Quinta-feira, 8 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1409

América Latina: democracias policiais?

(Foto: Lara Jameson/Pexels)

Democracia policial? O oximoro pode surpreender ou até chocar, mas ele impõe sua verdade, por duas razões: a primeira, porque praticamente todos os países latino-americanos elegem seus governantes por meio de votação; a segunda, porque esses mesmos governantes, uma vez eleitos, sufocam os valores democráticos e o equilíbrio de poderes em benefício de um Executivo fortalecido, e confiam exclusivamente na polícia e nas prisões. Há 50 anos, a estrutura institucional dominante do “Novo Mundo” era ditatorial e militar. Hoje, ela é diferente, combinando eleições, intolerância e governança policial.

A América Latina ainda é democrática, se admitirmos que o recurso às urnas é um critério suficiente para eleger presidentes e parlamentares. Ora, esse recurso é praticamente universal na América Latina. Com exceção de Cuba, do Haiti, da Nicarágua e da Venezuela, os outros 15 chefes de Estado latino-americanos foram eleitos por meio de um pleito competitivo. O chefe do Executivo brasileiro foi eleito em 2022. Os chefes de Estado da Argentina e do Paraguai foram eleitos em 2023. Seus homólogos da Guatemala, do Panamá, da República Dominicana, de El Salvador e do Uruguai, em 2024. Os da Bolívia, do Chile, do Equador e de Honduras, em 2025. Os da Costa Rica, da Colômbia e do Peru, em 2026.

 O calendário dos “Quinze” segue seu curso. A próxima votação, no Brasil, está prevista para outubro, considerando o Primeiro Turno realizado e ainda o Segundo Turno por se realizar. Em 2028, será a vez da Argentina e da Guatemala. Essas eleições têm, há alguns meses, uma particularidade. Todas elas, até hoje, em setembro de 2026, elegeram candidatos de extrema direita: Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile, Abelardo de la Espriella na Colômbia, Laura Fernández na Costa Rica, Daniel Noboa no Equador, Keiko Fujimori no Peru e Nayib Bukele em El Salvador. Alguns se situam na centro-esquerda: Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Bernardo Arévalo na Guatemala, Claudia Sheinbaum no México e Yamandu Orsi no Uruguai. Um grupo menor, de centro-direita, com Rodrigo Paz na Bolívia e Luis Abinader na República Dominicana. Pode-se dizer que o tom da política é dado pelos “dez” da extrema direita, aos quais se juntaram rapidamente seus dois colegas de centro-direita.

Esse fenômeno foi qualificado como “quarta onda de conservadorismo radical” por um sociólogo argentino. Observador, situado na primeira ressaca dessa onda, na Argentina do presidente libertário Javier Milei, o sociólogo analisou seu país e seus vizinhos Brasil, Chile e Peru, apresentando diversas hipóteses explicativas: a rejeição a governos anteriores de centro-esquerda e de centro-direita que deixaram a maioria da população à margem, em situação de desamparo social; o uso de armas comunicacionais de desconstrução democrática – teorias da conspiração, fanatismo, religiões pentecostais –, tudo isso difundido massivamente pelas redes sociais, que se beneficiam de generosos financiamentos privados.

Como cereja do bolo, tudo isso foi incentivado verbalmente e publicamente – com a possibilidade de sanções comerciais e, no caso da Venezuela, até mesmo do sequestro do chefe de Estado – pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os governantes latino-americanos, asiáticos e europeus foram convidados a mobilizar seus recursos para garantir a segurança dos bens e da propriedade privada, que se encontram ameaçados, conforme lembraram no último dia 16 de julho, em Washington, diante de mais de 60 delegações, Marco Rubio, responsável pelas relações exteriores dos Estados Unidos, e Stephen Miller, assessor do presidente Trump, pelos “anticapitalistas, anti-imperialistas, comunistas, anarquistas ou marxistas”, […] “sua natureza fundamental é a mesma”, […], o “terror da extrema esquerda”. […] “Precisamos”, concluiu Marco Rubio, “identificar e mapear essa ameaça e reconstruir nossa arquitetura antiterrorista para destruí-la”. O bem comum, na versão de Trump, a ser preservado, para Stephen Miller, “é o nosso sistema e a nossa forma de governo”. Ou seja, as forças de mercado, cujos efeitos positivos, ocasionalmente, são direcionados à força para Washington, como pudemos constatar na noite de 3 para 4 de janeiro de 2026 em Caracas.

Seja como for, assistimos a uma sucessão em efeito dominó de mudanças presidenciais em direção à direita e à extrema direita, seguidas pela implementação, por parte dos governantes eleitos, de medidas que reduzem os compromissos sociais dos Estados e aumentam os recursos destinados às forças de segurança. A onda reacionária é tão forte que também afeta os poucos governos de esquerda minoritários. O Equador, de direita, e o Uruguai, de esquerda, por exemplo, mobilizaram blindados sobre rodas para garantir a segurança pública. O RPZ Condor UR425, no Uruguai, foi mobilizado nas ruas de alguns bairros de Montevidéu em junho de 2026, e o Jaguar 1, na província equatoriana de Los Ríos, em março de 2026. Foram anunciados projetos ambiciosos de abertura de centros penitenciários. Tudo isso sob a supervisão e orientação dos Estados Unidos, que se atribuíram o direito de interferência regional em nome de uma luta contra “o comunismo” e o que Donald Trump denomina de “narcoterrorismo”.

O modelo a ser seguido, em uma economia “livre” de qualquer compromisso coletivo, é a Argentina de Javier Milei. Mas, no que diz respeito à polícia, às prisões e à segurança, é Nayib Bukele quem se destaca como pioneiro. Ele foi o primeiro, desde que assumiu o poder em 2019, a combinar uma estratégia que, sob o pretexto da legitimidade eleitoral, une estado de exceção, prisões em massa e a construção de um gigantesco centro penitenciário, conhecido como CECOT ou Centro de Confinamento do Terrorismo. Embora o objetivo almejado, a aniquilação das gangues criminosas, tenha sido alcançado, o método empregado foi de uma brutalidade que nada tem de democrático. A associação Socorro Jurídico-Humanitário documentou a morte na prisão de 517 detentos. Segundo a mesma fonte, 92% deles estavam detidos sem julgamento, conforme permitido pelo estado de exceção.

Javier Milei enviou sua ministra da Segurança Interna, Patricia Bullrich, a El Salvador, de 15 a 19 de junho de 2024. Isso porque, segundo o comunicado oficial, “a Argentina acompanha e busca replicar o modelo implementado pelo governo de Bukele”. Nayib Bukele foi convidado para ir à Costa Rica, em janeiro de 2026, para lançar a pedra fundamental de uma prisão inspirada no CECOT. Daniel Noboa construiu no Equador seu centro penitenciário de alta segurança, na costa do Pacífico, em Santa Elena. Abelardo de la Espriella, presidente eleito da Colômbia, anunciou em sua campanha a construção de dez prisões no estilo salvadorenho. Em entrevista concedida ao jornal espanhol El País, a presidente da Costa Rica, Laura Fernández, embora negue estar copiando seu vizinho Bukele, reconhece ter “reproduzido (seu) modelo de prisão de segurança máxima”, conhecido no país como “Cacco”.

Os principais líderes do Chile e da República Dominicana, José Antonio Kast e Luis Abinader, deram um toque específico à questão da segurança, voltado para as populações migrantes. No Chile, nas fronteiras com a Bolívia e o Peru, o presidente Kast deu início, em março de 2026, na localidade conhecida como Chacalluta, à construção de um muro batizado de “Escudo Fronteiriço”, ou mais precisamente, a construção de uma vala de três metros de profundidade, com o objetivo de impedir a entrada de migrantes venezuelanos, colombianos, bolivianos e peruanos. As obras estão sendo realizadas pelo Corpo de Engenharia Militar do Chile. O custo desse muro foi estimado em 400 milhões de dólares. Valor esse, sem dúvida, proveniente dos cortes orçamentários anunciados em 16 de abril, no valor de 6 bilhões de dólares. Da mesma forma, a República Dominicana, no norte do país, em Dajabón, deu início, em abril de 2025, à construção de um muro de vários quilômetros, destinado a vedar a fronteira com o Haiti.

Essa democracia “CECOT”, de caráter concentracionista e de inspiração ideológica radicalmente de direita, é o modelo dominante atualmente. A ponto de, em certos aspectos, ter sido adotada por governantes de outras tendências políticas. Em dezembro de 2022, Honduras tinha, naquele momento, uma presidente progressista. Xiomara Castro, esse é o nome dela, havia decretado o estado de exceção e anunciado, em julho de 2023, o início da construção de dois complexos penitenciários do tipo CECOT. Yamandu Orsi, no Uruguai, conforme mencionado acima, decidiu, em junho de 2026, mobilizar veículos blindados para combater a criminalidade. O presidente boliviano de centro-direita, Rodrigo Paz, decretou estado de exceção em maio de 2026, para conter uma ampla mobilização social em resposta à suspensão dos subsídios aos preços dos combustíveis. Essa decisão foi aprovada pelos Estados-membros do “Escudo das Américas”, instituição criada por Donald Trump para garantir uma forma de protetorado norte-americano sobre a região. Os dez signatários latino-americanos desse tratado desigual acabam de receber a adesão da Colômbia e do Peru.

O Brasil, alvo de um fogo cruzado de interferências hostis por parte de Donald Trump e Javier Milei, resiste praticamente sozinho aos ventos dessa versão policial da democracia. O que está em jogo nas eleições presidenciais e legislativas brasileiras do mês de outubro, para além do Brasil, é também o futuro da democracia nas Américas.

Texto publicado originalmente em francês, em 19 de setembro de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “L’Amérique latine, en démocraties policières ?”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/135135. Tradução de Sandson de Souza Costa e revisão de Andrei Cezar da Silva.

Notas

Ariel Goldman, La cuarta ola, Buenos Aires, Marea, 2024.

Jennifer Hansler, “Miller e Rubio apresentam a extrema esquerda como uma ameaça fundamental para os EUA”, CNN, 16 de julho de 2026. Disponível em: https://cnnespanol.cnn.com

 Álvaro Murillo, “Laura Fernández, presidente da Costa Rica: Na Costa Rica não há ‘bukelização’, mas sim a continuidade da linha dura”, El País, Madri, 2 de agosto de 2026, p. 9.

Escudo das Américas: Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, El Salvador, Guiana, Trindade e Tobago.

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Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).