
(Foto: Srattha Nualsate/Pexels)
Não existem muitos destinos à espera das negociações de cessar-fogo na guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciadas e interrompidas sem acordo, no último fim de semana, em Islamabad, a capital do Paquistão. Um dos destinos esperados no início das negociações era chegar a uma solução “meia-boca”, gíria que se usa para descrever uma condição não plenamente satisfatória. O desfecho das conversações em Islamabad repetiu o que já tinha acontecido com o cessar-fogo acordado na terça-feira da semana passada (7) e que só durou até a manhã do dia seguinte. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, exige como condição para um acordo a liberação total da passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, um estrangulamento de mar que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, por onde passa diariamente 20% da produção mundial de petróleo, e que foi bloqueado pelo Irã nos primeiros dias da guerra.
Pelo seu lado, o governo do aiatolá Moitaba Khamenei, 56 anos, a autoridade máxima do Irã, exige para um cessar-fogo, entre outras coisas, a liberação de fundos iranianos que estão congelados em território americano. O encontro foi coordenado pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, 74 anos. A comitiva americana, liderada pelo vice-presidente J. D. Vance, 41 anos, tinha dois enviados especiais, os empresários do setor imobiliário Steve Witkoff, 69 anos, e Jared Kushirer, 45 anos, que é genro de Trump. Pelos iranianos, as negociações foram conduzidas por Mohammad Baghere Ghalibaf, 64 anos, presidente do Parlamento e ex-comandante da Guarda Revolucionária, o grupo que detém o poder no país, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, 63 anos. Na comitiva americana, o mais qualificado era o vice-presidente. Li a biografia de Vance. É um cara esperto. Pelos iranianos, a figura mais importante era Ghalibaf, por suas ligações com a Guarda Revolucionária. Na noite de domingo (12), Vance anunciou que, depois de 21 horas de negociações, divididas em três sessões, não houve acordo para um cessar-fogo. Nem o esperado “meia-boca”. Resumindo, voltou tudo à estaca zero. O principal impasse é quanto ao destino de mais de 400 quilos de urânio que o Irã já teria enriquecido e poderia usar para a fabricação de bombas atômicas, além da exigência americana do fim completo do programa nuclear iraniano. Após o fracasso das negociações, Trump surpreendeu dizendo que a partir desta segunda-feira (13) será a Marinha dos Estados Unidos que irá fechar o Estreito de Ormuz: “Ninguém entra, ninguém sai”, resumiu. Os detalhes da decisão saberemos durante a semana. Acrescento que mais de 200 navios petroleiros e porta-contêineres estão ancorados na região. E só atravessarão Ormuz se não houver risco. Caso se arrisquem, o seguro terá um custo astronômico. Aliás, vou citar um personagem que merecia mais atenção da imprensa: as seguradoras envolvidas na cobertura dos custos da guerra. Agora vamos falar sobre a “adaga do Irã no pescoço da economia mundial”. Se não fosse pelo envolvimento direto dos Estados Unidos, essa guerra seria mais uma na longa lista de confrontos entre Israel e Irã. Mas a aliança de Trump com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, 76 anos, alastrou o conflito por todo o globo, principalmente com a disparada dos preços dos combustíveis (e da inflação) devido as restrições na oferta de petróleo causadas pelo bloqueio de Ormuz. Antes do começo da guerra, em 28 de fevereiro, passavam diariamente pelo estreito cerca de 120 petroleiros e porta-contêineres.
No fim de semana, a guerra perdeu força nos noticiários com o retorno à Terra, na sexta-feira (10), dos astronautas que deram a volta na Lua. Em números redondos: meio século depois (a última vez havia sido em dezembro de 1972), os Estados Unidos enviaram quatro astronautas para a órbita da Lua: os americanos Reid Wiseman, 50 anos, Victor Glover, 49 anos, e Cristina Koch, 47 anos, e o canadense Jeremy Hansen, 50 anos. Eles partiram na nave Artemis II na quarta-feira, 1º de abril, e viajaram até um ponto distante do espaço, dando uma volta completa na Lua. A epopeia marcou a retomada das missões lunares da Nasa, a agência espacial americana, depois do bem-sucedido Projeto Apollo, que colocou 12 astronautas na Lua entre o final dos anos 60 e o início dos 70. A pioneira foi a Apollo 11, em 20 de junho de 1969, quando Neil Armstrong (1930 – 2012) e Buzz Aldrin, hoje com 96 anos, deixaram as primeiras pegadas de seres humanos no solo lunar. Vi a transmissão pela televisão, as imagens em preto e branco de Armstrong e Aldrin correndo pela paisagem vazia e cinzenta. A ideia é que americanos pisem na Lua novamente em 2028, iniciando a construção de abrigos, e no futuro partam de lá para a exploração do espaço profundo. O simples fato dos noticiários terem sido preenchidos pela viagem espacial foi como respirar ar fresco. Foi muito bom e me trouxe uma lembrança da minha infância. Em 1961, eu era um menino de 11 anos de família pobre que vivia em Encruzilhada do Sul, pequena cidade na Serra do Sudeste, interior do Rio Grande do Sul, onde a água congela nos canos no inverno. Na época, era comum, de tempos em tempos, passarem por lá pregadores anunciando o fim do mundo. Contavam uma história, as pessoas acrescentavam alguns fatos e, no final, o resultado era um relato apocalíptico, assustador. Lembro-me de uma ocasião em especial. No dia 12 de abril de 1961, o cosmonauta Yuri Gagarin (1934 – 1968), da extinta União Soviética, tornou-se o primeiro homem a dar uma volta na órbita da Terra. O feito rendeu muito assunto para os “apóstolos do caos”. Durante muito tempo, pegaram no pé de Gagarin, a quem apontavam como “sinal de mau agouro”.
Para arrematar. Vou relatar a conversa que tive com um velho colega repórter que conheci em Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, fronteira com Ciudad del Este, no Paraguai. Ele chamou a minha atenção para a eficiência com que Trump usa a provocação para desestabilizar seus adversários. Respondi que havia notado essa capacidade já durante o seu primeiro mandato (2017 – 2021), quando ele surpreendeu a imprensa fazendo provocações que colocavam em dúvida a honestidade dos jornalistas. Uma coisa que raras vezes tinha acontecido. No segundo mandato, Trump voltou ainda “mais afiado na arte de provocar”. Nem o papa Leão XIV escapou. No fim de semana, Trump encontrou espaço para atacar o líder católico, americano como ele, a quem chamou de “fraco no combate ao crime e péssimo para a política externa”. Os ataques vieram depois de Leão XIV ter classificado a guerra como uma “loucura” e fazer um apelo para que Estados Unidos, Israel e Irã cheguem a um acordo. “Não tenho medo de Trump”, reagiu o papa. O fato é que depois de seis semanas de guerra o presidente americano ainda não conseguiu desestabilizar os aiatolás do Irã. Será que finalmente encontrou um adversário a sua altura?
Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas
***
Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.
