Quinta-feira, 2 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1395

O Congo que desaparece nas manchetes: como o jornalismo separou a tecnologia de sua origem

Crianças construindo escolas
(Foto: Christian Mutulani Arquivo pessoal)

Há países que desaparecem justamente quando se tornam indispensáveis.

A República Democrática do Congo talvez seja o exemplo mais eloquente desse paradoxo. Seu nome tem ocupado espaço recorrente nas manchetes internacionais sempre que uma guerra recrudesce, uma epidemia se espalha ou uma nova crise humanitária explode na região dos Grandes Lagos africanos. O país aparece associado a deslocamentos forçados, violência armada, pobreza extrema, mineração ilegal e surtos de ebola. Poucas nações são tão frequentemente noticiadas e, ao mesmo tempo, tão profundamente desconhecidas.

Paradoxalmente, o Congo desaparece justamente nos momentos em que está mais presente em nossa vida cotidiana.

Quando a imprensa noticia o lançamento de um novo smartphone, a expansão da inteligência artificial, a corrida pelos veículos elétricos ou os avanços da chamada transição energética, o país praticamente deixa de existir. As reportagens celebram inovação, design, desempenho, investimentos e sustentabilidade. Raramente perguntam de onde vieram os minerais que tornam essas tecnologias possíveis, o que torna possível essa tal energia limpa.

Essa separação não é um detalhe editorial. Ela produz uma forma específica de invisibilidade.

Ao longo das últimas décadas, consolidou-se uma divisão aparentemente natural do trabalho jornalístico. As minas de cobalto pertencem à editoria internacional. Os celulares pertencem à editoria de tecnologia. As baterias aparecem nas páginas de economia. A crise climática ocupa o noticiário ambiental. Cada assunto é tratado isoladamente, como se não compartilhassem a mesma história.

No entanto, compartilham.

Grande parte do cobalto utilizado nas baterias recarregáveis de telefones celulares, computadores e veículos elétricos é extraída na República Democrática do Congo. O coltan, do qual se obtém o tântalo indispensável à miniaturização dos circuitos eletrônicos, também tem importantes reservas no país. Antes que qualquer aparelho chegue às vitrines das lojas, sua história começa muito longe dos laboratórios e dos centros de inovação celebrados pelo noticiário tecnológico.

Essa origem, porém, costuma desaparecer da narrativa.

Não se trata de afirmar que a imprensa mente. O problema é mais complexo. O jornalismo informa sobre mineração, informa sobre conflitos armados e informa sobre tecnologia. O que raramente faz é conectar essas informações.

Essa fragmentação produz um efeito poderoso: permite que o leitor acompanhe diariamente a evolução tecnológica sem perceber que ela depende das mesmas cadeias produtivas que, em outras páginas do jornal, aparecem associadas à exploração mineral, à pobreza e aos conflitos armados.

A inovação parece nascer da inteligência humana.

A matéria-prima que a torna possível desaparece.

Essa lógica narrativa não é nova. Desde o período colonial, a África foi frequentemente representada como espaço de onde saem recursos naturais, mas raramente como lugar de produção de conhecimento, pensamento e cultura. O continente aparece como fornecedor de matérias-primas ou palco de crises humanitárias, enquanto os centros de decisão, inovação e progresso permanecem localizados, simbolicamente, no Norte global.

O caso congolês evidencia essa herança.

Ao longo da história, diferentes ciclos econômicos reorganizaram o interesse internacional por seu território. O marfim alimentou mercados de luxo. A escravização de milhões de africanos sustentou a expansão colonial atlântica. A borracha tornou-se indispensável para a Segunda Revolução Industrial. O cobre participou da eletrificação do século XX. O urânio extraído em Shinkolobwe integrou o projeto nuclear norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje, cobalto e coltan ocupam posição estratégica na economia digital e na transição energética.

Mudaram as tecnologias.

Mudaram os discursos.

Permaneceu o Congo.

Entretanto, essa continuidade histórica dificilmente aparece na cobertura cotidiana da imprensa. O acontecimento recebe prioridade; os processos históricos permanecem em segundo plano. A guerra é narrada como evento imediato, frequentemente desvinculada das disputas econômicas que ajudam a explicá-la. O lançamento de um novo dispositivo tecnológico é apresentado como triunfo da inovação, quase nunca como resultado de uma longa cadeia material que começa em territórios marcados por profundas desigualdades.

Essa dissociação produz também uma distância moral.

Consumimos diariamente objetos cuja existência depende de cadeias produtivas globais, mas quase nunca nos percebemos como participantes dessa história. O Congo transforma-se em uma realidade distante, pertencente apenas aos congoleses. A violência parece acontecer “lá”. O conforto tecnológico acontece “aqui”. O jornalismo, ainda que involuntariamente, contribui para manter essa separação.

Talvez por isso seja necessário repensar não apenas o conteúdo das reportagens, mas também seus enquadramentos.

A emergência climática exige uma transição energética. A expansão das tecnologias digitais parece irreversível. Nenhuma dessas transformações será plenamente compreendida se continuarmos tratando mineração, inovação, consumo e geopolítica como assuntos independentes.

O desafio não consiste em abandonar a cobertura factual. Ao contrário. Trata-se de ampliá-la. É preciso recuperar a capacidade de explicar conexões, revelar cadeias globais de produção e mostrar que a tecnologia possui geografia, história e materialidade.

Isso significa aproximar editorias, fortalecer o jornalismo internacional de longa duração, investir em reportagens transnacionais e, sobretudo, ampliar o espaço concedido às vozes africanas. Durante muito tempo, o Congo foi narrado quase exclusivamente por administradores coloniais, diplomatas estrangeiros e correspondentes internacionais. Ainda hoje, pesquisadores, jornalistas, escritores e intelectuais congoleses permanecem sub-representados no debate público global.

Não basta falar sobre o Congo.

É preciso falar com o Congo.

Essa mudança de perspectiva altera também a maneira como compreendemos o próprio papel do jornalismo. Informar não significa apenas relatar acontecimentos. Significa construir inteligibilidade sobre o mundo. Quando as conexões desaparecem, desaparece também parte da responsabilidade coletiva pelas estruturas que sustentam nosso cotidiano.

O jornalismo não pode impedir conflitos armados nem redefinir sozinho as cadeias globais de produção. Mas pode tornar visíveis relações que hoje permanecem fragmentadas. Pode mostrar que o celular no bolso do leitor e a mina aberta no leste da África pertencem à mesma narrativa histórica. Pode revelar que sustentabilidade não é apenas redução de carbono, mas também uma questão de justiça social. Pode, enfim, aproximar aquilo que a lógica da especialização editorial acabou separando.

Talvez o Congo continue desaparecendo das manchetes porque nunca deixou de estar presente em nossas vidas.

A diferença é que aprendemos a olhar apenas para o produto acabado, e não para a história que o tornou possível.

Reconstituir essa história é, hoje, uma das tarefas mais urgentes do jornalismo.

Não é por acaso que esta reflexão ganha atualidade às vésperas de 30 de junho, data em que a República Democrática do Congo recorda sua independência. Em 1960, diante do rei Balduíno da Bélgica e de representantes da comunidade internacional, Patrice Lumumba rompeu o protocolo ao afirmar que a liberdade de seu povo não havia sido uma dádiva da potência colonial, mas o resultado de uma luta marcada por sofrimento, resistência e dignidade. Seu discurso permanece como um dos documentos políticos mais contundentes do processo de descolonização africana porque reivindicava não apenas a soberania sobre um território, mas também o direito de os congoleses narrarem a própria história.

Sessenta e seis anos depois, essa disputa continua aberta. O país conquistou sua independência política, mas ainda enfrenta formas persistentes de dependência econômica, geopolítica e simbólica. Também no campo da comunicação permanecem desafios importantes. O Congo continua frequentemente retratado a partir de olhares externos, quase sempre associado às suas crises, enquanto sua produção intelectual, científica, artística e jornalística recebe espaço muito menor no noticiário internacional.

Recordar o 30 de junho, portanto, não significa apenas celebrar uma data nacional. É uma oportunidade para que o jornalismo também examine suas próprias práticas. Que histórias escolhemos contar quando falamos do Congo? Quais vozes legitimamos como fontes? Quais conexões permanecem invisíveis entre nosso cotidiano e a realidade congolesa? Essas perguntas são tão importantes quanto a cobertura dos acontecimentos imediatos, porque ajudam a compreender como determinadas formas de invisibilidade continuam sendo produzidas.

Ao se aproximar mais um aniversário da independência congolesa, talvez o melhor tributo que o jornalismo possa prestar não seja apenas recordar um episódio histórico, mas assumir o compromisso de construir narrativas mais completas, capazes de conectar tecnologia, economia, memória, colonialismo e direitos humanos. Afinal, uma independência também se consolida quando um povo deixa de ser apenas objeto da notícia e passa a ocupar plenamente o lugar de sujeito de sua própria narrativa.

Este artigo foi escrito em coautoria com o pesquisador congolês Christian Mutulani. Essa escolha não é apenas uma assinatura compartilhada; é parte do argumento que defendemos ao longo deste texto. Durante décadas, o Congo foi explicado ao mundo por olhares externos. Se o jornalismo deseja construir narrativas mais justas, precisa abrir espaço para que intelectuais, pesquisadores, jornalistas e cidadãos congoleses deixem de ser apenas fontes ocasionais e passem a ocupar o lugar de autores de suas próprias histórias.

A fotografia que acompanha este artigo traduz essa ideia com uma força difícil de ignorar. Nela, crianças — muitas delas com menos de oito anos — constroem, em South Kivu, uma escola utilizando galhos de árvores e um teto de palha. A imagem poderia ser lida apenas como retrato da precariedade. Preferimos enxergá-la também como uma expressão de resistência. Enquanto o mundo depende dos minerais congoleses para construir o futuro tecnológico, essas crianças constroem, com as próprias mãos, o lugar onde desejam aprender, pensar e transformar a própria realidade.

Porque a independência continua sendo construída todos os dias. Ela também começa quando escolhemos ouvir as vozes que, por tempo demais, foram mantidas à margem da história. Cada galho colocado, cada feixe de palha amarrado, expressa a convicção de que a educação é um caminho para romper ciclos de violência, pobreza e invisibilidade. Construir uma escola, nesse contexto, é também reivindicar o direito de existir, de aprender e de fazer com que suas vozes sejam finalmente escutadas.

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Marina Lee Colbachini é Doutoranda em Divulgação Científica e Cultural – Labjor/Unicamp.

Christian Mutulani é Pesquisador da República Democrática do Congo, residente em South Kivu, Congo, área muito afetada pelo ebola.