
(Foto: Ron Lac/Pexels)
Já se vão vinte anos desde que a jornalista norte-americana Robin Givhan recebeu o Pulitzer Prize por transformar a crítica de moda em crítica cultural. E ainda precisa explicar o que faz.
Com graduação em Princeton e mestrado na Universidade de Michigan, ela começou no Detroit Free Press em 1988, na seção de entretenimento, até que surgiu uma vaga na editoria de moda. Ela se candidatou, não foi escolhida, mas ganhou a oportunidade de começar a escrever sobre moda masculina.
Um tempo em que havia orçamento no jornal para cobrir moda masculina nos desfiles de Londres, Milão e Paris. Foi assim, sem saber exatamente o que iria fazer, que Givhan embarcou para a Europa com um conselho: apenas reporte.
Em 1995, ela ingressou no The Washington Post e, por um breve período de seis meses, em 2000, esteve na Vogue americana como editora assistente. Logo percebeu que as revistas de moda são parte da indústria da moda.
No Post, ela consolidou seu modelo de jornalismo na seção Style, dedicada à arte, cultura e comportamento, e construiu sua reputação na cobertura de comportamento e poder a partir do ato de vestir.
Ela sempre teve muito claro o perfil do leitor do Post: instruído, curioso, engajado culturalmente e sem interesse específico por moda. A sua pretensão sempre foi que as suas matérias fossem lidas como qualquer outra do jornal.
Para Givhan, o compromisso do jornalista é com os fatos, o rigor e os padrões de apuração, inclusive quando o assunto é moda. É dispensar termos técnicos e jargões, descrever o efeito visual e levar o leitor para dentro da história.
Ela reconhece que o trabalho do jornalista passa pela troca com colegas e editores, observações sobre ponto de vista, escrita, tom, argumentos e perguntas que ajudam a refletir sobre o tema e o texto.
Ao analisar a presença do então vice-presidente dos EUA Dick Cheney na cerimônia pelos 60 anos de libertação do campo de concentração de Auschwitz, em 2005, Givhan chamou a atenção para as escolhas dele.
Cheney optou por uma parka verde oliva informal, em contraste com os sobretudos pretos e solenes dos demais presentes. Ela escreveu: “Há poucas dúvidas de que, intelectualmente, Cheney abordou a cerimônia de Auschwitz com reflexão e respeito. Mas o simbolismo é poderoso”.
Ao escrever sobre a visita da secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice à base militar dos Estados Unidos em Wiesbaden, na Alemanha, em 2005, disse: “Rice trouxe toda a sua essência para o cenário mundial – e isso incluiu sua sexualidade”.
Em 2015, publicou o livro “A Batalha de Versalhes”, no qual narra o desfile realizado no Palácio de Versalhes, em 1973, como um marco nas transformações sociais, raciais e econômicas que redefiniram os rumos da moda a partir de então.
Em 2020, deu mais um passo na carreira. Givhan foi promovida a senior critic-at-large do Post. Em 2025, ela deixou o jornal no programa de demissão voluntária. Mas não deixou o jornalismo. Em setembro de 2026, ao publicar um artigo na seção de opinião do New York Times, Givhan voltou a tratar das relações entre moda e poder.
Em “Cancel the Met Gala Instead”, ela partiu da controvérsia em torno do cancelamento da exposição dedicada a John Galliano no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, para discutir uma questão que também atravessa o jornalismo: qual é o papel das instituições culturais diante dos dilemas da sociedade?
Givhan sempre se posicionou como jornalista, não como parte da indústria da moda. Para ela, há jornalistas que cobrem moda, assim como há jornalistas que cobrem política ou economia. Quando Givhan escreve sobre moda, o que ela faz é jornalismo.
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Gustavo Sobral
