas mais quentes.
Assim eu fiz. O jornal nunca atrasou. E durante anos fui aprendendo com o Camargo, sobre jornalismo, sobre cultura, sobre a vida. Se hoje você vê algum título em que coloco um ponto e vírgula, é influência dele. Se uso palavras pouco usuais, como “ínclito”, “vetusto”, “indefectível”, é influência dele. Se fiz carreira no jornalismo de São Paulo, é por causa dele, que escreveu de próprio punho uma carta de recomendação ao jornalista Carlos Maranhão, que na época era diretor de redação da revista Placar.
Camargo muitas vezes foi mal-humorado, mas nunca deixou de ser engraçado. Sua mesa do bar tinha que ser sempre a primeira, com vista para dentro. Ou uma do fundo, com vista para todo o ambiente. Camargo passava horas bebendo cerveja, fumando, pensando e observando. Tirava suas histórias do cotidiano. Ficava extremamente irritado quando via alguém usar o jornalismo para obter vantagens.
E fez o mais corajoso título da história do jornalismo do Paraná. A família do ex-governador Paulo Pimental – dono do jornal – era de Porecatu, cidade do norte do Estado. E havia, nos anos 70, uma fortíssima disputa por terras justamente nas terras do patrão. Era uma questão de uma aldeia indígena liderada pelo cacique Cretã justamente nas terras do dono do jornal.
A disputa ficou famosa e, como sempre acontece nessas ocasiões, acabou em tragédia. Houve um conflito e Cretã acabou levando um tiro da polícia e morreu. Como noticiar isso? Não sei que título um jornalista comum faria, mas Camargo cometeu a mais brilhante e corajosa manchete:
Cretã tem a terra; para sempre
Letras enormes, no alto do jornal, manchete de duplo sentido, como era sua marca. Para além da coragem de publicar essa manchete naquelas circunstâncias, Camargo teve a sacada de usar o ponto-e-vírgula, o que era totalmente incomum. Uma vez me confidenciou: “O que eu mais gosto nessa manchete é a elegância do ponto-e-vírgula”.
Mas agora Francisco Alfredo Dias Camargo está morto. Nunca mais teremos seus textos. Nunca mais teremos as charges do Pancho. Nunca mais Rolmops & Catchup, que escrevia na Gazeta do Povo. Nunca mais as sacadas geniais no Correio de Notícias, onde conheceu a Fátima. Nunca mais teremos a sua presença na mesa do bar. Nunca mais.
Isso é de uma tristeza imensa, porque Camargo poderia ter sido muito mais bem aproveitado pelos barões da mídia. Mas talvez isso seja um jeito egoísta de ver as coisas. Camargo foi o que foi. Melhor impossível. Camargo tem a glória; para sempre.
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Sergio Quintanilha é jornalista, editor do Guia do Carro, e doutor em Ciências da Comunicação pela USP. Trabalhou com Francisco Camargo nos jornais O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná de 1982 a 1988.
