Quinta-feira, 17 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1406

Jornalismo local nas eleições 2026

(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Aproximadamente 32 milhões de brasileiros podem ser considerados párias informativos na atual campanha eleitoral.  Eles vivem em cidades com menos de 20 mil habitantes, onde há pouca ou nenhuma circulação de notícias locais, situação que torna muito difícil a participação destes eleitores no debate dos problemas municipais e regionais.

Sem jornalismo local, os moradores de pequenas cidades acabam diante de uma difícil alternativa: suportar o “mais do mesmo” em matéria de candidatos locais ou submeter-se à agenda dos grandes jornais nacionais, o que, além de gerar desinteresse pelas eleições, os torna vulneráveis à instrumentalização do noticiário por influenciadores pagos por candidatos.

Esta discrepância entre a temática local e a global influencia a conduta dos jornalistas na cobertura de processos eleitorais. Os repórteres de jornais sediados em grandes cidades tendem a ver as questões locais como uma forma menor de política, enfatizando aspetos caricaturais ou brutais. Já os profissionais e amadores que cobrem campanhas eleitorais municipais assumem uma posição subsidiária dos jornais metropolitanos, e tendem a seguir a orientação das elites locais, como prefeitos, caciques políticos e empresários de sucesso.

Cobertura eleitoral estilo ‘corrida de cavalos’

Não se trata de definir quem é melhor ou pior repórter, quem faz jornalismo bem ou mal. A realidade política e social acaba influenciando as condutas e posicionamentos profissionais. O problema são as consequências para o eleitor local, que é levado a assistir a uma cobertura de campanhas eleitorais em que a grande preocupação é saber quem está na frente e quem vai perder, quase como nas corridas de cavalos.

O foco principal das campanhas regionais e nacionais é a luta pelo poder, que ganha uma visibilidade maior do que as questões municipais devido a estrutura das grandes redes nacionais de comunicação e ao volume de recursos destinado às campanhas dos candidatos a algum cargo em Brasília.  Enquanto isto, as questões locais permanecem intocadas porque os eleitores não têm informações adequadas sobre elas. Resultado, muitos prefeitos e vereadores eleitos transformam, impunemente, as prefeituras em negócios privados.

O volume de dinheiro e a intensidade da luta pelo poder contaminam os núcleos de decisão editorial nos principais jornais do país. A grande imprensa se torna também uma participante da luta pelo poder à medida que a publicidade cria condições para uma instrumentalização do noticiário. Isto contribui para o aumento do ceticismo de muitos eleitores em relação à imprensa e à política, num comportamento que ameaça a própria credibilidade no sistema democrático entre as pessoas com pouco ou nenhum acesso a informações confiáveis.

A imprensa nas pequenas e médias cidades está mais próxima dos moradores, o que permite aos jornalistas conhecer melhor os problemas municipais e contribuir para a sua solução. E é quase um senso comum de que todos os grandes desafios nacionais têm repercussões ou causas municipais.

O profissional local tem melhores condições para identificar notícias falsas e, também, para investigar questões mais complexas, que estão acima do conhecimento das pessoas comuns. Pode funcionar como curador, sugerindo fontes de informação, e como tutor, ao orientar os eleitores a identificar dados e fatos que possam servir para reforçar campanhas pela solução de problemas comunitários.

Jornalismo tipo ‘conversa na mesa da cozinha’

Estas possibilidades já foram testadas com sucesso em projetos jornalísticos em países como Estados Unidos, Finlândia, Austrália, Inglaterra e Holanda.  Algumas destas experiências deram origem a propostas inovadoras no desenvolvimento de um estilo próprio de cobertura eleitoral. Nos Estados Unidos, no final do século passado, surgiu o chamado jornalismo cívico, no qual repórteres e editores estabelecem uma estreita relação com comunidades locais, permitindo, entre outras iniciativas, que a imprensa local organize encontros entre moradores e candidatos eleitorais para debate de questões específicas da cidade, bairro ou região.

O aumento da diferenciação entre cobertura local e global contribui também para que a imprensa e o jornalismo percebam a necessidade de desenvolver uma agenda eleitoral baseada na perspectiva do eleitor, e não na de candidatos e partidos. Os debates organizados pelos adeptos do jornalismo cívico levaram alguns políticos a mudar a sua agenda de campanha eleitoral.

Mais recentemente surgiu uma outra tendência entre os profissionais desencantados com a cobertura eleitoral tipo ‘corrida de cavalos’ alimentada por pesquisas de opinião.  É o modelo ‘conversa na cozinha’, um formato inspirado na abordagem ‘mesa da cozinha’ (Kitchen Table Conversations), popular entre grupos de pesquisadores acadêmicos que, em vez de questionários, preferem tomar o pulso político dos eleitores participando das conversas familiares na mesa da cozinha, durante o café da manhã.

O fim da orfandade informativa entre os ‘párias eleitorais’ brasileiros é um desafio enorme para o jornalismo porque envolve a inserção de 32 milhões de brasileiros na produção de conhecimento socialmente relevante. A participação em pleitos é apenas um dos dilemas a serem enfrentados pelo jornalismo local. Já está provado que a prevenção de tragédias naturais depende de dados e fatos fornecidos por leitores, ouvintes, telespectadores e influenciadores locais.